Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 883 | página 40-41
| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

tou Praga, forçando Boleslau a abandonar a Boêmia e a refugiar-se em suas terras.

Com apoio dos boêmios, Santo Henrique reconquistou Bautzen, obrigando Chrobry a pedir a paz. O polonês teve que devolver a região entre o Oder e o Elba, abandonando assim o sonho de estabelecer um império eslavo capaz de competir em pé de igualdade com o Sacro Império. O término da guerra não conseguiu ser duradouro. Em 1010 o conflito estourou novamente. Durou quase três anos, até a sua conclusão com o acordo de paz de Merserburg.

“Constante defensor da Igreja e leal vassalo de Jesus Cristo”

No Natal de 1012 apareceu em Pöhlden, na Saxônia, onde Santo Henrique se encontrava, um antipapa que viera fugindo de Roma. Nesse mesmo ano faleceram, com pouca diferença de tempo, o Papa Sergio IV e o patrício-ditador Crescêncio, que havia determinado a eleição de vários Papas. Assim, seus rivais, os condes de Túsculo, retomaram o poder e elegeram Papa um filho de Gregório de Túsculo, que tomou o nome de Bento VIII.

Mas o partido contrário elegeu para o sólio pontifício Gregório, um clérigo desconhecido. Sem apoio em Roma, Gregório foi procurar Santo Henrique junto à corte alemã. Este o recebeu com desconfiança, reconheceu nele um usurpador, e prometendo-lhe agir com justiça, retirou-lhe as vestimentas papais e o proibiu de exercer o múnus pontifício. Entrementes, em Roma, Bento VIII necessitava de ajuda e recorreu ao rei alemão.

Em fins de 1013 Santo Henrique se dirigiu novamente à Itália. Transpôs os Alpes e passou o Natal na cidade de Pavia. Arduíno, que havia retomado o título de rei, fugiu às pressas para seu refúgio nas montanhas e propôs sem sucesso devolver a coroa em troca de um condado. Acabou seus dias, piamente segundo dizem, num convento que ele mesmo fundara. Em Ravena, Santo Henrique encontrou-se com Bento VIII. O rei prometeu ao Papa a restituição dos bens roubados à Igreja. Em contrapartida, o Papa estabeleceu Arnulfo, meio-irmão de Santo Henrique, como Arcebispo de Ravena.

No dia 22 de fevereiro de 1014, festa da Cátedra de Pedro, Santo Henrique entrou em Roma com grande séquito, acompanhado de 12 senadores. O Papa Bento VIII o esperava na Basílica de São Pedro. Após jurar ser um “constante defensor da Igreja e leal vassalo de Jesus Cristo”, o Papa ungiu-o com os óleos santos, proclamou-o Imperador do Sacro Império e o coroou, juntamente com Santa Cunegundes. No mesmo dia o Pontífice ofereceu ao Imperador um grande banquete no seu palácio de São João de Latrão, segundo relata o historiador Ditmar.

O monge Glaber, outro contemporâneo, conta ainda que, nessa ocasião, o Papa presenteou o Imperador com um globo de ouro, encimado por uma cruz e ornado de pedras preciosas. O globo representava o mundo; a cruz, a Igreja que devia ser protegida pelo monarca; e as pedras preciosas, as virtudes com as quais ele devia se ornar.

Então Santo Henrique disse ao Papa: “Santo Padre, Vós quereis me ensinar por este meio como devo governar. Este presente só pode convir a pessoas que desprezam as pompas do mundo para poder seguir a cruz sem empecilhos”. Este precioso globo foi dado por Santo Henrique a seu amigo Santo Odilon, abade do mosteiro beneditino de Cluny, principal centro da reforma monástica que iria mudar a face da Europa cristã nos próximos séculos.

Lídimo continuador da estratégia de Carlos Magno

A exemplo de Oto I, o Imperador Santo Henrique deu ao Papa um diploma — assinado por ele, doze bispos, três abades e diversos potentados — , no qual reconhecia, ratificava e confirmava todos os direitos temporais da Santa Sé, bem como todas as doações que lhe tinham sido feitas por Pepino, o Breve, e Carlos Magno.

Durante essa estadia em Roma, Santo Henrique indagou aos sacerdotes por que durante a Missa eles não cantavam o Símbolo dos Apóstolos, após a leitura do Evangelho, como era costume em outros lugares. Responderam-lhe que a Igreja romana jamais havia sido maculada por qualquer heresia e por isso não era necessário que ela declarasse a sua fé pelo canto do Credo.

Retomando o desejo já expresso dois séculos antes por Carlos Magno, Santo Henrique conseguiu que o Papa Bento VIII introduzisse o canto do Credo após o Evangelho nas Missas solenes. É o que testemunha Vernon, abade de Reichenau.6

As disposições de Santo Henrique deram ao Papa imenso poder. Com a ajuda dele conseguiu expulsar os sarracenos que haviam ocupado a cidade portuária de Luna. Um espírito de vitória inflou o ânimo dos cristãos. Em 1016, pisanos e genoveses reconquistaram a ilha da Sardenha, nas mãos dos muçulmanos desde 1002.

Nos últimos anos de sua vida Santo Henrique teve de empenhar-se novamente em campanhas na Itália. Enquanto consolidava os estados no interior e asse-

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