Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 89 | página 02-03

SUBSTITUIÇÃO EQUÍVOCA

O MATERIALISMO TECNICO GERA O CIDADÃO IDEAL DO ESTADO IGUALITÁRIO E SOCIALISTA

(continuação)

conservarão o domínio do mundo ou se cairão vítimas do seu próprio progresso”.

3 — A TECNOFOBIA PÂNICA

Esta angústia, ela própria, pode levar e já levou até a um erro que fica no extremo oposto. É a idéia de que todo progresso técnico é em si mesmo um atentado contra a ordem do universo, estabelecida pela Providência.

Técnica e Providência seriam necessária, radical e inevitavelmente termos antitéticos. E a técnica seria o suicídio do homem: “As mudanças imprevisíveis a que conduzem os novos caminhos abertos pela ciência e técnica modernas são encaradas por alguns como qualquer coisa de desarmonioso, destinada a lançar a perturbação e a desordem na unidade feita de ordem e harmonia que é o próprio da razão humana; por outros, ao invés, são essas mudanças consideradas como motivos de séria apreensão pela própria sobrevivência de seus autores. O homem começa a temer o mundo que ele crê ter por fim entre as mãos; teme-o mais do que nunca, e principalmente lá onde Deus não vive verdadeiramente nos espíritos e corações,...”

4 — A EGOLATRIA TÉCNICA

Temos depois a egolatria técnica. Não é senão um aspecto da embriaguez da técnica. O “homo faber” “se admira unicamente a si mesmo”. Hoje, “o gênero humano é composto em grande parte de homens tais”.

Em face da técnica, eles “começam a temer a si próprios”, e por isto é que começam a sentir a tecnofobia pânica.

Justo castigo da apostasia tecnolátrica. Negando a Deus, o “gigante” técnico começa a sentir-se uma formiga.

A raiz deste sentimento de sua própria insignificância está no pecado original e suas consequências.

Há uma evidente e maravilhosa perfeição no universo: “Desde seu primeiro contacto com o universo, o homem foi arrebatado por sua incomparável beleza e por sua harmonia. O céu resplandecente de luz ou constelado de estrelas, os oceanos de extensões imensas e matizes variegados, os cumes inacessíveis das montanhas coroadas de neve, as verdes florestas regurgitantes de vida, a sucessão regular das estações, a variedade multiforme dos seres, arrancaram-lhe do peito um grito de admiração! Participante ele próprio dessa beleza, entreviu-a mesmo nos elementos desencadeados, como expressão do poderio do Criador: ‘Potentior aestibus maris, potens in excelsis est Dominus’ (Sl. 92, 4); ‘Tonabit Deus in voce sua mirabiliter’ (Job 37, 5). Com razão, um povo antigo de elevada civilização não encontrou palavra mais apta para designar o universo do que ‘kosmos’, isto é, ordem, harmonia, beleza”.

Entretanto, em tudo quanto o homem faz, em sua existência terrena, e em seu próprio ser, há uma imperfeição que vem do pecado original e dos pecados que se lhe seguiram: “No entanto, cada vez que o homem se contemplou a si mesmo e comparou as próprias aspirações com suas obras, prorrompeu em gemidos de desalento em virtude das contradições, desarmonias e desordens numerosíssimas que dilaceravam sua vida. Como seu antepassado, o homem moderno se debate entre a admiração extática do mundo da natureza, explorado até seus recantos mais profundos e longínquos, e a amargura do desalento que lhe proporciona a existência caótica por que ele próprio é responsável. O contraste entre a harmonia da natureza e a desarmonia da vida, em lugar de se atenuar com o desenvolvimento da capacidade de conhecer e agir, parece, ao contrário, acompanhá-lo como sombra sinistra. No isolamento em que está envolvido, o homem moderno não cessa de repetir as lamentações do sofredor de Hus: “Eis que eu brado sob a opressão e ninguém me escuta; reclamo ajuda mas não há justiça” (Job 19, 7)”.

5 - A TECNOFOBIA PÂNICA PODE CONDUZIR AO ATEÍSMO OU À GNOSE

As “almas abertas ao otimismo mais amplo e mesmo mais absurdo” são precisamente as vítimas mais frequentes da tecnofobia pânica. Seu erro consiste em “estender a todo o cosmos e a suas leis fundamentais as incoerências inegáveis que o mundo apresenta e cuja responsabilidade faz-se recair sobre o próprio Criador”.

Daí o fato de que, “em parte da humanidade atual, a vista das desarmonias do mundo conduz a um julgamento de condenação de toda a criação, como se a desarmonia devesse ser a marca necessária dela, sua inevitável fatalidade, ante a qual não resta ao homem senão cruzar os braços e resignar-se,...”

