Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 89 | página 04-05

REFORMA AGRÁRIA

EVITEMOS TAMBÉM EM MATÉRIA DE ECONOMIA A LÓGICA DO SALEIRO E DA PIMENTA...

(continuação)

na Colômbia, onde a monocultura é muito mais pronunciada do que no Brasil, o café é produzido em pequenas propriedades.

O agricultor planta aquilo que lhe permite auferir rendimento mais elevado, e não pode ser censurado por isso. Enquanto, como resultado das condições do mercado consumidor internacional e da política econômica nacional, apenas o café remunerar satisfatoriamente os produtores, em seu cultivo se empenharão estes, sejam pequenas ou grandes as suas terras. E permanecerá o regime de monocultura.

Resta examinar se, quanto às possibilidades de elevação da produtividade, não haveria vantagem real numa eventual reforma agrária.

A experiência de outros países E o conhecimento da índole de nosso povo poderão esclarecer-nos a esse respeito. Em conferência proferida durante o Congresso Internacional da Vida Rural, reunido em abril de 1957, em Santiago do Chile, um dos participantes do conclave acentuou que a reforma agrária mexicana teve o grave inconveniente de inculcar nos antigos empregados agrícolas, tornados proprietários, "uma forte noção de seus direitos, mas não de suas obrigações". Em consequência disso e do baixo nível cultural dos beneficiados, foi comum entre eles a falta de iniciativa e de autodeterminação. Não é necessária muita perspicácia para deduzir que a redistribuição de terras não teve, no México, o poder mágico de aumentar a produção ou de melhorar a produtividade do trabalho. Pode-se esperar que, no Brasil, as consequências de uma medida idêntica sejam muito diferentes?

O nosso trabalhador rural - excluindo-se os de origem européia ou asiática, dotados de muita energia, capacidade de trabalho e vontade de enriquecer e progredir, e salvas as exceções que sempre existem - não encontra em si estímulos muito fortes para grandes realizações e empreendimentos novos. Ele se contenta com pouco, trabalha apenas o necessário para se manter em condições precárias. O nosso caboclo em geral tem poucas ambições, pelo menos poucas ambições que demandem esforços. Por outro lado, seus conhecimentos técnicos são extremamente rudimentares, e não se percebem nele muitas inclinações ou aptidões para assimilar facilmente novas técnicas de trabalho. Feita a reforma agrária, é bem possível que, sem a direção dos antigos fazendeiros, os nossos trabalhadores rurais se sentissem inclinados a produzir apenas o indispensável para a manutenção de suas famílias, e desse modo a produção total não só não aumentaria, como poderia até diminuir. Esse comportamento não deve ser objeto de estranheza, pois é fruto de padrões culturais antigos que não se removem da noite para o dia.

Tendo em vista as considerações expostas, parece-nos claro que os dois objetivos em favor dos quais se preconiza a reforma agrária no Brasil - elevar o padrão de vida das populações rurais e estimular o nosso desenvolvimento econômico - não seria atingidos com essa medida, pois a concomitância entre as grandes propriedades, de um lado, e a monocultura e a baixa produtividade do nosso trabalhador agrícola, de outro, é de natureza fortuita e não causal. Tão fortuita quanto a do saleiro e da pimenteira, de que nos fala Pigou ...


VERBA TUA MANENT IN AETERNUM

• Fora da Igreja Católica não há salvação

EUGENIO IV: Firmemente crê, professa e prega (a Sacrossanta Igreja Romana) que quem não esteja dentro da Igreja Católica - não só pagãos, mas também judeus ou hereges e cismáticos - não pode tornar-se participante da vida eterna, mas irá "para o fogo eterno que está preparado para o demônio e seus anjos" (Mt. 25, 41), a não ser que antes da morte venha unir-se a Ela. E que é de tão elevado preço a unidade no corpo da Igreja que, somente aos que nele permanecem, lhes aproveitam para a salvação os Sacramentos e produzem prêmios eternos os jejuns, esmolas e demais obras de piedade e exercícios da milícia cristã. E que ninguém, por mais esmolas que fizer, ainda quando derramar o sangue pelo nome de Jesus Cristo, pode salvar-se se não permanecer no seio e na unidade da Igreja Católica. (Decreto para os jacobitas, da Bula "Cantate Domino", de 4-II-1442, dirigida ao Concilio de Florença, XVII Ecumênico; D. 714).

