Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 165 | página 02-03
Continuaçao

Ressurge a propósito da "socialização" a desacreditada distinção maritainiana entre indivíduo e pessoa Continuação

esforço de sistematização que resultaria no movimento "que se convencionou chamar de personalismo, comunitarismo, ou solidarismo" (RB, p. 40). A tônica deste movimento "é a fixação desse imenso processo de socialização progressiva, com a qual a humanidade toda está irreversivelmente comprometida" (RB, p. 40).

Dentro deste sistema social os papeis primordiais não seriam mais exercidos pelos grupos até agora deles incumbidos, mas por estas novas realidades geradas pelo processo de socialização, a saber, as "comunidades": "Vejo a possibilidade de um sistema que defira a hegemonia do processo às comunidades reais e não mais ao Capital ou ao Estado" (RB, p. 41).

Estamos aqui diante de um elemento novo introduzido pelo comunitarismo, isto é, a comunidade real. Este ente, ao qual se vai conferir posição de hegemonia, é definido de maneira equívoca, em contraposição ao conceito de sociedade : "Sociedade é uma forma de associação da qual os homens participam por aquilo que eles têm. Comunidade é também uma forma de associação da qual os homens participam por aquilo que eles são. Uma na linha do ter, outra na linha do ser" (RB, p. 41).

Convém observar que a implantação desta hegemonia da "comunidade" não ocorre de modo automático. Exige-se o desenvolvimento de uma linha de ação, designada pela exótica expressão de "conscientização comunitária". Consiste este processo em levar as "comunidades" a tomarem consciência de si mesmas como realidades vivas.

Deixando de lado este ponto, que mereceria uma análise à parte, examinemos algumas das transformações estruturais propostas pelos defensores do sistema solidarista.

No terreno das atividades econômicas, por exemplo, ocorreriam modificações radicais: "Pregamos a transformação da empresa patrimonial e capitalista numa empresa realmente comunitária" (RB, p. 42). Quando se estabelece a fusão de determinados bens de produção, o direito de propriedade, dentro do novo sistema, deveria assumir forma coletiva. A este respeito diz o Sr. Luiz José de Mesquita: "Daí, a importância e necessidade de caminharmos para um tipo de propriedade coletiva, mais humana e controlável, à semelhança das cooperativas de produção, mas sem os vícios capitalistas, que geralmente deturpam muitas das atuais existentes" (ES, p. 317).

É claro que também a escola deverá ser completamente remodelada sob a inspiração comunitária. Num caderno mimeografado intitulado "Evolução da consciência humana", distribuído a participantes da Semana de Estudos promovida em fevereiro de 1964 pela JUC de São Paulo, encontramos indicações precisas nesse sentido (embora redigidas em português muito pouco universitário), que passamos a transcrever ipsis litteris: "Grande tensão pode ser verificada no âmbito do ensino, que necessita ser remodelado devido ser uma instituição ligada as possibilidades e limites da socialização, mas que por se achar inserida no todo de maneira arraigada, dificulta sua completa remodelação. A escola é uma instituição com amplas virtualidades democráticas, mas na realidade encontra estruturada de acordo com valores predominantes em uma sociedade estratificada em classes, onde a democratização encontra limites estruturais intransponíveis. Para se conseguir a democratização da escola deve-se antes conseguir a destruição ou redução de alguns obstáculos ao progresso da sociedade global".

TERCEIRA-FORÇA E SOCIALISMO

Este movimento de terceira-força, apesar de enquadrar nas fórmulas neocapitalista e socialista-comunista (sic) tudo o que lhe é adverso, comporta-se de maneira bastante diferente em relação a um e outro inimigo.

