Sabendo que os restos mortais do falecido imperador vinham da Itália para serem enterrados na catedral de Aachen, Santo Henrique, indo de encontro ao féretro em Polling, na Baviera, apoderou-se das insígnias do poder real para forçar uma situação de fato. Imediatamente, Oto da Caríntia — neto de Oto I, o Grande, e pai do Papa Gregório V — renunciou a seus direitos ao trono em favor de Henrique. Ekkehard foi assassinado por inimigos pessoais em Pöhlde, no dia 30 de abril de 1002. Mas persistia ainda o perigo de guerra pelo poder real.
Para evitar um caos generalizado no Reino, Dom Willigis, Arcebispo de Mainz, que morreu em odor de santidade, ungiu e coroou Santo Henrique em 7 de junho na catedral dessa cidade. No mês seguinte, recebeu a aclamação da nobreza da Turíngia no castelo de Kirchberg, em Jena. A 24 de julho, em Merserburg, foi a vez de o clero e da nobreza da Saxônia proclamá-lo rei dos germanos.
No dia 10 de agosto, o Arcebispo Dom Willigis coroou Santa Cunegundes como rainha na cidade de Paderborn, e sagrou Sofia, irmã de Oto III e apoiadora de Santo Henrique, como abadessa do Convento de Gandersheim. O conde palatino Ehrenfried opôs resistência ainda por algum tempo. E Hermann da Suábia submeteu-se enfim no dia 1º de outubro, em Bruchsal.
Nota-se aqui o método empregado por Santo Henrique para conquistar a coroa: por etapas, convencendo primeiramente a nobreza e o clero de seu próprio ducado; depois do assassinato de Ekkehard, a tentativa inicialmente infrutífera de atrair para seu lado Hermann da Suábia; depois persuadiu os turíngios e os saxões; e finalmente voltou-se para o Oeste, sendo reconhecido pelos representantes dos Bispados ocidentais em Duisburg. Para completar, com o apoio dos príncipes da Baixa Lorena, foi coroado rei em Aachen no dia 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora.
Sapiencial programa de governo
Santo Henrique procurou revigorar o poder real com apoio do episcopado. Para tal nomeava para as sedes episcopais varões probos e capazes, formados na chancelaria real. À regeneração moral, ao restabelecimento da disciplina e da ordem no clero e no laicato dedicou ele o melhor de seu tempo e de seus esforços. Para tal convocou ao longo dos anos inúmeros sínodos nos quais, com grande dom de eloquência, convencia os recalcitrantes.
Uma fundação predileta sua foi a criação da Diocese de Bamberg, formada com partes territoriais da diocese de Würzburg e de Eichstätt e aprovada em 1007 pelo Sínodo de Frankfurt, do qual participaram 35 bispos. A construção da catedral da nova diocese levou cinco anos. Foi inaugurada solenemente em 1012, com a presença de 45 bispos e arcebispos.
Com a criação da Diocese de Bamberg, Santo Henrique tinha em vista apoiar o esforço missionário para a conversão dos pagãos do leste europeu. Por isso, em sua política exterior procurou estabelecer não somente uma paz duradoura entre a Coroa e a Tiara, mas também manter estreitas relações com a Hungria e conter os avanços do duque Boleslau Chrobry, o Bravo, que aproveitou a convulsão oriunda dos litígios pela disputa do trono alemão, e avançou suas tropas até o Elster. De 1002 a 1018 Santo Henrique teve de empreender três campanhas militares contra Chrobry, que se tornou mais tarde o primeiro rei polonês.
Vida de luta incansável em prol do Reino e do Papado
Nos seus 22 anos de reinado, Santo Henrique não teve por assim dizer um minuto de descanso. A pacificação interna de seu reino, a defesa deste contra as invasões estrangeiras vinda da Polônia, as alianças com Roberto, o Piedoso, e com o reino da Borgonha, bem como as diversas incursões na península italiana para lutar contra os rebeldes lombardos, defender o Papa contra os patrícios tiranos e as usurpações dos bizantinos e, por fim, o apoio na guerra de expulsão dos bizantinos herético-cismáticos e dos muçulmanos incréus do sul da península italiana, toda essa obra gigantesca foi objeto de seu zelo incansável.
Eis, a título de exemplo, alguns fatos de sua movimentada vida.
Em virtude do segundo casamento de Oto I, o Grande, com Santa Adelaide, da Casa de Borgonha e rainha da Itália setentrional, o rei dos germanos era também rei da Lombardia. Com a ascensão de Santo Henrique ao trono alemão, Arduíno de Ivrea apressou-se em se autoproclamar rei da Lombardia. Seus partidários tinham como bandeira a expulsão dos alemães e a independência lombarda. Em pouco tempo, muitos bispos se aliaram a Arduíno, outros foram obrigados pela força, mas uns e outros retiraram seu apoio quando Arduíno começou a fazer exações e espoliar os bens da Igreja.
No Natal de 1003 o Bispo de Verona e outros grandes dignitários da região visitaram Santo Henrique e o reconheceram como seu legítimo rei. Na primavera do ano seguinte o monarca se dirigiu à Itália. No dia 14 de maio de 1004 foi coroado com a Coroa de Ferro em Pavia, embora houvesse forte reação contrária do populacho.
Enquanto isso, o Papa João XVIII (1003-1009) era oprimido pelo ditador Crescêncio em Roma. Santo Henrique, embora quisesse, não pôde ir socorrê-lo, porque Boleslau Chrobry ameaçava novamente a unidade do Reino. Em junho de 1004 Santo Henrique estava novamente em Mainz; no início de setembro conquis-
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