Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 900 | página 37
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numa vila e outras em hospitais, escolas e até num quartel da guarda. Todos recebiam casacos, sapatos, roupas íntimas ou um vestido. Mas o czarevich, futuro Alexandre III, mandou pendurar os presentes numa árvore de Natal que devia ser desmontada para que as crianças escolhessem seu brinquedo ou presente preferido.

O chefe da guarda do palácio imperial, Alexander Spiridovich, lembra-se de ter visto, “no centro da sala, uma árvore de Natal que chegava ao teto e era decorada com inúmeras pequenas luzes elétricas. […] Os oficiais militares se sorteavam papeizinhos com números. Então, os príncipes, o Czarevich e os oficiais verificavam os números concordantes com um pacote e os levavam para a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna, que então entregava os presentes correspondentes. […] O que deixava mais feliz o Czarevich era quando alguém ganhava um despertador. Os oficiais davam corda nele e o faziam tocar, o que o principezinho adorava”.

A noite de Natal no Rio de Janeiro era a festa das crianças e dos pais; dos venturosos da sorte e dos escravos. O contentamento reinava por toda a parte; ricos presentes destinavam-se com prodigalidade; os escravos, de roupa nova, cumpriam alegres suas tarefas; os presépios armados, as casas iluminadas no seu interior, os móveis bem espanados, os vestidos de seda estendidos sobre as camas, anunciavam a próxima festa, que começava logo ao escurecer, segundo nos descreve Melo Morais Filho.

A Missa do Galo punha em euforia casas inteiras: velhas, moças, meninos e rapazes, ninguém dormia, ninguém se ocupava com outra coisa qualquer. Certa parte da população, porém, preferia armar o trono do Menino Jesus, passar a noite entre cantigas e danças,

visitar o presépio. Nas freguesias e nos conventos, as pompas religiosas que iriam se realizar faziam sair fora dos hábitos regulares as comunidades, os vigários, o pessoal subalterno do culto.

O momento mais procurado acontecia na Capela Imperial. Apenas batia meia-noite, a multidão quase que não se podia mexer dentro da igreja; os músicos apareciam no coro, afinavam os instrumentos; as sentinelas, postadas em determinados lugares, descansavam as espingardas, cujas baionetas espelhavam os jorros da luz.

Então, as ondas do povo afastavam-se à direita e à esquerda, oferecendo passagem ao bispo, que ia solenemente oficiar. Vestido de capa de um tecido de ouro, vergado pelos anos, com a fronte coroada de mitra, portando o báculo, o príncipe da Igreja caminhava lentamente, precedido de monsenhores e cônegos, de turiferários e acólitos, de sacerdotes e diáconos, com círios acesos e cantando sagrados cânticos.

E a missa de Natal celebrava-se majestosa, porque nascera o Senhor, que “seria chamado o Admirável”. Nas diversas igrejas, não obstante serem as pompas litúrgicas menos grandiosas, não deixava de ser alto o piedoso fervor. Em outros tempos, quanta autonomia pomposa em nossos costumes! Quantas alegrias íntimas tomavam os corações!

NATAL NO RIO DE JANEIRO IMPERIAL

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, no Rio de Janeiro (Jean-Baptiste Debret, 1826).