• Assim, afirma com toda a energia que a ordem criada pelo capitalismo não é cristã, maldiz o atual regime de propriedade e reprova os que se esforçam por preservar do assalto bolchevista as instituições sadias ainda vivas. Vejamo-lo nas próprias palavras de defensores da terceira-posição: "Ninguém pode coonestar um regime no qual a apropriação de poucos foi feita à custa da desapropriação de muitos, coonestar essa situação baseado na doutrina social da Igreja relativa à propriedade. Vá se inspirar noutros autores do século passado, mas não na doutrina social da Igreja (...). É preciso ter bem claro este ponto, porque tenho a impressão de que alguns trabalhos que estão sendo divulgados laboram nesse equívoco: pensam que se trata de tutelar a situação que está aí, e se nela se mexesse então haveria a derrocada do direito divino!" (RB, p. 30).

Obstinados em manter uma terceira-posição insustentável, os partidários desta investiram furiosamente mesmo contra os que em nossa terra preparavam as almas para enfrentar o assalto vermelho iminente. Assim é que o Sr. Mesquita ousou lançar desafinados agravos contra o consagrado "Catecismo Anticomunista" e seu benemérito Autor, o Exmo. Revmo. Sr. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D., Arcebispo de Diamantina. Produziu ele uma página que, para não dizer mais, revela um estado de obnubilação que incapacita para qualquer trabalho sereno de análise científica da realidade, cumprindo citá-la aqui para patentear a verdadeira natureza do equilíbrio alardeado pela terceira-força: "Outros, pior ainda, entendem ser a dita reforma (a reforma agrária) de caráter comunista (...). Trata-se de ponto de vista político ou simplesmente reacionário, atrasado, retrógrado. Entre nós houve mesmo quem escrevesse em um catecismo anticomunista: "Para dominar um país o comunismo apregoa a necessidade de várias reformas. A primeira é a reforma agrária, depois vem a reforma urbana, a comercial e a industrial, todas elas de caráter mais ou menos acentuadamente expropriatório e socialista" (sic). Nesta linha se utilizam do preceito do decálogo ou do caráter sagrado do direito de propriedade para defender os proprietários contra os proletários, como se promover a verdadeira justiça social, inclusive pelo direito de desapropriação, fosse ofensa ao sétimo mandamento da lei de Deus. Esquecem-se, assim, de que antes ofendem-no os beneficiários e defensores dessa situação, sendo esta antes uma questão não apenas de consciência, mas de bem comum e de ordem pública" (ES, p. 340).

Deixando de lado o non-sens das objurgatórias, queremos registrar a falta de coragem de citar a fonte de onde foi extraído o texto visado. Suprimimos aqui essa falha imperdoável numa obra tão recheada de citações bibliográficas: trata-se do artigo 88 do "Catecismo Anticomunista", do Exmo. Revmo. Sr. Arcebispo de Diamantina (5a edição, 110° milheiro, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1963, p. 39).

E dizer-se que tudo isto veio à luz no auge da subversão janguista...

• Bem diferente é a atitude da terceira-força cristã face ao socialismo. Não só admite a colaboração com as esquerdas, mas pretende mesmo encontrar na Encíclica "Pacem in Terris" (utilizando, aliás, uma versão que não concorda com o original latino) a recomendação para empreendê-la: "O Papa chama a atenção, na 5a parte da Encíclica (nas diretrizes pastorais), para a necessidade de se fazer distinção entre ideologia, filosofias do homem e da vida, e movimentos históricos que se originaram dessas ideologias. Porque as ideologias, uma vez fixadas, são o que são: erradas ou certas, do ponto de vista da Doutrina Social Cristã, e assim são condenáveis ou não. Entretanto, um movimento histórico que se origine dessas ideologias, na realidade concreta, no contexto de desafio de situações concretas com as quais se afronta, pode ir evoluindo, e mesmo tendo partido de uma determinada ideologia, pode evoluir de tal maneira que será preciso julgá-lo concretamente, e não unicamente em função da ideologia da qual provém" (RB, pp. 47-48). "Portanto, esse texto da "Pacem in Terris" nos coloca dentro do problema da possibilidade concreta da colaboração com as Esquerdas. (...) Eu tenho a impressão (já fiz alusão a esse aspecto), que as duas Encíclicas, "Pacem in Terris" e "Mater et Magistra", dão indicações de uma possibilidade de colaboração" (RB, pp. 49-50).