• Invenção herética a evolução dos dogmas

SÃO PIO X: Quarto: Aceito sinceramente a doutrina da Fé transmitida até nós desde os Apóstolos, por meio dos Padres ortodoxos, sempre no mesmo sentido e na mesma sentença; e portanto rejeito a invenção herética da evolução dos dogmas, que passariam de um sentido a outro diverso do anteriormente mantido pela Igreja. Do mesmo modo condeno todo e qualquer erro pelo qual, ao depósito divino entregue à Esposa de Cristo - e que por Ela deverá ser fielmente custodiado - se substitui uma invenção filosófica ou uma criação da consciência humana, lentamente formada pelo esforço dos homens e que daqui por diante há de aperfeiçoar-se num progresso indefinido. — (Fórmula do juramento contra os erros do modernismo, do Motu proprio "Sacrorum Antistitum" de 1-IX-1910; D. 2145).

• Todo esforço de adaptação das Sociedades Religiosas deve preservar intacto o espírito que lhes é próprio

PIO XII: Uma sociedade organizada constitui um todo e possui uma fisionomia típica, que cada um dos membros contribui, de sua parte, para determinar. Todo esforço de adaptação empreendido no interior desse agrupamento acarreta necessariamente certas modificações do seu espírito próprio; isto é, toca-se de algum modo em suas fibras mais íntimas. Ora, toda sociedade zela por conservar intacto esse espírito, como é seu direito e dever; ela deseja ver seus membros impregnados dele e preocupados em penetrar dele suas vidas. A Igreja, por seu lado, e os Soberanos Pontífices, ao aprovar um gênero de vida determinado, entendem que ele se conserve em toda a sua pureza e para isto velam cuidadosamente. — (Discurso ao 2° Congresso Geral dos Estados de Perfeição, de 9-XII-1957).

• Alcance a SS. Virgem a conversão dos que se transviaram da verdade

S. PIO X: É Nosso desejo ardente que todos os fiéis se esforcem por adquirir esta virtude da caridade, valendo-se sobretudo, para tal fim, das festas extraordinárias que se vão celebrar em honra da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Com que crueza e ferocidade são atacados Jesus Cristo e a Religião santíssima por Ele fundada! Que perigo, pois, paira em nossos dias sobre muitos, de apostatar da Fé, impelidos pelos erros avassaladores! "Portanto, aquele que pensa estar de pé, cuide de não cair" (1 Cor. 10, 12). Dirijam todos, pois, pela mediação da Virgem, humildes orações e preces a Deus para que se convertam os que se tenham transviado da verdade. — (Encíclica "Ad Diem Illum", de 2-II-1904).

• A exemplo da Imaculada cumpre indicar às almas o caminho estreito que conduz à vida

PIO XII: A uma sociedade que na vida pública contestava com frequência os direitos supremos de Deus, que desejaria ganhar o universo ao preço da própria alma (cfr. Marc. 8, 36), e desse modo se lançava à perdição, a Virgem maternal lançou como que um grito de alarme. Atentos ao seu apelo, ousem os Sacerdotes pregar a todos, sem temor, as grandes verdades da salvação. Com efeito, não há renovação duradoura que não esteja fundada nos princípios infrangíveis da fé, e cabe aos Sacerdotes formar a consciência do povo cristão. Do mesmo modo como, compassiva para com as nossas misérias, mas clarividente acerca de nossas verdadeiras necessidades, a Imaculada vem aos homens para lembrar-lhes os procedimentos essenciais e austeros da conversão religiosa, assim também os ministros da palavra de Deus devem, com segurança sobrenatural, traçar às almas o caminho estreito que conduz à vida (cfr. Mat. 7, 14). Fá-lo-ão sem esquecer de que espírito de doçura e paciência necessitam (cfr. Luc. 9, 55), mas sem nada esconder das exigências evangélicas. Na escola de Maria aprenderão a não viver senão para dar Cristo ao mundo, mas, se for também preciso, a esperar com fé a hora de Jesus e a permanecer ao pé da cruz. — (Encíclica "Le Pèlerinage de Lourdes", de 2-VII-57).


