sacerdócio e o império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios”,3 experimentava grandes desafios.
Na ordem temporal, do esfarelamento do império carolíngio surgira a leste, com os ducados da Francônia, da Suábia e da Saxônia, o reino germânico sob a dinastia otoniana, sempre em luta com os povos eslavos ainda afundados no paganismo. A coroação de Oto I em Roma, no dia 2 de fevereiro de 962 pelo Papa João XII, fizera ressurgir o Sacro Império Romano.
No campo espiritual, a Igreja enfrentava no Ocidente severa crise. Simonia, tremenda decadência moral do clero, ingerência de potentados nas eleições papais e na direção da Igreja, ademais de um pulular de grupelhos de cristãos apóstatas, cujas heresias maniqueias antecederam de dois séculos os perniciosos erros dos albigenses e dos valdenses.
No Oriente, grassava desde o século IX a heresia trinitária sobre a processão do Espírito Santo e a negação da supremacia de jurisdição do Papa, erros graves que iriam levar ao Grande Cisma de 1054, sem contar as incessantes e calamitosas incursões muçulmanas na península itálica. Neste vasto campo de apostolado e de ação, onde as manobras políticas e diplomáticas se entremeavam com os embates dogmáticos e o choque das armas, desabrochou a personalidade e floresceram as virtudes de Santo Henrique.
Discernimento dos grandes problemas da Igreja e do Estado
Nasceu em 6 de maio de 973 no castelo de Bad Abbach, próximo de Regensburg, na Baviera. Filho de Henrique II, o Briguento, duque da Baviera, e de Gisela, princesa da Casa de Borgonha. Do lado paterno era bisneto do duque Henrique, o Passarinheiro da Baviera, esposo de Santa Matilde, e sobrinho-neto do imperador Oto I, o Grande, cuja esposa foi Santa Adelaide. Pelo lado materno era neto do rei Conrado I da Borgonha. Foi educado na infância por sua mãe Gisela e por Dom Abraham, bispo de Freising. Frequentou a famosa escola eclesiástica de Hildersheim, tendo em vista uma futura carreira eclesiástica. Instruiu-se posteriormente sob a direção de São Wolfgang, Bispo de Regensburg, e de Romwold, abade do mosteiro de Santo Emmeram.
Sua excelente formação moral, intelectual e teológica colocou-o entre os príncipes mais piedosos e cultos de sua época. Com a morte do pai em 995, tornou-se duque da Baviera. Apesar de ainda relativamente jovem, já despontavam nele as qualidades de um governante excepcional: visão clara dos grandes problemas da Igreja e do Estado, profunda penetração psicológica, senso das oportunidades e do momento certo de agir, coragem, prudência e firmeza nas decisões.
Um de seus primeiros atos de governo no ducado da Baviera foi promover o casamento de sua irmã Gisela com Estêvão, rei dos húngaros.3 Tinha em vista garantir a segurança das fronteiras bávaras a leste, mas também e sobretudo favorecer a conversão dos magiares.
Nos umbrais do novo milênio, em data incerta entre 997 e 998, contraiu núpcias com a princesa Cunegundes. Pouco antes, em 996, o Papa Gregório V havia coroado Oto III imperador. Desde então, até o fim de sua vida, o jovem monarca teve em Santo Henrique um vassalo leal, um conselheiro sagaz, que o acompanhou fielmente nas empresas militares e em suas viagens a Roma.
Ascensão ao trono germânico
No início de 1002 Oto III morreu na Itália em Castel Paterno, Faleria, aos 22 anos, sem deixar descendência. Santo Henrique, enquanto sobrinho-neto de Oto I, tinha legítimo direito ao trono do Reino Franco do Leste, dos germanos. A sucessão na dinastia otoniana dava-se no ramo da Saxônia. Porém, Santo Henrique pertencia ao ramo secundário, bávaro. Daí o fato de não ter sido reconhecido rei imediatamente.
Quatro pretendentes lhe disputaram o trono. Dois ligados à dinastia — Oto, duque da Caríntia e o conde palatino Ehrenfried da Lorena, casado com uma irmã de Oto III — , e outros dois provenientes de ducados germânicos: Ekkehard, margrave de Meissen, e Hermann, duque da Suábia. Nessa emergência viu-se o despontar de seu tino político.
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