Chama-se, aliás, a atenção para o fato de que a possibilidade dessa colaboração não é descoberta brasileira, mas já foi posta em execução na França: "Não fomos nós, no Brasil, não foi o idealismo de nossa juventude, não foi a JUC, não foi a AP, que descobriram essa possibilidade de colaboração. A França já tem uma longa experiência nesse sentido, com a Le Catholique de la Gauche, que já foi grande problema, lá" (RB, p. 50).

Dentro dessa linha é perfeitamente compreensível o elogio que se faz ao extinto semanário da esquerda católica "Brasil, Urgente", embora ressalvando que provoca estranheza "uma posição tão negativista, de ataque": "Acho que a ideia de um tal jornal veio preencher uma profunda falha: carência de um jornal católico que tivesse a coragem de denunciar a iniquidade, de afirmar corajosamente uma ideia" (RB, p. 52).

O que não é compreensível — na "lógica", bem entendido, dessa interpretação dos textos pontifícios — é que apenas se vejam possibilidades de colaboração com os "movimentos históricos da esquerda", e nem sequer se cogite de qualquer trabalho em comum com outros movimentos, — talvez porque não sejam "históricos" ...

A respeito deste comportamento, analisado especialmente em recentes tomadas de posição do Sr. Tristão de Ataide, leia-se o artigo "Equilibristas", de Cunha Alvarenga ("Catolicismo", n.° 155, de novembro de 1963).

"SOCIALIZAÇÃO" NOS ENSINAMENTOS PONTIFÍCIOS

Examinemos mais detidamente esse ponto nevrálgico que é a questão da "socialização", sobre a qual se montou um verdadeiro castelo de cartas. Devemos distinguir nela os três aspectos sucessivamente considerados pela terceira-força: o vocábulo, o princípio e a ideologia.

Quanto à palavra socialização é oportuno lembrar — porque alguns fingem ignorá-lo — de onde partiu o primeiro alarme divulgado em nosso País acerca da exploração que se ia fazendo em torno desse termo, inexistente no texto oficial latino da Encíclica "Mater et Magistra". Foi precisamente desta folha, na introdução escrita pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para a tradução do importante documento ("Catolicismo", no 129, de setembro de 1961), que foi depois desenvolvida em artigo publicado na imprensa brasileira e do Exterior.

Apresentando a tradução portuguesa corrigida pela Redação de "Catolicismo" e escrupulosamente conforme ao original latino, assim se exprimia aquele insigne colaborador desta folha: "Por fim, a palavra "socialização", que aliás não significa necessariamente algo de afim com o socialismo — fato que qualquer estudioso conhece — não se encontra entretanto no texto latino da "Mater et Magistra" (...). Com este esclarecimento, visamos a desfazer um equívoco que vinha dando aso a numerosas explorações. De fato, entretanto, a palavra "socialização", como dissemos, e os técnicos o sabem, pode ser empregada em um sentido nada afim com o socialismo. Assim, nosso esclarecimento não tem o caráter de censura a esta ou àquela tradução. Mas, para cortar todas as explorações nascidas em nosso meio, parece mais simples pôr em evidencia que o termo não existe na Encíclica".

O esclarecimento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira caiu como uma bomba no meio dos vulgarizadores afoitos da "Mater et Magistra". Estes, no entanto, apesar de reconhecerem que o termo "socialização" não se encontrava no texto pontifício, continuaram a usá-lo, passando em silêncio as graves considerações divulgadas por esta folha. É o que demonstram estas palavras: "O termo socialização bem traduz, pois, essas expressões ou perífrases, sem ambiguidade, como vimos. (...). Passada a primeira reação, parece que venceu o bom senso, não mais se debatendo o problema. (...). Não mais campeia a grita dos que, reacionariamente, a ela se opunham como "perigosa" (...). Em língua portuguesa, o único tradutor que conhecemos não ter aceito a palavra socialização, nem como título, na MM, foi o Pe. Antonio de Oliveira Godinho (...)" (ES, pp. 175-176).

