Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 18 | página 08

A PROPÓSITO DA AUDIÊNCIA PONTIFÍCIA A 40 PASTORES

PROVOCOU comentários tendenciosos a notícia divulgada pela imprensa diária, de uma visita que um grupo de quarenta pastores protestantes, reunidos em Roma para um congresso de estudos sobre a Sagrada Escritura, teria feito ao Santo Padre.

Nas colunas do Osservatore Romano não encontramos qualquer menção a uma visita de ministros protestantes ao Sumo Pontífice. Os telegramas da imprensa diária parecem referir-se à audiência cuja realização o órgão vaticano, em sua edição de 16 de abril p.p., publicou nos termos que abaixo traduzimos.

Supérfluo será acrescentar que esta notícia pulveriza certas interpretações excessivas e imprudentes que circularam com base em mero noticiário telegráfico.

A "Society For Old Testament Study" junto ao Soberano Pontífice

"No dia 10 de abril pela manhã, o Santo Padre recebeu numerosa delegação da "Society for Old Testament Study" que participou de uma semana de conferências na sede do Pontifício Instituto Bíblico em Roma. Essa semana fora organizada pelo Revmo. Pe. Robert Dyon S. J.. professor do Instituto. Os eruditos, que provinham de diversas universidades da Inglaterra, e igualmente da Bélgica e da Holanda, eram conduzidos por Mons. John M. F. Marton, da arquidiocese de Westminster, ex-presidente da Sociedade, e pelo prof. D. Vinton Davies Thomas, novo presidente. Eram eles aproximadamente quarenta, inclusive membros honorários e conferencistas.

O Soberano Pontífice lhes dirigiu um discurso em inglês cuja tradução transcrevemos:

"Enquanto Nos dispomos a exprimir palavras de boas vindas e de estímulo a um grupo tão distinto de eruditos que estudam as Escrituras, Nossa memória se transporta imediatamente ao que Nosso santo Predecessor Dâmaso, há bem dezesseis séculos, escrevia ao douto São Jerônimo: "Eu não creio que possa haver entre nós assunto mais digno de conversa que as Escrituras" (Ep. XXXV-Migne P. L. vol. 22, col. 451).

Nada há mais verdadeiro quando se considera que, desde o "In principio" do Gênesis até o "Veni, Domine Jesu" do Apocalipse, as Sagradas Escrituras contêm a palavra de Deus. Que precioso filão de riquezas indizíveis é descoberto, por assim dizer, por cada uma de suas frases. Mas devemos ser breves. "Um prado é aprazível, — escreve Crisóstomo, — um jardim é belo; mais aprazível é ainda o estudo da Sagrada Escritura. No prado encontramos flores, mas elas fenecem rapidamente; na Sagrada Escritura ouvimos palavras que contêm o poder da vida eterna. No prado o zéfiro sopra; nas Escrituras o Espírito Santo respira ... No prado há o prazer efêmero dos sentidos; a leitura das Escrituras traz vantagem de valor durável Para a alma" (Migne P. G. vol. 152, col. 295-296).

Mas essas vantagens espirituais serão autênticas e sólidas na proporção do conhecimento seguro e minucioso que se terá do que disse o autor sagrado. Daí a necessidade sempre atual de eruditos devotados que, em sua pesquisa incansável para desvendar o significado exato da palavra divina, estarão em condições de fazer um emprego sábio e judicioso desse vasto conjunto de filologia, geografia, história e arqueologia bíblicas, de crítica dos textos, e de ciências naturais, de tal sorte que e Verdade Eterna possa irradiar dela em todo o seu esplendor para esclarecer e reanimar os espíritos e os corações dos homens.

É grato notar, à leitura de vosso programa, que tais eruditos não faltam hoje nas diversas partes do mundo, e esperamos apaixonadamente que numerosos outros que receberam de Deus em larga medida as bênçãos de um talento natural, da piedade e do saber, vos seguirão nesse mesmo louvável apostolado.

