Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 18 | página 06-07

AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

Espontaneidade epicurista e gravidade cristã

Plinio Corrêa de Oliveira

Cena contemporânea da vida de família: um casal, em um recanto pitoresco, faz pic-nic com seus filhos. Algo de mal? Mas como! A reunião da família é em si mesma uma coisa excelente. Excelente é também que esta reunião se efetue em lugar ameno e atraente, que proporciona repouso e distração inocente. A pujança da vida doméstica se demonstra pela perfeita união, pela cordialidade absoluta entre todos. Oxalá, dir-se-ia, fosse sempre este o ambiente da vida do lar.

Tudo isto é bem verdade. Entretanto um observador mais fino não se deteria apenas nestes comentários superficiais. Analise-se o riso dos personagens: é rasgado, escancarado, como de pessoas que se entregam sem restrições ao pleno gosto de viver. A ideia de que os prazeres da vida são efêmeros; o homem vive nesta terra para o Céu, e precisa pois gozar com sobriedade os deleites temporais mesmo quando honestos; o ideia de que temos em nós, pelo pecado original, uma natureza frequentemente propensa ao erro e ao mal, a qual necessita, portanto, vigilância constante e mortificação; a noção de que vivemos em uma hora trágica da História, em que a todos cabe arcar com terríveis responsabilidades; tudo isto não marca as fisionomias, os gestos, o ambiente, do menor ou mais leve traço. Viver tão sem peias e sem preocupações quanto os pássaros destas belas árvores, ou os peixes deste lago tranquilo, eis o único desejo que transparece... e de quantos modos!

A ausência de todo e qualquer pensamento sério nestas mentalidades se prova pela atitude dos filhos e dos pais. Nestes, nada da gravidade, da respeitabilidade, que convém à sua autoridade sagrada. Naqueles, nada da reverencia, do respeito, da submissão própria à piedade filial. Estas quatro pessoas não se apresentam aí, umas em relação às outras, tanto como membros de uma família, quanto como excursionistas ligados pela mera e plena camaradagem da excursão.

E quanta gente pensa, hoje este é o verdadeiro ideal da vida de família! Ideal de uma espontaneidade naturalista e pagã, pois nele não se nota nada de especificamente sobrenatural e cristão.

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Cena bem diversa nos apresenta o quadro de François Hubert Drouais ( 1727-1775 ). É uma família no século XVIII. Não queremos dizer – é claro – que a vida de família nesse século tivesse sido sem jaça. Mas conservava mais tradições cristãs que a de hoje. Assim, nesta família, as atitudes e os trajes exprimem bem as diferenças de sexo e de idade, a fisionomia dos pais é própria a incutir respeito e submissão, tudo nos personagens exprime a harmonia, a força, o equilíbrio de temperamentos governados, controlados, dirigidos por toda uma concepção superior da vida. Há uma tradição de ascese, de mortificação, de saudável e cristianíssima energia moral neste ambiente entretanto tão afável, acolhedor, despretensioso.

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Porque esta comparação? Para que nos edifiquemos com os exemplos do passado, para retificar o presente e preparar o futuro. Pois para que serviriam os retrospectos históricos se esta finalidade moralizadora lhes fosse negada?


FATOS E NÃO PALAVRAS, PEDE MOSCOU AOS COMUNISTAS DA EUROPA OCIDENTAL

O Kremlin tem o pequeno núcleo comunista inglês em maior consideração do que os partidos comunistas do porte do francês ou do italiano. É que os comunistas britânicos, mesmo sendo em número dez vezes menor do que os franceses, e vinte vezes inferior ao dos italianos, organizaram com êxito, sob a direção de seu chefe nacional Harry Pollit, células clandestinas na marinha de guerra, sabotagens na indústria militar, em navios e na aviação, bem como espionagem em setores considerados inacessíveis. Basta lembrar as fugas de Pontecorvo, de Burgess e Mac Lean, os frequentes atos de sabotagens descobertos em navios de guerra britânicos, e os desastres aéreos.

Por essa razão, segundo consta de fonte bem informada, que, tanto na celebração da Revolução de outubro, quanto no aniversário da morte de Lenin, o retrato de Harry Pollit precedia o de muitos chefes comunistas, entre os quais o chinês Mao Tsé Tung, o coreano Kim-II-Sung e o vietnamita Ho Chi Min, aos quais seguiam os de Togliatti e Thorez.

A mesma fonte informa que dentro em breve uma delegação de ingleses escolhidos visitará Roma e Paris para fazer entender aos "camaradas" italianos franceses que, no caso de conflito, patrulhas de sabotadores bem adestrados serviriam melhor à causa do Kremlin do que uma centena de deputados que vociferam no Parlamento mas não conse-guem nem ao menos impedir os desembarques de armas americanas.