Mas, não contentes de usarem o termo, os próceres da terceira-força foram além, afirmando que através dele a Encíclica explicitava um verdadeiro princípio de socialização, conforme mostramos mais acima.

Aqui já entramos nitidamente no terreno da contrafacção. Com efeito, a propósito de um termo não existente descobrir um princípio não formulado é dar um passo largo demais.

Aliás, cumpre lembrar que a Encíclica "Pacem in Terris", apesar de tratar em sua Parte 1, no capítulo relativo a "Direito de reunião e de associação", de assunto intimamente ligado com a questão que se quis explorar na "Mater et Magistra", não dá, da mesma forma que esta última, qualquer elemento para sustentar o decantado "princípio de socialização".

Mas, há, entre outros, um documento recente da Santa Sé que esclarece definitivamente o assunto e põe abaixo as construções cerebrinas da terceira-força. Na carta enviada pelo Emmo. Cardeal Secretário de Estado, em nome do Santo Padre, à XXIII Semana Social dos Católicos Espanhóis — dedicada precisamente ao tema "A socialização e a liberdade" — lemos:

"O progresso técnico, com efeito, é acompanhado, por sua vez, pelo fenômeno da socialização que ele condiciona. Por esta palavra é necessário entender o que nos diz claramente a Encíclica «Mater et Magistra»: «Uma das características mais notáveis de nossa época é o incremento das relações sociais, isto é, a multiplicação progressiva das relações na vida comum, comportando formas diversas de vida e de atividade associada, e a instauração de instituições jurídicas». Este parágrafo descreve antes de tudo um fato social, a saber, que o homem de hoje está cada vez mais integrado nas relações sociais» (Carta ao Presidente das Semanas Sociais da Espanha, datada de 29 de maio p.p. e publicada no "Osservatore Romano", edição em francês, de 26 de junho — grifo nosso).

Não tem portanto o menor cabimento o que escreve o Sr. Luiz José de Mesquita ao comentar o parágrafo 61 da "Mater et Magistra": "( ...) não há dúvida de que a socialização se apresenta como um dos princípios da doutrina social cristã, segundo a encíclica MM de João XXIII. (...) Sem razão, neste particular, Gustavo Corção, ao escrever, a propósito do princípio de subsidiariedade: "Devo, aliás, assinalar que este é o único princípio realmente explicito na referida encíclica e que tudo o mais que se disse em torno de um suposto princípio de socialização não passa de pura fantasia" (sic) ("...Brás", in "O Estado de São Paulo", de 10-10-1962)" (ES, pp. 179-180).

Se está cabalmente demonstrado que na "Mater et Magistra" não existe nem sombra do pretenso princípio de socialização, é inegável, porém, que ele está instalado na mente dos propugnadores do não-alinhamento cristão. Mas, então, o que entendem eles precisamente por este processo ou princípio, e pela ideologia decorrente? É o que não se consegue atinar à primeira vista, dadas as espessas brumas que costumam envolver a esfera de pensamento "terciaria".

Urge desvendar este enigma, pois das construções ideológicas relativas a socialização já se ousou passar, em campo católico, às consequências práticas de colaboração com as esquerdas. E o mais trágico é que em nossa Pátria esta cooperação foi levada a extremos inauditos, e nos arrastou à beira do abismo comuno-castrista, em que não nos precipitamos por mercê, tão somente, da Virgem Aparecida, Padroeira do Brasil. Basta lembrar que o Sr. João Goulart, no fatídico discurso de 30 de março, aludiu a pronunciamentos da AC que reprovavam os que se opunham a seus revolucionários planos de reformas de base. O então Presidente referia-se evidentemente, entre outras, à manifestação da Ação Católica de Belo Horizonte, objeto da interpelação de mais de 200 mil brasileiros que enfureceu os arraiais comuno-brizolistas (ver "Catolicismo", no 160, de abril de 1964).

A CHAVE DO MISTÉRIO

Deve haver método em toda essa corrente comunitario-solidarista, há de existir algum conceito fundamental, alguma chave, enfim, que explique todas essas formulações mais ou menos esotéricas.