OS CATÓLICOS INGLESES DO SÉCULO XIX

O FUNDADOR DO MOVIMENTO CATÓLICO INGLÊS

Fernando Furquim de Almeida

No início do século XIX a Inglaterra era um país de missão, dividido em oito vicariatos apostólicos. Os católicos, temendo a perseguição protestante, pareciam incapazes de qualquer manifestação pública de sua fé e viviam escondidos. Só alguns pequenos núcleos, reunidos em torno dos vigários apostólicos ou de nobres que se conservavam católicos, revelavam a existência da Igreja na Inglaterra. Um cardeal de cúria, o Cardeal Acton, conservava em Roma a tradição eclesiástica britânica. Mas, aconselhando sempre a prudência a fim de evitar choques com os hereges, em nada contribuía para o reerguimento da vida católica em seu país.

A atividade infatigável de O’Connell, suas lutas e as esplêndidas vitórias que alcançava, agitaram a opinião católica na Inglaterra e conseguiram arrancá-la da inércia em que se achava. Surpresos, viam os católicos todo o país discutir os direitos da Igreja, e com sobressaltos os progressos do movimento irlandês. Bem a contragosto, se sentiam obrigados a combater em defesa de seus próprios princípios.

Um reforço inesperado veio dar-lhes novo alento. Atraída pela industrialização que propiciava à Inglaterra uma grande prosperidade material, a imigração irlandesa cresceu contínua a consideravelmente desde o início do século, até atingir seu auge em 1845, quando uma terrível fome se abateu sobre a Irlanda. Os irlandeses traziam consigo a consciência de seus direitos e o entusiasmo com que se tinham batido sob as ordens de O’Connell. Foram como que um sangue novo injetado nas veias do catolicismo inglês. Novas paróquias se fundaram, a vida católica passou a se manifestar publicamente, e o apostolado recebeu um vigoroso impulso, que abriu novas perspectivas para o futuro da Igreja na Inglaterra.

A reação protestante não se fez esperar. Em 1833, ao suprimir o governo uma parte dos bispados protestantes da Irlanda, o pastor Keble pronunciara um sermão contra essa "apostasia nacional" e lançara um veemente apelo aos anglicanos para se unirem contra a inércia de seu alto clero. Pode-se dizer que, com esse sermão, começou o célebre Movimento de Oxford, que se organizou para reformar o anglicanismo e torná-lo capaz de deter os progressos do "papismo" no país.

Desde o início, o nível cultural do Movimento de Oxford foi elevado. Universitários e clérigos de alto valor intelectual a ele se entregaram de corpo e alma, e a boa fé de muitos de seus membros prenunciava as conversões que mais tarde se dariam em seu seio.

Um sacerdote ainda jovem teve a inspiração de se dedicar completamente à tarefa de restaurar o catolicismo em sua pátria. Foi o Pe. Nicolau Wiseman. Em 1824, com 22 anos, doutorara-se em Teologia no Colégio Inglês de Roma, que se reabrira em 1818. Inteligente e com grande inclinação para os estudos bíblicos, entregou-se a eles e ao das línguas orientais. Sua carreira foi rápida: em 1827, viu-se nomeado vice-reitor e, um ano depois, reitor do Colégio Inglês. O movimento de O’Connell e os progressos do catolicismo na Inglaterra, no entanto, impressionavam vivamente o jovem professor de Exegese. Em 1833 — ao receber a visita de um filho de Lord Spencer que se convertera, e mais tarde a de Froude e Newman, chefes do Movimento de Oxford que então se aproximavam da verdadeira Fé — percebeu as possibilidades da Igreja Católica em seu país e decidiu trocar a vida puramente intelectual pelo apostolado na Inglaterra.