Como se sabe, a gnose admite a existência de dois deuses, um dos quais, precisamente o criador do universo, é mau. Se não se admitir um deus mau, que é realmente absurdo, cai-se no ateísmo.

E também numa vida de orgia, pois o que resta é “divertir-se com alguns prazeres efêmeros arrebatados à própria desordem reinante”.

6 — O PROGRESSO TÉCNICO UNILATERAL E MATERIALISTA

O progresso técnico é essencialmente material. A tecnolatria e a embriaguez da técnica conduzem, pois, à construção de um mundo “materializado”, se assim se pode dizer. De onde uma terrível decadência moral e cultural, e, em uma palavra, humana: “Como explicar tanta indiferença pelo direito de outrem à vida, tanto desprezo dos valores humanos, tanto rebaixamento no tom da verdadeira civilização, a não ser pelo fato de que o progresso material preponderante decompôs o todo harmonioso e feliz do homem, e como que lhe mutilou a sensibilidade a estas idéias e valores, aperfeiçoando-o unicamente numa determinada direção?”

Essa decadência transformou o mundo “num oceano de crueldades e dores que dilacera indivíduos e povos, e que acompanha direta ou indiretamente as realizações do progresso exterior”.

7 — O MONSTRO TÉCNICO, “ROBOT” DE CARNE

Nesse ambiente saturado de materialismo técnico gera-se um “robot” de carne, monstro verdadeiro: “A um homem nascido e educado num clima de tecnicidade rigorosa faltará necessariamente uma parte, e não a menos importante, de sua totalidade, como se ela se tivesse atrofiado sob a influência de condições hostis a seu desenvolvimento natural. Da mesma maneira que uma planta cultivada em terreno a que se subtraíram substâncias vitais manifesta uma ou outra qualidade, mas não reproduz o tipo inteiro e harmonioso, assim também a civilização ‘progressista’, queremos dizer unicamente materialista, banindo certos valores e elementos necessários à vida das famílias e dos povos, acaba por privar o homem da faculdade autêntica de pensar, de julgar e de agir”.

8 - A SUPERFICIALIDADE E A INSTABILIDADE TÉCNICA

Quem não tem lamentado esses dois defeitos do homem moderno: a instabilidade e a superficialidade? Pio XII, com visão genial, os relaciona com a idolatria ou a embriaguez da técnica: “Esta (a faculdade autêntica de pensar, de julgar e de agir), com efeito, para captar o verdadeiro, o justo, o honesto, para ser, numa palavra, ‘humana’, exige a máxima extensão, e isto em todos os sentidos. O progresso técnico, pelo contrário, quando aprisiona o homem em seus elos, separando-o do resto do universo, especialmente do espiritual e da vida interior, conforma-o a suas próprias características, das quais as mais notáveis são a superficialidade e a instabilidade”.

Entretanto, aponta Sua Santidade também para este mal uma causa essencialmente moral, isto é, o gosto das novidades. São numerosos hoje, e causam explicável apreensão, os homens que “se deixam seduzir tão fortemente pela atração das novidades que desprezam os outros valores autênticos, em particular os que sustentam a sociedade humana”.

Na raiz última destes males, Pio XII aponta sempre, com sábia insistência, o pecado original, com seu triste cortejo de consequências: “O processo desta deformação não parecerá misterioso se se considerar a tendência do homem a aceitar o equívoco e o erro, quando estes lhe prometem uma vida mais fácil”.

9 — O REVOLUCIONÁRIO DAS VELOCIDADES DOIDAS

Desta chaga vem uma propensão contínua para destruir as sábias e santas barreiras que a tradição cristã conserva para refrear os desmandos do espírito e da carne.

Estas barreiras vêm sendo aluídas por um tufão inovador e revolucionário, uma verdadeira mania de novidades, cuja relação com a técnica o Pontífice aponta com esplêndida sagacidade: “Examinai, por exemplo, a substituição equívoca de valores realizada pelo progresso admirável da velocidade mecânica. Fascinado por ela e transpondo as vantagens da rapidez do movimento a coisas que não esperam sua perfeição como consequência de mudanças rápidas, mas, pelo contrário, adquirem a fecundidade na estabilidade e fidelidade às tradições, o homem ‘das velocidades doidas’ tende a se tornar na vida como que um caniço agitado pelo vento, estéril em obras duradouras e incapaz de se sustentar a si mesmo e aos outros”.