Realmente a chave existe e não é difícil encontrá-la. O próprio Sr. Tristão de Ataide é quem nos dará a pista. Com efeito, na "Introdução à Pacem in Terris" afirma ele: "Para que a pessoa humana se realize integralmente é mister que o indivíduo humano aceite a limitação de sua liberdade pela lei, a correção de seus interesses próprios pelas exigências da vida em comum. É nesse sentido que o espírito de socialização domina toda a Encíclica que formulou a doutrina social da Igreja no plano da vida nacional" (ES, p. 579).

Ressurge pois a propósito da socialização a insustentável e desacreditada distinção entre indivíduo e pessoa, vulgarizada por Jacques Maritain e outros pensadores da mesma orientação.

A respeito desta questão, que é por demais conhecida e já provocou amplos debates, reportamo-nos ao excelente estudo de autoria do Sr. Cunha Alvarenga, publicado nesta folha ("Brilhe a união dos corações", in no 99, de março de 1959, e "Jacob Boehme no pensamento de Berdiaef e Maritain", in n° 101, de maio de 1959). Assim expõe aquele colaborador de "Catolicismo" a distinção mencionada: "O chamado personalismo maritainiano faz uma estranha distinção entre indivíduo e pessoa. Segundo tal concepção, o eu-individual, ou simplesmente o indivíduo, ressaltaria da matéria selada pela quantidade e explicaria a subordinação, como parte, do homem à espécie, à sociedade e à pátria. Em contraposição, o eu-pessoal, ou simplesmente a pessoa, entraria na sociedade como um todo independente e livre, que só se vincularia diretamente a Deus" (primeiro artigo citado).

Em consequência, segundo o pensamento dessa corrente, o homem enquanto individuo é sede de egoísmo, de exclusivismo, de particularismo, enfim um ente avesso à vida comunitária. O homem enquanto pessoa é sede das tendências generosas, comunitárias, universais, teocêntricas, apesar de jazer mais ou menos encerrado dentro da carapaça do indivíduo.

Haveria, desse modo, dentro de todo homem uma espécie de esquizofrenia que levaria ao entrechoque interno de forças antagônicas, individualistas e personalistas, mantendo-o em permanente estado de tensão até o suspirado momento da libertação final da pessoa.

Desta concepção metafísica do homem decorre obrigatoriamente uma filosofia social. E sob a inspiração desta filosofia social, mais os dados do atual "processo histórico", chegamos logo à ideologia comunitarista. Podemos até imaginar que, segundo esta corrente, o verdadeiro enunciado de um "princípio de socialização" seria o seguinte: cumpre promover as tendências comunitárias do homem, enquanto manifestações boas próprias à pessoa, e reprimir as tendências de caráter privado, enquanto manifestações más, próprias ao indivíduo.

TERCEIRA-FORÇA, ALIADA DO LEVIATÃ TOTALITARIO

E claro que daí a justificar e empreender o assalto a todas as instituições de caráter predominantemente particular, consideradas obstáculos ao desabrochar da entidade pessoa, o caminho é curto. As instituições da família e da propriedade, constituindo enormes barreiras a impedir o avanço do comboio socialista, não poderiam ser poupadas. Certos sociólogos e políticos da terceira-força demo-cristã que se declaram católicos chamaram a si a missão de investir contra a barreira da propriedade privada, e de promover a "socialização" neste terreno. E o fazem até sob pretexto de defender a família e os seus membros, sem perceber talvez que, devido à unidade monolítica do processo revolucionado, as estruturas ligadas à família, já em vias de extinção, tornaram-se quase impotentes para proteger os seus membros, e mais débeis se tornarão com o enfraquecimento do direito de propriedade.

Muito a propósito vêm as graves advertências da Carta à XXIII Semana Social da Espanha: "Não se deve esquecer, entretanto, que esta reintegração do indivíduo em suas relações sociais não se produz no quadro das antigas estruturas familiares, patriarcais e locais, mas antes no quadro de uma sociedade de massa em que o indivíduo parece soçobrar no anonimato e se transformar em simples objeto em face da previdência social e de outras organizações profissionais ou de serviços públicos".