Antes de regressar à sua pátria, o Pe. Wiseman visitou a França, onde pôde verificar que, também lá, começava a surgir um movimento católico pujante. Assim que chegou a Londres, iniciou o trabalho magnífico que levaria ao restabelecimento da hierarquia eclesiástica no país, bem como à conversão de numerosos intelectuais do Movimento de Oxford. Continuado pelo Pe. Manning, um desses convertidos, daria origem a uma das grandes realizações do ultramontanismo do século XIX: o movimento católico inglês.

Esse movimento teve início por uma série de conferências sob o título geral de “Lectures”, nas quais eram expostos os princípios da Religião verdadeira. Organizadas nos moldes das conferências de Lacordaire em Paris, alcançaram grande êxito. Graças a elas os católicos conquistaram, pouco a pouco, direitos de cidadania. O zelo infatigável do Pe. Wiseman não se contentou com resultados já tão brilhantes. Pondo de lado todas as prevenções geradas pelo choque de orientações entre irlandeses e ingleses durante a luta pela emancipação, fundou de acordo com O’Connell a “Dublin Review”. Esta se tornou um dos grandes sustentáculos do movimento católico anglo-irlandês, e mais tarde, dirigida por Ward (outro convertido do Movimento de Oxford), foi um dos órgãos que defenderam com energia a infalibilidade do Papa.

Certamente o Catolicismo inglês deve muito à imigração irlandesa e às conversões provocadas pelo Movimento de Oxford. Mas o Pe. Wiseman, guiando os seus primeiros passos e orientando-o em suas primeiras campanhas, imprimiu-lhe suas características definitivas e merece incontestavelmente o título de fundador do movimento católico inglês.


NOVA ET VETERA

BOAS INSTITUIÇÕES, HOMENS FALÍVEIS

Celso da Costa Carvalho Vidigal

Nos dias que correm, os espíritos estão fortemente impregnados de laicismo. Distante da Igreja, a generalidade dos homens pensa e age em desacordo com seus ensinamentos. Por isso, vários pontos essenciais da doutrina cristã são desprezados e desconhecidos mesmo entre católicos: um deles é o pecado original com toda a série de seus efeitos.

Uma das consequências dessa doutrina esquecida é que não pode haver neste mundo sociedade política perfeita. Todas as organizações criadas e constituídas por homens estão sujeitas às sequelas da mancha original e, por causa disso, nunca podem ser tais que consigam impor a seus membros absoluta retidão no cumprimento de suas obrigações morais.

Por isso, não devemos condenar uma determinada época histórica apenas levando em consideração que a estrutura social nela vigorante dava, in concreto, margem a tais e tais abusos; senão, cairíamos no absurdo de nunca poder fazer um juízo de valor que classificasse as civilizações, pois que, bem analisadas, em todas elas encontramos graves abusos.

De acordo com as lições do catecismo, o homem foi criado para adorar, amar e servir a Deus neste mundo e depois glorificá-Lo no outro. Podemos construir, a partir daí, toda uma doutrina social, que é a doutrina social da Igreja. Como é que ela se aplica às instituições? Uma instituição é boa ou má na medida em que ajuda ou obsta os homens na consecução daquele fim proposto pelo catecismo. Partindo desse critério é que podemos fazer uma classificação das sociedades.

É à luz desses princípios que vamos abordar o tema que nos propusemos para este artigo. Muito tem sido escrito, nas páginas deste jornal, em favor da civilização e da cultura medieval. Muitos elogios têm sido feitos à organização social e política daquela época. Hoje queremos mostrar que certos preconceitos contra a Idade Média são falsos porque baseados em fatos isolados que de maneira alguma impedem que se tenha em alto conceito a sua cultura.