Tendes o propósito de encerrar vossa semana de estudos num dia santificado pela lembrança do triunfo glorioso d'Aquele cuja pessoa sagrada paira sobre todas as páginas da Bíblia. As diferentes partes desta, assim como raios convergentes, concentram sua luz sobre a figura resplandecente d'Aquele que, anunciado e longamente esperado, vem, no momento prefixado, realizar as esperanças e as aspirações de toda a humanidade, concernentes à vida eterna. O dom que Ele oferecia era a paz, — a paz com Deus, o Pai de todos. É esse também o objeto de Nossas preces quotidianas, o fim de todos os trabalhos e sofrimentos da Igreja. Quando todos os homens buscarem e encontrarem a paz com Deus terão percorrido um extenso caminho para gozar as bênçãos de uma verdadeira Paz entre as nações.

Possam a paz e a alegria de Cristo ressuscitado encher vossos corações e os corações daqueles que vos são próximos e caros."


O TOTALITARISMO EDUCACIONAL NA REPÚBLICA DO SALVADOR

A tendência para absorver nas mãos do Estado toda a educação, muito característica dos regimes totalitários de tipo comunista ou nazista, se manifesta também com frequência nas republicas liberais. Entre nós, por exemplo, é muito comum entre educadores que não se fartam de revelar em outros campos um entusiasmo sem limites pela liberdade.

Tal tendência é formalmente contraria à doutrina da Igreja.

Pertence ao Estado, visando ao bem comum, promover de muitas maneiras a educação e instrução da juventude, diz Pio XI na Encíclica "Divini Illius Magistri". Antes de tudo e diretamente, favorecendo e ajudando a iniciativa e ação da Igreja e das famílias. O próprio Estado pode cuidar dessa tarefa educacional em grau supletivo, complementando a obra da Igreja e dos particulares, quando se fizer necessário.

Entretanto, em todos os modos de promover a educação e a instrução pública e privada, deve o Estado respeitar os direitos naturais da Igreja e da família à educação cristã, além de observar a justiça distributiva. Eis porque é injusto e ilícito todo monopólio educativo ou escolar, que force física ou moralmente as famílias a fazer seus filhos frequentarem escolas do Estado, contra os deveres da consciência cristã, ou mesmo contra suas legítimas preferências.

Aos poucos, porém, o laicismo escolar vai fazendo caminho, de modo indireto, pela artificial criação de um ambiente impróprio à vida de estabelecimentos de ensino que não sejam os mantidos pelo próprio Estado, ou mesmo de modo direto, pela expressa proibição da lei.

Em ambas as hipóteses achamo-nos diante de uma injustiça, agravada no segundo caso, pela violência feita aos direitos da Igreja e da sociedade.

É o que se dá presentemente na Republica de São Salvador, onde o Ministério da Cultura acaba de negar ao Instituto da Santíssima Trindade permissão para abrir um curso de formação de professoras, alegando que o ensino normal é função exclusiva do Estado.

Tal ensino, declara o órgão oficial do governo responsável pela proibição, se ministra unicamente em escolas oficiais, com o que se visa formar uma ideologia unificada e imprimir um sentido filosófico definido à educação de que o povo necessita.

Para reforçar sua recusa, o Ministério da Cultura acrescenta que somente o Estado tem meios para suportar as despesas de uma escola normal, e que há tamanha escassez de professores que seria difícil aos particulares formar um corpo docente adequado.

A constituição salvadorenha dispõe que "el Estado podrá tomar de maneta exclusiva la formación del magistério".

Temos, nessa atitude do governo de São Salvador, características comuns ao modo de agir totalitário: — desprezo e até perseguição à iniciativa da Igreja, e do corpo social considerado em si mesmo, quanto à realização de tarefas que lhes são próprias; padronização e unificação de uma "ideologia" e de um "sentido filosófico" emanados do Estado.