A DOUTA IGNORÂNCIA EM PRESENÇA DA FOME

A questão social não é primordialmente o problema do que se há de comer, mas de procurar o reino de Deus e Sua justiça

Cunha Alvarenga

“Hoje, com as forças da natureza postas a serviço da produção em massa, surge pela primeira vez na história um tipo de sociedade, da qual a pobreza pode ser suprimida e, com ela, a miséria e a fome". Dessa afirmação do sr. Josué de Castro em seu livro "Geopolítica da Fome" procuram os socialistas tirar partido, reduzindo o problema da miséria e da fome a um mero programa de melhor distribuição dos bens materiais.

Fome e fertilidade

Mas não é sem razão que os seguidores de Marx se valem do sr. Josué de Castro para a sua "linha auxiliar".

Sustenta o autor da "Geopolítica da Fome" uma tese que se presta a reforçar a explicação materialista do círculo de ferro em que os socialistas julgam preso o proletariado na estrutura econômica baseada no capital privado: não seria a superpopulação que produz a fome, e, sim, a fome que causaria a superpopulação. De modo que a fome concorreria para aumentar a grande massa dos que nada possuem além da prole, ao mesmo tempo em que as classes possuidoras, pela abundância de alimentação, iriam se reduzindo numericamente, com a incoercível concentração do poder econômico em poucas mãos.

Como todos os bens criados são uma dádiva de Deus, os homens sempre se habituaram a recorrer aos céus para pedir o necessário ao sustento da vida. Canaã, a terra fértil prometida ao povo escolhido, é um exemplo de como o Altíssimo costuma dar como acréscimo tudo aquilo de que precisam os que procuram em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua Justiça. Mas a essa ideia da abundância dos bens terrenos como dádiva dos céus, sempre se achou aliada a da fecundidade das famílias como outra benção de Deus. Tanto a esterilidade dos campos, quanto a esterilidade das mulheres sempre se apresentou como uma provação para os justos.

Os Livros Santos estão cheios desses exemplos do auxílio de Deus, pela extinção da miséria e pela multiplicação das famílias:

"Trocou o deserto em tanques de água, e a terra árida em mananciais de águas. E estabeleceu ali os famintos, e eles fundaram cidades para sua habitação; e semearam os campos, e plantaram as vinhas, e colheram frutos abundantes. E o Senhor abençoou-os, e multiplicaram-se em extremo, e não diminuiu o número dos seus animais" ( Salmos, CVII, 35 a 38 ). "E aliviou o pobre da sua miséria, e multiplicou as famílias como rebanhos de ovelhas" ( Salmos, CVII, 41 ). Mais ainda: "Bem aventurado és, ó justo, porque comerás dos trabalhos das tuas mãos; bem aventurado és e te irá bem. Tua esposa será como uma vide fecunda, no interior da tua casa. Teus filhos, como rebentos de oliveiras, estarão ao redor da tua mesa" (Salmos CXXVII, 2 e 3).

A pseudociência do Sr. Josué

Mas o sr. Josué de Castro não se deixa levar por considerações de ordem moral ou religiosa. Tudo se cifra a uma questão de alimentação, a ser resolvida pela produção em massa: "Os países de maior miséria alimentar, acossados permanentemente pela fome, que dizima suas populações aos milhões, são também aqueles em que as populações crescem com mais violência — a China, a Índia, o Egito e alguns países da América Central. Por outro lado, os países de melhores condições alimentares apresentam um verdadeiro declínio populacional incipiente — apenas equilibrando o seu número de nascimentos com o de mortes. É o caso da Austrália, da Nova Zelândia e dos Estados Unidos".

Não se limita o sr. Josué de Castro a fazer essas observações superficiais. Vai mais além. Chega a afirmar "cientificamente" que "um certo tipo de fome específica — a fome de proteína — pode determinar, tanto nos animais como no homem, um alto nível de fertilidade, enquanto com a ingestão de doses liberais de proteína caem de maneira sensível os índices de fertilidade".

Tal assertiva vem sendo contestada por vários cientistas de escol, entre os quais podemos citar o professor Afrânio do Amaral, que proporciona ao catedrático da Faculdade Nacional de Filosofia algumas proveitosas lições sobre a função das proteínas no organismo humano. E, entre outros argumentos, usa este extremamente simples: cita o sr. Josué de Castro a China e a Índia entre os países em que se dá o excesso de fertilidade pela fome de proteína. Ora, é sabido que a soja, de todos os alimentos que a natureza deu ao homem, é aquele cujo teor de proteínas é o mais elevado. Na falta de carne e de outros produtos da indústria animal, os povos orientais há vários séculos usam a soja como alimento básico. E é de se perguntar se não será justamente a presença da proteína da soja no organismo do chinês, do hindu, do japonês, que em parte explica o seu alto índice de natalidade.