10 - A ININTELIGÊNCIA CIENTÍFICA

Esta errônea transposição do ambiente tecnicista para outras esferas acaba criando um cientificismo ininteligente, em que os sentidos têm um papel preponderante e a inteligência se dilui num triste crepúsculo: “Equívoco semelhante resulta do desenvolvimento, admirável em si, da eficácia dos sentidos, a que os prodigiosos instrumentos modernos de pesquisa dão o poder de ver, ouvir, medir o que existe, o que se move e se transforma, quase que nos últimos recantos do universo. Orgulhoso de um poder a tal ponto acrescido, e quase inteiramente absorvido pelo exercício dos sentidos, o homem ‘que tudo vê’ é levado, sem se dar conta, a reduzir a aplicação da faculdade plenamente espiritual de ler no interior das coisas, isto é, da inteligência, a tornar-se cada vez menos capaz de amadurecer as idéias verdadeiras de que se nutre a vida”.

11 - O HOMEM MASSA, CARNEIRO TÉCNICO

Por fim cria-se um tipo humano sem personalidade, sem iniciativa, mero acessório escravizado à máquina, carneiro de uma docilidade automática e imbecil, cidadão ideal e anônimo do Estado igualitário e socialista: “Igualmente as aplicações múltiplas da energia material, admiravelmente aumentada, tendem dia a dia mais a encerrar a vida humana num sistema mecânico que faz tudo por si mesmo e a sua própria custa, diminuindo assim os estímulos que antes constrangiam o homem a desenvolver sua energia pessoal”.

Veremos, em outro artigo, como o Santo Padre aponta em Nosso Senhor Jesus Cristo o remédio para estes males, e no verdadeiro católico, vulnerado pelo pecado original mas confortado pela graça, o homem capaz de usar a técnica sem as horríveis aberrações com que dela se tem feito uso no século XIX e no século XX.


"O agricultor planta aquilo que lhe permite auferir rendimento mais elevado, e não pode ser censurado por isso. Enquanto, como resultado das condições do mercado consumidor internacional e da política econômica nacional, apenas o café remunerar satisfatoriamente os produtores, em seu cultivo se empenharão estes, sejam pequenas ou grandes as suas terras. E permanecerá o regime de monocultura."

Reforma Agrária, Monocultura e Produtividade

Luiz Mendonça de Freitas

A reforma agrária é um desses assuntos que costumam voltar ao cartaz nacional de vez em quando. Em certos momentos insiste-se muito sobre ela, apresentam-se projetos de lei visando torná-la realidade, entendidos pronunciam conferencias sobre o problema, a imprensa publica comentários e entrevistas, os debates se tornam acalorados, mas depois a onda passa e tudo volta à normalidade. Os projetos começam um sono letárgico em algum escaninho do Congresso, a imprensa tem sua atenção voltada para outros assuntos, as discussões político-partidárias encontram combustível em temas diferentes, etc.

O curioso em tudo isso é que essa questão tem tido sua solução constantemente protelada, sem que alguém se anime a cancelá-la definitivamente do rol dos verdadeiros problemas nacionais.

Que se espera, afinal, de uma reforma agrária? Segundo seus propugnadores, elevar o nível da produção e da produtividade agrícola, e desse modo melhorar o padrão de vida das populações rurais, promovendo simultaneamente, e por via de consequência, o desenvolvimento econômico do país. Essas esperanças são fundadas? É o que pretendemos examinar resumidamente aqui.

INCONVENIENTES ECONÔMICOS DA MONOCULTURA

Afirma-se, e com razão, que para elevar o padrão de vida do povo brasileiro será necessário expandir em escala considerável a produção agrícola nacional, não só promovendo a plena utilização de suas atuais explorações, como também aumentando a produtividade do trabalhador rural. E isto por dois motivos.

Primeiramente porque o aumento da produção e da produtividade agrícola ocasionará o enriquecimento da enorme parcela da população brasileira localizada no campo, e a elevação de seu poder aquisitivo, formando-se assim um amplo mercado consumidor interno em condições de absorver os artigos da indústria nacional.

Em segundo lugar porque nosso desenvolvimento industrial exige importações maciças de maquinas e equipamentos fabricados unicamente no estrangeiro. Tais aquisições só podem ser pagas com os recursos provenientes da exportação dos produtos brasileiros, entre os quais ocupam posição de destaque os de origem vegetal. O aumento da produção destes últimos artigos é, pois, não só desejável, mas necessário para estimular o desenvolvimento econômico do país.

Tudo isso é verdade. Como também é real uma ocorrência igualmente invocada como argumento em favor da reforma agrária. Vejamos qual seja.