Não é o caso de perguntar se é colaborando com as esquerdas na tarefa comum de promover a "socialização" que a terceira-força comunitária arrancará o indivíduo do naufrágio no anonimato e da "coisificação"? Ou se, pelo contrário, contribuirá assim para entregá-lo de mãos e pés amarrados à sanha da hidra coletivista?

A verdade é que quem se empenha em reformar as estruturas sociais sem admitir a terrível realidade da conspiração revolucionaria, que se desdobra em todos os campos para destruir a civilização cristã e desviar cada homem de seu fim último, que é Deus, — esse acaba sendo instrumento e vítima da Revolução. É o que se dá com a terceira-força ao sonhar com a saída colateral da "socialização" para superar a luta fantasmagórica entre indivíduo e pessoa, em vez de se definir ante o embate dos dois verdadeiros adversários, entendidos nos termos do admirável ensaio "Revolução e Contra-Revolução", do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira.

Nesta hora decisiva, em que o Leviatã socialista desfere golpes mortais contra os últimos contrafortes da cidade católica, constitui o cúmulo da desorientação fazer, sob pretensa "cobertura doutrinal da Doutrina Social da Igreja", pacto de amizade com os inimigos do nome de Deus, e investir contra os bastiões e os defensores da boa causa. A isto se presta a terceira-força solidarista-cristã, deslumbrada pela miragem da utopia comunitária.


Não te fies na Revolução, nem mesmo quando falar com doçura

Orlando Fedeli

Segundo Hello, o mal não pede inicialmente para destruir o bem, e sim para morar junto dele. O dito é bem velho, pois hoje se usaria uma nova fórmula: o mal pede para coexistir com o bem.

Dado o antagonismo radical que há entre o bem e o mal, quando este pede a coexistência é porque ela lhe é taticamente mais vantajosa.

A História demonstra que também a Revolução procede assim. Onde ela encontrou resistência séria, quando venceu foi pela coexistência. Sempre que ela procurou a vitória pela violência, em lugares onde se lhe resistia seriamente, viu-se derrotada.

Ora, conforme bem demonstrou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em "Revolução e Contra-Revolução", o processo revolucionário tem um dinamismo semelhante ao das paixões desregradas. Quanto mais alguém cede às paixões, mais estas pedem. O mesmo se dá com a Revolução: quando se procura dominá-la cedendo o que ela pede, só se consegue estimular suas exigências.

Assim, diante da Revolução, como diante do mal, qualquer atitude que não seja de condenação e repulsa — e não o é, por certo, a atitude de coexistência — é uma capitulação e representa um incentivo para ela.

Além disto, espírito católico e espírito revolucionário se repelem mutuamente e, do mesmo modo que saúde e doença, não podem coexistir. Um tende a destruir o outro. Quando se concorda com um deles, está-se concordando com a destruição do outro.

*

Por outro lado, a Revolução tem tal dinamismo, que — muitos já o observaram — devora seus próprios filhos, como se pode comprovar na história da Reforma, da Revolução Francesa e da revolução bolchevista. Os líderes revolucionários da primeira hora são ultrapassados por outros mais radicais, que os eliminam e que, depois, por sua vez, são eliminados por outros mais extremados ainda. E que a Revolução só terá satisfação completa quando tiver destruído tudo o que é bom e ordenado, inclusive os resíduos de bem e de ordem que possam subsistir entre seus asseclas. Por isto mesmo, todos os que cedem diante dela, pretendendo melhor detê-la, e todos os que não têm coragem para tirar as últimas consequências dos princípios revolucionários, acabam sendo esmagados por ela. Daí o acerto da observação de Joseph de Maistre, de que a Revolução conduz os homens, mais do que os homens conduzem a Revolução.

Veja-se por exemplo na Revolução Francesa como "feuillants", girondinos, dantonistas, homens das mais variadas tendências, foram sendo derrubados uns depois dos outros. Na guilhotina morria sempre o ídolo da véspera.

