numa vila e outras em hospitais, escolas e até num quartel da guarda. Todos recebiam casacos, sapatos, roupas íntimas ou um vestido. Mas o czarevich, futuro Alexandre III, mandou pendurar os presentes numa árvore de Natal que devia ser desmontada para que as crianças escolhessem seu brinquedo ou presente preferido.
O chefe da guarda do palácio imperial, Alexander Spiridovich, lembra-se de ter visto, “no centro da sala, uma árvore de Natal que chegava ao teto e era decorada com inúmeras pequenas luzes elétricas. […] Os oficiais militares se sorteavam papeizinhos com números. Então, os príncipes, o Czarevich e os oficiais verificavam os números concordantes com um pacote e os levavam para a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna, que então entregava os presentes correspondentes. […] O que deixava mais feliz o Czarevich era quando alguém ganhava um despertador. Os oficiais davam corda nele e o faziam tocar, o que o principezinho adorava”.
A noite de Natal no Rio de Janeiro era a festa das crianças e dos pais; dos venturosos da sorte e dos escravos. O contentamento reinava por toda a parte; ricos presentes destinavam-se com prodigalidade; os escravos, de roupa nova, cumpriam alegres suas tarefas; os presépios armados, as casas iluminadas no seu interior, os móveis bem espanados, os vestidos de seda estendidos sobre as camas, anunciavam a próxima festa, que começava logo ao escurecer, segundo nos descreve Melo Morais Filho.
A Missa do Galo punha em euforia casas inteiras: velhas, moças, meninos e rapazes, ninguém dormia, ninguém se ocupava com outra coisa qualquer. Certa parte da população, porém, preferia armar o trono do Menino Jesus, passar a noite entre cantigas e danças,
visitar o presépio. Nas freguesias e nos conventos, as pompas religiosas que iriam se realizar faziam sair fora dos hábitos regulares as comunidades, os vigários, o pessoal subalterno do culto.
O momento mais procurado acontecia na Capela Imperial. Apenas batia meia-noite, a multidão quase que não se podia mexer dentro da igreja; os músicos apareciam no coro, afinavam os instrumentos; as sentinelas, postadas em determinados lugares, descansavam as espingardas, cujas baionetas espelhavam os jorros da luz.
Então, as ondas do povo afastavam-se à direita e à esquerda, oferecendo passagem ao bispo, que ia solenemente oficiar. Vestido de capa de um tecido de ouro, vergado pelos anos, com a fronte coroada de mitra, portando o báculo, o príncipe da Igreja caminhava lentamente, precedido de monsenhores e cônegos, de turiferários e acólitos, de sacerdotes e diáconos, com círios acesos e cantando sagrados cânticos.
E a missa de Natal celebrava-se majestosa, porque nascera o Senhor, que “seria chamado o Admirável”. Nas diversas igrejas, não obstante serem as pompas litúrgicas menos grandiosas, não deixava de ser alto o piedoso fervor. Em outros tempos, quanta autonomia pomposa em nossos costumes! Quantas alegrias íntimas tomavam os corações!