A debilidade da agricultura brasileira resulta da monocultura, isto é, da predominância de um único artigo - o café - no conjunto da produção nacional. Os inconvenientes de estar, a economia do país, baseada praticamente num único produto de exportação já têm sido suficientemente estudados e são satisfatoriamente conhecidos. Basta-nos, pois, recordar que o principal deles reside em que todo o equilíbrio econômico da nação fica na dependência, de um lado, de determinadas condições atmosféricas (de uma geada, por exemplo) e, por outro, das vicissitudes dos preços desse produto no mercado internacional. Cabendo principalmente a um artigo a responsabilidade pelo fornecimento de divisas ao país, se seus preços baixarem não haverá possibilidade de compensar essa perda com a expansão das vendas de outros gêneros, pois, ex hypothesi, o volume destas, por mais que aumentar, ainda continuará insignificante em relação ao movimento total. Em nosso caso concreto, temos ainda a agravante de haver um só grande importador de café, a saber, os Estados Unidos, o que vincula fortemente a estabilidade econômica dos países exportadores da rubiácea às vicissitudes da economia norte-americana.

Esses inconvenientes são muito graves. É obvio que seria da maior vantagem uma ampla diversificação da produção agrícola brasileira, passando-se do atual sistema baseado na monocultura cafeeira para outro, apoiado na policultura, e distribuindo-se a responsabilidade pela manutenção do equilíbrio econômico do país por vários produtos e diversos mercados consumidores.

Até aqui o raciocínio é correto, lógico e coerente. O mal é que não se para aí. Verificado que a monocultura apresenta inconvenientes graves, passa-se a estudar o meio rural brasileiro e descobre-se uma concomitância digna de nota. É que coexistem no Brasil monocultura e grandes propriedades ou explorações agrícolas. Daí se conclui que... a monocultura é efeito da existência dos chamados latifúndios. Sendo assim, resulta fácil extirpar o mal. Eliminem-se as grandes fazendas e a monocultura entrará no rol das coisas passadas. Fracionadas as propriedades rurais, a policultura surgirá como consequência necessária, com a vantagem adicional de promover um aumento da produtividade do trabalhador rural, que será capaz de multiplicar os seus esforços ao cultivar uma terra que lhe pertença.

A "TROUVAILLE" DO PRIMEIRO-MINISTRO

Este processo de raciocínios fundados em correlações, pode dar certo em alguns casos, mas falha em muitos outros. Um conhecido economista inglês, professor na Universidade de Cambridge, A. C. Pigou, teve ocasião de mostrar os absurdos a que pode conduzir este método. Nos anos imediatamente posteriores a 1930, todos os países atravessaram um período de crises econômicas violentas e o público suspirava pela volta à prosperidade. Ora, um primeiro-ministro da Grã-Bretanha, desejoso de debelar a crise que assolava também a sua ilha, e de brindar seu povo com uma nova era de abundancia, resolveu estudar os meios para alcançar esse objetivo. Descobriu então uma concomitância que lhe pareceu rica de ensinamentos. Verificou que em épocas de prosperidade os preços são sempre altos. Como na ocasião os preços eram baixos e não pareciam próximos a sair desse nível, o "premier" elucubrou um plano para inverter a tendência da conjuntura econômica geral. Já que, como lhe parecia, prosperidade supõe preços elevados, a recíproca também deveria ser verdadeira: preços altos supõem prosperidade. Então, que se patrocinasse uma elevação nos preços. Como? Nada mais simples. Instituíssem-se pesadas tarifas alfandegárias, e logo os preços internos se elevariam e seria desencadeada a prosperidade. Para ridicularizar esse plano, Pigou construiu o seguinte paralelo lógico: "A investigação estatística revela que, na grande maioria dos casos, quando há um saleiro em uma mesa há uma pimenteira também. Daí resulta, por um processo de raciocínio exatamente análogo ao daquele primeiro-ministro, que se neste momento eu tirar do bolso um saleiro e o colocar sobre a mesa, se ouvirá um zumbido no ar e uma pimenteira aparecerá diante de mim, fiel a seu companheiro inseparável" (A. C. Pigou, "Teoria y Realidad Economica", Fondo de Cultura Economica, México, 1942, pp. 21/22).

O raciocínio que se faz no Brasil, e nos países subdesenvolvidos em geral, a respeito da correlação entre grande propriedade agrícola e monocultura, é de natureza análoga à da "trouvaille" do político britânico. Tanto mais que não se pretende responsabilizar a grande propriedade apenas pela monocultura, mas também pela reduzida produtividade agrícola existente entre nós.

A REFORMA AGRARIA NÃO TEM PODERES MAGICOS

Nada autoriza a idéia de que bastaria espoliar os fazendeiros e dividir as suas terras para que esse panorama se alterasse.

Seja qual for o tamanho das propriedades rurais no Brasil, mantida a atual política econômica, o café continuará sendo a cultura mais lucrativa, e a ela continuarão a dedicar-se os beneficiados por uma eventual repartição de terras. Tanto isto é verdade, que

(continua)