A Idade Média foi, de todas as eras históricas que até hoje se sucederam, a que melhor aproximou o homem de Deus e dos ideais propostos pela doutrina cristã. O prestígio de que estavam cercados na sociedade medieval os vários graus da Hierarquia Eclesiástica de ordem ou de jurisdição - a saber, Papa, Bispos, membros do Clero secular e regular - já mostra por si só a elevação em que então se achavam os homens na linha da perfeição evangélica. Com apenas esse argumento, e comparando à luz dele a Idade Média com outras eras, convencemo-nos de que, realmente, não houve nenhuma outra que estivesse tão impregnada de espírito católico. Podemos citar apenas alguns entre os inúmeros fatos que mostram o respeito que os medievais tinham para com as pessoas investidas de missão divina.

Um dos característicos da mentalidade dessa época era a importância em que se tinha a instituição do Papado. O Papa era o juiz supremo nas questões de caráter religioso ou moral, ou ainda naquelas em que sua arbitragem era invocada pelas partes. E assim, com grande frequência, cabia-lhe intervir nos litígios que surgiam entre senhores feudais, ou entre estes e seus súditos. No exercício dessas funções de árbitro, era comum o Sumo Pontífice cominar pena de excomunhão às partes que não quisessem submeter-se à decisão de Roma. E particularmente digno de nota era o profundo efeito dessa pena espiritual, na opinião pública. Era tão eficaz, que levou o Imperador Henrique IV a se apresentar diante de São Gregório VII em Canossa, a simular arrependimento pois que, após ter sido excomungado, sentiu que se enfraquecia seu prestigio junto aos súditos e que a circunstância de sua insubordinação contra a Sé Apostólica ter sido proclamada como motivo da excomunhão poderia acarretar-lhe a perda do trono. Embora possa parecer paradoxal, também demonstra o prestígio da autoridade romana o fato, freqüente naquela época, de um Soberano excomungado ser levado a levantar um antipapa e apresentá-lo a seus próprios súditos como legitimo, de modo a simular uma obediência ao Sucessor de São Pedro que realmente não existia: é que as populações católicas exigiam que seus governantes se conservassem em união com a Santa Sé, e somente com uma mistificação (facilitada pelas dificuldades das comunicações) é que os senhores que rompiam essa união podiam permanecer no poder. E o que dizer de Felipe Augusto, Rei da França, que no auge do poder abandona a mulher que fazia passar por sua esposa, e retoma a vida em comum com a Rainha Ingueburga, exclusivamente porque o Papa o obrigou a isso? O Rei não manifesta nenhum arrependimento de seu pecado e, no entanto, adota, pelo menos temporariamente costumes mais de acordo com a moral cristã devido à pressão do Pontífice.

O significado desses fatos ganha relevo quando posto em contraste com o que esse prodígio de talento e de maldade, que foi Napoleão, pode fazer sem despertar senão alguns gemidos de protesto entre seus súditos. Lembremos que Pio VII foi preso e arrastado através da França; que foi obrigado a assinar uma concordata odiosa, que a outra parte nem se deu ao trabalho de respeitar; recordamos que Napoleão repudiou Josefina e celebrou pomposamente a farsa de seu casamento com Maria Luisa, e que tudo isso não provocou quase nenhuma reação do povo francês.

Passemos adiante e consideremos o prestígio que desfrutavam os Bispos e Abades naqueles séculos de fé. Grande parte deles adquiriu feudos graças à liberalidade de senhores leigos que, por doações ou em testamento, concediam largas terras às Dioceses e Abadias. Muitos historiadores pretenderam ironizar a atitude daqueles nobres que, depois de uma vida de pecado, queriam resgatar a sua alma, suprindo o arrependimento inexistente, com donativos feitos a Deus na pessoa de seus representantes. Não há prova nenhuma de que isso fosse habitualmente assim, além do que, o simples fato de serem numerosas essas doações demonstra grave preocupação com a vida eterna, por certo maior do que a geralmente existente hoje em dia.

Mais ainda, os Bispos eram, em suas Dioceses, juízes incontestáveis dos costumes públicos. Assim sendo, estavam armados de meios para não tolerar escândalos e, em geral, a pedido do Prelado o poder secular tomava medidas contra os que levassem uma vida irregular.

