revelaria uma compreensão equivocada da própria autoridade. O objetivo seria promover uma Igreja menos centrada na “hierarquia institucional”, e mais em “nós juntos” — uma experiência de comunhão apta a funcionar como “antídoto” para as polarizações modernas. Com a expectativa de que, caminhando e discernindo juntos “o que Deus está nos dizendo hoje”, a Igreja encontrará respostas para seus desafios.
A reação foi imediata. Aldo Maria Valli advertiu que uma sinodalidade sem magistério e sem autoridade episcopal transforma a Igreja “numa democracia liberal transposta para a ordem sobrenatural”, em que toda opinião, mesmo errada, “tem a oportunidade de caminhar ao lado da verdade”.
O silêncio de Leão XIV sobre o calendário da próxima Assembleia Eclesial tornou-se motivo de apreensão. O Cardeal Joseph Zen, por exemplo, denunciou a possibilidade de uma metamorfose do Synodus Episcoporum em organismo híbrido, que conduziria a Igreja ao destino da Comunhão Anglicana, fragmentada após décadas de concessões ao espírito do mundo. Daí sua pergunta, cada vez mais repetida: “A Igreja Católica não está cometendo suicídio?”
Ambiguidade calculada?
No intento de superar a polarização interna e de reconstruir uma unidade fictícia baseada num consenso frágil entre posições contraditórias, a Santa Sé de Leão XIV tem adotado uma postura de equilibrista em temas especialmente sensíveis, entre os quais a reivindicação do diaconato feminino, que ganhou enorme projeção no pontificado anterior.
Produziu frustração generalizada a recente divulgação dos trabalhos da segunda comissão criada pelo Papa falecido. Progressistas e feministas lamentaram ter
sido mantida a negativa para a ordenação de mulheres, enquanto os defensores da doutrina tradicional criticaram a repetição da fórmula de sempre: o tema “precisa ser mais estudado”, em vez de afirmar claramente e de forma definitiva, à maneira de João Paulo II, que a exclusividade masculina do sacramento da ordem em seu grau
inferior também é irreformável. Não surpreende que a agência dos bispos alemães tenha sintetizado: “Entre o não e o sim: o diaconato feminino permanece no limbo”. A mesma ambivalência reaparece em outras frentes, como na relação com o Caminho Sinodal Alemão. Daí o diagnóstico de José Manuel Vidal: o novo pontificado estaria marcado por uma “ambiguidade calculada”, na qual cada gesto e nomeação visa avançar sem rupturas visíveis. Segundo ele, Leão XIV já fez mais de 90 nomeações em poucos meses, evitando mudanças bruscas; em questões doutrinárias ou morais, não fechou portas definitivamente nem abriu todas elas. Recuperou símbolos “clássicos” do Papado, mas preservou as reformas magisteriais e sociais, permitindo interpretações divergentes. Por isso “os mais conservadores o veem como um restaurador; e os renovadores percebem uma continuidade com o aggiornamento da ‘Igreja em movimento’”.
A dificuldade dessa interpretação é equiparar dois polos essencialmente distintos: de um lado, os que desejam modificar a doutrina num sentido herético; de outro, os que defendem a perenidade do depósito da fé. Tratar ambos como extremos simétricos, que exigem um ponto médio de consenso, subestima o fato decisivo: dentro e fora do Vaticano há grupos heréticos exercendo forte pressão sobre o Papa. E cresce o temor de que Leão XIV, em nome de uma unidade aparente, acabe aceitando compromissos que fragilizem a integridade doutrinária. Mas a que custo?
Foto: Vatican Media