Em seguida designou a Irmã Raffaelli Petrini para chefiar a Governadoria do Estado do Vaticano, depois de alterar a Lei Fundamental que reservava a função aos cardeais. Pouco antes havia aplicado pessoalmente outra inovação de cunho feminista, ao incluir 23 mulheres vindas dos quatro cantos do mundo como Leitoras, numa celebração em São Pedro.
Essas iniciativas progressistas tiveram seu contraponto em medidas simultâneas contra realidades conservadoras: a renúncia forçada de Dom Dominique Rey, cuja diocese era um foco de vitalidade e de apostolado em moldes clássicos, com abertura para o mundo tradicionalista; a dissolução do Sodalício de Vida Cristiana, um movimento conservador peruano danificado pelos abusos de seu fundador; visita apostólica ao Instituto do Verbo Encarnado, presente nos cinco continentes, e particularmente em zonas perigosas para os católicos.
Enquanto isso, defensores do diaconato feminino, da “inclusão radical” dos homossexuais e da imigração irrestrita foram promovidos, como o cardeal Robert McElroy, transferido de San Diego para Washington no exato momento em que Donald Trump assumia a presidência dos EUA.
Na primeira autobiografia publicada por um Papa, sob o título Esperança – A autobiografia, o Papa Francisco reuniu com a colaboração de Carlo Musso depoimentos concedidos entre 2019 e 2024. A obra deveria ser divulgada apenas como legado póstumo, mas o Jubileu de 2025 o levou a antecipar seu lançamento. Mais que um relato de vida, trata-se de uma síntese dos pontos centrais do pontificado, apresentando a trajetória de Jorge Mario Bergoglio como símbolo da “esperança”, tema escolhido por ele para o Jubileu.
O livro foi recebido com entusiasmo pelo ‘lobby’ pró-homossexual, sobretudo após o Papa afirmar, evocando a hostilidade dirigida à Fiducia Supplicans: “É estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que explora as pessoas (e isso é um pecado grave) ou com alguém que polui nossa casa comum, enquanto há um escândalo público se o papa abençoa uma mulher divorciada ou um homossexual”.
Apesar da declaração tranquilizadora do cardeal Blase Cupich no início do ano (“O Papa Francisco está fisicamente bem, mentalmente lúcido e espiritualmente muito forte”), desde muito sua saúde estava fragilizada. A infecção pulmonar de março de 2023 se tornara crônica, e ele nunca se cuidou devidamente: não tinha médico pessoal, ignorava orientações clínicas e tornara-se visivelmente irritadiço, desfazendo a imagem do “papa simpático”. Em fevereiro de 2025 sua condição agravou-se rapidamente: internação por infecção respiratória, evolução para pneumonia dupla, bronquiectasia e bronquite asmática; um bronco-espasmo severo em 28 de fevereiro quase lhe tirou a vida. Após 38 dias de hospital, recebeu alta com recomendação de dois meses de isolamento.
Um último livro autobiográfico para a posteridade
Ele ignorou as instruções e retomou audiências. Mesmo debilitado, Francisco reapareceu em público em 6 de abril e manteve compromissos na Semana Santa, por vezes aparentando desorientação. Em 10 de abril, surgiu de forma inesperada na Basílica de São Pedro, em cadeira de rodas, sem veste clerical, usando camiseta branca de mangas compridas, calças pretas, cobertor nos ombros e cânulas de oxigênio. Talvez uma tentativa de mostrar recuperação e desmentir rumores de renúncia, agravados por boatos sobre mudanças nas regras da sede vacante, que o Cardeal Gianfranco Ghirlanda precisou negar oficialmente. A repercussão foi