Os fatos históricos contradizem os manuais de ensino, que mostram os nobres de antigamente como soberbos, arrogantes, vaidosos, exploradores dos humildes trabalhadores. Bem ao contrário, toda a sociedade se empenhava em cumprir os preceitos do Divino Salvador, gerando dedicação e estima mútuas entre os nobres e seus servidores, sempre com respeito e familiaridade. O atendimento que atraía tantos deles ao solar de Mme de Chalais, na França, foi imortalizado por seu neto, o nobre diplomata Talleyrand (1754-1836):
“Mme de Chalais era uma pessoa muito distinta. Seu espírito, sua linguagem, a nobreza de suas maneiras, o som de sua voz, tinham grande encanto. Ela mantinha o chamado espírito de Mortemart (era este o nome de sua família).
“O tempo que passei em Chalais causou-me profunda impressão. O respeito devido à dignidade, nessas províncias distantes da capital, regrava as relações dos antigos grandes senhores, ainda residentes em seus castelos, com a nobreza de uma ordem inferior e com os habitantes de suas terras. A pessoa mais importante da província terse-ia por aviltada, se não fosse polida e benfazeja. Seus distintos vizinhos considerariam faltar a si mesmos, se não tivessem pelos seus antigos nomes de família uma consideração e respeito que, expressos com liberdades decentes, eram uma homenagem do coração. Sempre que viam seus senhores, os camponeses recebiam deles socorros e palavras encorajadoras.
“Alguns velhos senhores, terminada sua carreira de corte, sentiam prazer em retirar-se para as províncias que tinham contemplado a grandeza de sua família. Aí, de volta aos seus domínios, gozavam de uma autoridade de afeição, aumentada e aureolada pelas tradições da província e pela recordação daquilo que tinham sido seus antepassados. Dessa espécie de consideração jorrava certa importância sobre os que mais proximamente se sentiam objeto de seus favores.
“Chalais era um dos castelos daquele tempo saudoso e querido. Muitos gentis-homens de velha estirpe formavam para minha avó uma espécie de corte. Tinham gosto em acompanhá-la todos os domingos à missa paroquial, desempenhando cada um funções que a alta polidez enobrecia.
“Terminada a missa, nos dirigíamos para uma ampla sala do castelo, chamada butique, onde estavam os vidros contendo unguentos diversos, cujas receitas a velha residência conservava desde tempos imemoriais. Eram sempre renovados, pela solicitude do boticário e o desvelo do
pároco do lugar. Havia também garrafas de elixir, xaropes e caixas contendo outros medicamentos. Os armários guardavam provisão considerável de chumaços, grande número de rolos de ligaduras preparadas com velha roupa branca muito fina.
“Na sala que precedia a butique, esperavam reunidos todos os doentes que vinham procurar socorros. Nós passávamos por eles e os saudávamos. A camareira de minha avó fazia-os entrar um após outro, e minha avó os recebia numa poltrona de veludo, tendo diante de si uma mesa negra de velha laca. Por direito, eu me colocava junto à poltrona da princesa.
“Duas irmãs de caridade indagavam de cada enfermo suas moléstias ou suas feridas, em seguida diziam quais os unguentos que podiam curá-los ou aliviá-los. Então minha avó designava o lugar em que eles se encontravam, e um dos gentis-homens que a acompanhara à missa ia buscá-los. Outro trazia a gaveta com as ataduras. Eu pegava um maço, passava-o a minha avó, e ela mesma cortava as bandas e compressas de que necessitava.
“Os doentes levavam para casa ervas para chá, vinho, remédios e alguns outros confortos. Mas o mais tocante eram as bondosas palavras da boa dama, que os socorria em suas necessidades e se apiedava de seus sofrimentos. Os melhores remédios receitados por médicos de grande fama, ainda que distribuídos também gratuitamente, não conseguiriam reunir tantos indigentes. Sobretudo não lhes proporcionariam tão grande bem, pois lhes faltariam efeitos morais — obsequiosidade, respeito, fé e gratidão — que facilitam a cura do povo.
“As lembranças do que vi e ouvi nesses primeiros albores de minha vida são para mim de uma doçura extrema. Repetiam-me cada dia: ‘Desde sempre o vosso nome é objeto de veneração nesta terra’. Outro dizia-me afetuosamente: ‘Nossa família sempre esteve ligada a alguém de vossa casa. A terra que nós temos, foi de vosso avô que a recebemos. Foi ele quem construiu a nossa igreja. A cruz de minha mãe foi presente de Madame. As boas estirpes não degeneram’.
“Foi em Chalais, junto de minha avó, que sorvi todos os bons sentimentos: elevação sem orgulho — ternura sem familiaridade — respeito — afeto. Há uma herança de sentimentos que cresce de geração em geração.”
* * *
A miséria torna isolado e desconhecido aquele sobre o qual ela se abate. Mas o bem é difusivo por si mesmo, e através de relações cordiais os grandes conheciam muitas