Caso típico a mostrar o prestígio da dignidade episcopal no século XII é o de São Tomás Becket, Arcebispo de Cantuaria. Tendo esse campeão da liberdade da Igreja entrado em conflito com o Rei Henrique II da Inglaterra, foi obrigado a se refugiar na França. A veneração com que o acolheu o povo francês constituiu um autêntico triunfo para a causa que ele defendia, a causa da independência do poder espiritual. O Soberano, depois de vários lances políticos verdadeiramente dramáticos, teve por fim que ceder diante da intransigência do santo Arcebispo, o qual, retornando à Inglaterra, foi pouco depois assassinado devido a uma insinuação que o Rei fez a alguns de seus cortesãos. Sua morte nessas circunstancias provocou tal reação que quase derrubou do trono seu causador indireto. Todos os episódios da luta entre o herói da Fé e o Príncipe inglês mostram de maneira inequívoca o quanto este respeitava e temia o poder episcopal exercido por seu adversário.

Podemos observar, ainda, a consideração com que eram tratadas as Ordens monásticas de maneira geral. Os Cluniacenses nos séculos X e XI, os Cistercienses no século XII, os Dominicanos e Franciscanos no século XIII, estão ligados de modo particularmente íntimo à vida da Cristandade.

Não pretendemos lembrar aqui o que já escrevemos em artigos anteriores sobre os grandes Abades da Ordem de Cluny e sobre São Bernardo (1). Apenas queremos frisar que este como aqueles apresentam, no incomparável renome e prestigio que desfrutaram, uma demonstração do respeito e acatamento que seus contemporâneos tinham para com as coisas e pessoas da Igreja.

Outra manifestação significativa dessa atitude que caracterizou a era medieval: um tribunal civil nunca podia julgar os Clérigos, que estavam sujeitos à jurisdição dos juízes eclesiásticos e só diante destes deviam responder por seus atos.

Naturalmente, e lembrando o que dissemos no início deste artigo, nem sempre o comportamento dos senhores e dos leigos em geral estava de acordo com as regras e os exemplos que referimos. Havia pessoas que palmilhavam as trilhas do erro, como as houve em todas as épocas. Houve Henrique IV, Imperador da Alemanha, que se levantou contra São Gregório VII; Frederico Barbarroxa enfrentou o Papa Alexandre III, e seu neto, o Imperador Frederico II, não mediu esforços para abater Gregório IX. O Rei da França Luís VII, antes de se converter, esteve algum tempo excomungado pelo Pontífice Romano. Henrique II da Inglaterra, como já dissemos, tudo fez para que São Tomás Becket se submetesse a seu poder. Citamos todos esses exemplos — e ainda completamos a enumeração dizendo que poderíamos citar mais ainda — para melhor afirmar a nossa tese: a atitude deplorável de alguns homens não é termômetro para se avaliar uma época. Muito mais importante do que essas atitudes individuais é a sanção da opinião pública, e esta sanção, na Idade Média, sempre pendeu para o lado de Deus.

Desde sua instituição, a Igreja tem tido dificuldades com o poder civil. Essa tensão tem-se mantido através dos séculos, contando a Esposa de Cristo - de um ponto de vista humano - ora com derrotas, ora com vitórias. E se durante a Idade Média estas foram mais frequentes do que aquelas, podemos afirmar que nos séculos posteriores a proporção se inverteu. O mais doloroso é que em nossos dias essas derrotas têm sido vistas, por católicos de mentalidade liberal, como triunfos da tese que defendem, que é a da "Igreja livre no Estado livre", e que a nosso ver deveria ser formulada como a "Igreja oprimida no Estado livre". O exemplo mais recente é a condenação do Bispo de Prato, na Itália, a qual foi acolhida por membros católicos do governo peninsular como autentico sucesso da tese liberal.

- Em próximo artigo comentaremos alguns aspectos da atitude católica dos homens medievais em face dos acontecimentos da vida quotidiana.

(1) "Cluny, alma da Idade Média", n.os 61 e 62; "Na Igreja e no Estado, vê-se sua mão por toda a parte", n.o 71 (N. da R.).