Poder-se-ia objetar contra isto que, muitas vezes, registram-se recuos da Revolução, movimentos termidorianos que liquidam os radicais: o Diretório foi menos avançado que a ditadura robespierrista, Kruchev é menos virulento que Stalin. Onde fica, então, a dinâmica revolucionaria?

É que sempre que a Revolução, pela sua própria radicalização, provoca reações fortes, ela procura avançar pela astucia. Deixa então de usar palavras violentas, para falar com doçura. Executa um recuo aparente, tático, para poder continuar progredindo. Nesse momento ela propõe a coexistência, que, em si, já é para ela um triunfo, pois lhe dá direitos de cidadania junto de inimigos poderosos.

O jansenismo, o Diretório, Napoleão — exemplos de recuos revolucionários — na verdade não foram menos úteis ao progresso da Revolução do que toda a virulência dos anabatistas da pseudo-Reforma e dos jacobinos da Revolução Francesa.

Esta última é muito rica em exemplos de manobras revolucionarias. Estudando-lhe a história, percebe-se que ela só triunfou porque, nas ocasiões críticas, seus adversários em vez de resistir procuraram a coexistência, em vez da luta preferiram "ceder para não perder".

*

A Revolução de 1789 não teria talvez triunfado sem o apoio que recebeu — por ação ou por omissão — de grande parte do Clero francês. Diante da propaganda revolucionaria dividiu-se este, inicialmente, em três grupos distintos: um, pequeno, que pregava a resistência; outro, também pouco numeroso, inteiramente revolucionário; e uma grande massa mais ou menos tíbia e indecisa. Estes eclesiásticos do centro decidiram os destinos da França e, pode-se dizer, do mundo inteiro. Se eles tivessem resolvido resistir até a efusão do sangue, a Revolução Francesa teria malogrado. Mas, contaminados pelo vírus revolucionário jansenista e galicano, tíbios na vida espiritual, eles se deixaram levar pela onda que varria a França. Pedia-se-lhes tão pouco, a Revolução se mostrava tão idealista, tão zelosa do bem dos pobres, tão cheia de respeito pelo grande Arquiteto do Universo... Quem sabe se cedendo um pouco não se evitariam grandes males?

E assim uma larga parte do Clero francês foi levada a apoiar ou, pelo menos, a não combater as reformas propostas em 1789.

Essa tomada de posição de todo um setor do Clero arrastou grande parte da opinião pública mais dócil à influência da Igreja. Até mesmo regiões que mais tarde se notabilizariam pela sua vigorosa oposição à Revolução, como a Bretanha, de início não a hostilizaram, por causa, em ampla medida, da atitude assumida perante ela por tantos eclesiásticos.

Esses Sacerdotes de 1789, esquecendo-se dos princípios, e, alguns, não prevendo talvez perfeitamente as últimas consequências de sua pusilanimidade, tentaram conciliar o espírito revolucionário com a Igreja, quiseram fazer coexistir Catolicismo e deismo, Jesus Cristo e Voltaire, revolta e obediência.

A Revolução, a princípio, cortejou-os, aplaudiu-os, declarando-os homens esclarecidos e verdadeiros patriotas. Pouco a pouco, porém, os princípios produziram seus efeitos naturais, e esses Padres foram sendo postos em face das consequências necessárias de suas capitulações "patrióticas" e "esclarecidas".

Ainda aceitaram novas imposições revolucionarias. A nacionalização dos bens da Igreja (ver "A espoliação agrária dos bens da igreja na Revolução Francesa", "Catolicismo", no 138, de junho de 1962) foi feita com anuência do Clero, que despojando a Igreja e adulando a Revolução julgava fazer possível a coexistência.

Ao Padre Siéyès que se assustava com o avanço revolucionário, Mirabeau dizia: "Que quereis, meu caro Abbé? Vós soltastes o touro: por que vos espantais de que ele distribua cornadas?"