Os verdadeiros termos do problema

Eis a que ridículo se expõe quem procura dar uma explicação exclusivamente material a um problema que é sobretudo de ordem moral, ligado à volição humana, e aos embates de variados fatores sociais.

Não se deve responsabilizar o excesso de proteína pelo decréscimo da população nos ambientes onde é maior a prosperidade material. Cabe esta responsabilidade aos líderes do movimento de restrição da natalidade e a assustadora disseminação das práticas anticoncepcionais no mundo ocidental. Não há muito tempo víamos em uma revista especializada um estudo sobre o problema da população nos Estados Unidos. Provava-se, à luz de análise estatística, que a população daquele grande país já estaria em franco declínio, não fosse o afluxo de imigrantes de nações reconhecidamente prolíficas, tais como a Itália e a Irlanda, de gente bem alimentada e sadia, e onde não existe a fome de proteínas. Mas acontece que se trata de países católicos nos quais não encontra guarida a pregação dos Drysdale, das Marie Stopes, das Annie Besant e de outros "missionários" do movimento de restrição da natalidade, que há vários anos vêm sendo um dos mais ativos empreiteiros da decadência do Ocidente cristão.

E se a civilização ocidental se acha em declínio e diante da perspectiva de extinção, não devemos este fato calamitoso a qualquer fraqueza biológica, nem, pelo contrário, a essa pilheria das boas condições alimentares do europeu, do neozelandês, do australiano ou do americano do norte, mas a um suicídio deliberado. A principal causa do decréscimo da natalidade entre esses povos é aquilo que todo o mundo sabe, menos o sr. Josué de Castro e a sua claque socialista: a criminosa aceitação do controle da natalidade.

Vagalume no telescópio

A descoberta do sr. Josué de Castro nos faz lembrar aquele seu colega da anedota: o astrólogo do sultão de Marrocos, que avisara ao seu senhor que a conjunção dos astros era favorável ao casamento do príncipe herdeiro. Momentos após, desce as escadarias da torre do observatório saltando quatro degraus de cada vez para dar notícia do terrível e lamentável equívoco de que fora vítima: havia um enxame de vaga-lumes dentro de seu telescópio.

Refaça, portanto, o apressado professor os seus estudos e deixe de lado a preocupação dos seus pseudoparadoxos. Não será a produção em massa que livrará o mundo da miséria física e moral, nem é a fartura que produz o "verdadeiro declínio populacional incipiente" em certos países. Por detrás dos simples meios materiais se acham as inteligências e as vontades. E tanto para a produção de alimentos, quanto para restringir a natalidade, os homens se valem dos recursos da técnica moderna. "Pensai no fogo, diz Pio XII. Freado e guiado, é um benefício, um auxiliar indispensável do homem. Mas uma vez liberto do seu domínio, leva pelo incêndio devastador a destruição e a morte nas cidades e nos campos. O mesmo ocorre com a técnica. Dom de Deus, por sua natureza, a moderna técnica ultra potente se torna, em mãos de homens violentos, de partidos dominados pela brutalidade da força, de Estados onipotentes e opressores, um terrível instrumento de injustiça, de escravidão, de crueldade, que nas guerras modernas leva até os limites do intolerável as dores e os tormentos dos povos. Quando, porém, é dominada e dirigida por uma sociedade humana que teme a Deus, que cumpre com os Seus preceitos e estima as coisas espirituais, morais e eternas, a técnica pode produzir aqueles benefícios a que é chamada, segundo os desígnios do Criador" ( alocução de Pio XII à Juventude da Ação Católica Italiana, "Osservatore Romano" de 14-9-1948 ).-

Em resumo: o problema da superpopulação e da fome não será resolvido nem pelos neomaltusianos, que advogam um crime, nem pelo sr. Josué de Castro, que advoga uma ingenuidade "científica". Trata-se de eliminar o egoísmo da fase da terra, trata-se de difundir o verdadeiro amor do próximo, que se baseia no amor de Deus e no respeito de Suas Leis. Não é primordialmente um problema do que havemos de comer, mas de procurar acima de tudo o Reino de Deus e Sua Justiça. Eis porque o desejado acréscimo não nos poderá ser dado através da servidão totalitária, da mentalidade concentracionária, que reduz a questão social unicamente às nossas necessidades materiais, para a satisfação das quais todo o resto, que mais importa, é miseravelmente sacrificado.