Não foi por outras razões que a Igreja, pela voz de Pio XI, condenou a tentativa de monopólio da educação da juventude pelo totalitarismo fascista: - "Eis-nos aqui em presença de um conjunto de autênticas afirmações de fatos não menos autênticos, que põem fora de dúvida o propósito, já executado em grande parte, de monopolizar inteiramente a juventude desde a primeira infância até a idade viril para a plena e exclusiva vantagem de um partido, de um regime, sobre a base de uma ideologia que explicitamente se resolve em uma verdadeira estatolatria pagã, em aberta contradição tanto com os direitos naturais da família como os direitos sobrenaturais da igreja" (Encíclica "Nora Abbiamo Bisogno" de 29 de junho de 1931 )

O singular é que esta forma de totalitarismo parece não alarmar senão a muito poucas pessoas, se bem que a tirania educacional seja uma das expressões mais típicas e mais odiosas do moderno despotismo de Estado. Se se usa de rigor com os comunistas, jamais faltam os "inocentes úteis" que deles se condoam. Se o Estado rouba à família e à Igreja o direito preciosíssimo e inviolável de salvar as almas, os "inocentes úteis" assistem ao fato com a mais perfeita indiferença.


OS COMUNISTAS TCHECOS TENTAM «REEDUCAR» O CLERO CATÓLICO

O serviço tchecoslovaco para as Relações Eclesiásticas requisitou a antiga abadia dos Premonstratenses de Nova Rise, situada num vale de difícil acesso na Moravia meridional, e transformou-a em "convento de concentração" para "reeducar" os Sacerdotes segundo o espírito marxista.

Neste convento foram internados em número de cerca de 250, Padres seculares e religiosos de todas as idades, que lá vivem completamente isolados do mundo. A vigilância foi confiada a um grupo de 80 policiais, comandados por três oficiais. O pessoal compreende, além de outros, um número variável de agentes da polícia política e cerca de dez dos assim chamados "especialistas". Estes últimos, além do marxismo, conhecem a doutrina católica, o Direito Canônico, etc.

Eis conto transcorre o dia dos prisioneiros de Nova Rise. Pela manhã é celebrada a Missa, a que assistem todos os sacerdotes. Segue-se o café, durante o qual, sob pena de sanções graves, não podem os detentos trocar uma só palavra. Terminado o café, descem ao pátio para uma "pausa de recreação". Ai caminham em círculo e em fila indiana. Ao menor sinal de "indisciplina" o recreio é suspenso, e por três dias todos os prisioneiros ficam retidos em suas celas. O resto da manhã é dedicado ao "estudo". Os Sacerdotes; divididos em diversas seções, devem ouvir conferências sobre temas políticos, que têm como objetivo "converter" os incrédulos à ideologia marxista. Assim, entre outras coisas, tenta-se convencê-los de que o futuro pertence inevitavelmente ao comunismo, o Papado é prisioneiro do capitalismo e do imperialismo americano, etc... Inicialmente havia, após as conferências, "discussões livres". Quando ficou claro a que conduziam tais discussões, nenhum Sacerdote pediu mais a palavra.

Ao meio-dia almoça-se em absoluto silêncio. É permitida, porém, a leitura de um texto religioso. Do refeitório os presos são reconduzidos para as celas, severamente vigiadas. Com isso está terminado o programa do dia.

Procede-se, às vezes, pela tarde, a interrogatórios que terminam com promessas, ou ameaças, conforme os casos. Aos mais "compreensivos" para com a ideologia comunista prometem-se promoções a postos elevados da Hierarquia da Igreja. Os "reacionários", que são os fiéis a Roma, devem suportar penosas torturas.

De acordo com informações de fonte fidedigna, foi recentemente transferido para essa prisão o Arcebispo de Praga, Mons. José Beran, depois de ter estado internado em vários outros lugares. O Arcebispo está submetido à disciplina geral, com a única exceção de estar dispensado de fazer a limpeza de sua cela e do serviço de cozinha.


VERDADES ESQUECIDAS

Mais vale ao médico de almas preservar do mal do que curar

São Vicente de Paulo

De uma carta a Felipe Le Vacher, Sacerdote da Congregação da Missão, destinado ao apostolado entre os cristãos cativos da Algéria, que empreendeu a conversão de numerosos muçulmanos e renegados, com o risco de desagradar o soberano local e provocar a proibição de suas atividades apostólicas:

"É mais importante impedir que muitos escravos se pervertam do que converter um renegado. Um médico que preserva do mal vale mais do que aquele que cura. Vós não estais encarregado da alma dos turcos e renegados, mas sim da dos pobres cristãos cativos ... O zelo não é bom senão enquanto é discreto".