A Constituição Civil do Clero foi a mais grave medida revolucionaria contra a Religião. Por ela pretendia-se democratizar a Igreja, abolindo na prática a monarquia pontifícia e fazendo com que Bispos e Párocos fossem eleitos pelo povo. Apesar de essa lei ser expressamente cismática, houve muitos que procuraram ainda um meio de manter a coexistência, julgando que a Revolução se deteria aí.

Separados de Roma, excomungados, formaram eles a igreja constitucional que, de queda em queda, de capitulação em capitulação, de coexistência em coexistência, chegou à última apostasia. Bispos e padres "coexistentes" terminaram por repudiar sua igreja, chegando muitos a negar a Deus e declarar a Religião uma farsa.

Assim acabaram esses membros do Clero que não tinham nem zelo nem intransigência, nem espírito de fé nem fortaleza.

Houve porém uma parte apreciável do Clero francês que deu mostras de grande fidelidade e que preferiu o martírio à apostasia. Sem o seu exemplo e o seu sangue não teria havido a admirável insurreição dos camponeses da Vendéia. A perseguição violenta à Igreja desencadeou um movimento contra-revolucionário que ameaçou muito seriamente a Revolução.

Durante anos os Sacerdotes fiéis a Deus e a Roma viveram perseguidos, fugindo de um esconderijo para outro, rezando a Missa às ocultas, no meio dos bosques, para um "pusillus grex" de nobres e camponeses. Quando eram surpreendidos e aprisionados, seu destino era o martírio da guilhotina ou dos afogamentos no Loire. O sangue dos mártires, porém, é semente fecunda, e essas mortes floresciam em bênçãos de Deus sobre os lastimosos exércitos de camponeses que, rezando o terço e cantando louvores à Virgem, batiam-se heroicamente e derrotavam, um após outro, os regimentos jacobinos.

Quando a Revolução viu que não poderia aniquilar pela força o movimento de resistência dos católicos, mudou de tática. Fez reabrir as igrejas, deu liberdade aos Padres, - sem porém recuar um só ponto em matéria de princípios.

Foi a hora da tentação para os melhores. Perseguidos durante tantos anos, durante tanto tempo sofrendo, não tinham alguns deles compreendido ainda que a intransigência diante da Revolução deve ser absoluta. Postos entre a cruz da luta e as consolações da "paz", muitos desses heróis cederam. Tinham sido heróis por alguns anos... agora queriam descansar. Era chegado, afinal, o momento de pôr termo à luta, nem que para isso fosse preciso fechar os olhos para não ver que as leis e instituições revolucionarias continuavam em vigor.

O resultado é que os contra-revolucionários perderam seu élan combativo. Muitos, então, iludidos pela coexistência do jacobino e do Padre, depuseram as armas.

Já havia liberdade para ir à igreja, "M. le Curé" já podia celebrar tranquilamente a Missa... Os camponeses católicos julgavam só por isso ter obtido a vitória; quem triunfara, porém, fora a Revolução. O que não haviam conseguido as armas foi conseguido pela "paz", e leis que nem a guilhotina conseguira impor, a coexistência fazia aceitar.

*

Ora, o que assim se aceitava era o erro igualitário, era o erro liberal. Foi a sua aceitação que permitiu que a Revolução prosseguisse em sua marcha e assim se chegasse ao comunismo, pois a Revolução de 1789 já continha em germe o bolchevismo. E se os frutos da coexistência com a Revolução Francesa foram péssimos, o que esperar de bom de uma coexistência com o comunismo intrinsecamente mau?

Hoje, realmente, se apresenta de novo a tentação da coexistência; é portanto o momento de resistir e a oportunidade de obter a vitória. E esta será obtida se os homens tiverem fé, converterem seus corações a Deus e confiarem nAquela que é mais terrível do que um exército em ordem de batalha, a inimiga por excelência da coexistência com o mal e o erro.

Nada de ouvir, pois, as vozes de sereia dos revolucionários. Ouçamos sim os apelos de Nossa Senhora de Fátima e a palavra de Deus que, pela boca do Profeta, nos previne contra a enganadora coexistência com os maus: "Não te fies neles, mesmo quando te falarem com doçura" (Jerem. 12, 6).