“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto mossa consciência se opõe”.9
Solução: exemplo na atitude do Apóstolo São Paulo
Prossegue o documento, expondo não só o direito, mas até o dever de resistir à Ostpolitik vaticana — no sentido da resistência de São Paulo a São Pedro — , sobretudo quando ela se opõe ao ensinamento do Magistério eclesiástico em relação aos regimes comunistas e, conforme dito por Nossa Senhora em Fátima (1917), aos “erros da Rússia”.
“Sim, Santo Padre, São Pedro nos ensina que é necessário obedecer a Deus antes que aos homens (At. V, 29). Sois assistido pelo Espírito Santo e até confortado — nas condições definidas pelo Vaticano I — pelo privilégio da infalibilidade. O que não impede que em certas matérias ou circunstâncias a fraqueza a que estão sujeitos todos os homens possa influenciar e até determinar Vossa atuação. Uma dessas é — talvez por excelência — a diplomacia. E aqui se situa a Vossa política de distensão com os governos comunistas.
“Aí o que fazer? As laudas da presente declaração seriam insuficientes para conter o elenco de todos os Padres da Igreja, Doutores, moralistas e canonistas — muitos deles elevados à honra dos altares — que afirmam a legitimidade da resistência. Uma resistência que não é separação, não é revolta, não é acrimônia, não é irreverência. Pelo contrário, é fidelidade, é união, é amor, é submissão.
“Resistência é a palavra que escolhemos de propósito, pois ela é empregada nos Atos dos Apóstolos pelo próprio Espírito Santo, para caracterizar a atitude de São Paulo. Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave risco de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e resistiu em face a São Pedro (Gal. II, 11).
“Este não viu, no lance fogoso e inesperado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.
“E nisto encontra paz nossa consciência”.10
Resistência
“Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da pátria e da civilização cristã ameaçadas.
“Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes, que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico.
“Resistir, entretanto, importa em emitir respeitosamente o nosso juízo, em circunstâncias como a entrevista de Mons. Casaroli sobre a felicidade dos católicos cubanos”.11 (Ver quadro ao lado).
Panorama interno da Igreja
No manifesto, o Prof. Plinio revela que relutou muito em tomar essa atitude de resistência à referida orientação diplomática do Vaticano, mas que por um imperativo de consciência e coerência com a doutrina da Santa Igreja Católica, viu-se obrigado a não mais guardar silêncio. E relata outros episódios que patenteavam a enorme inconformidade que se alastrava pelo mundo — de católicos alheios aos círculos da TFP — com a política de aproximação que favorecia os regimes comunistas.
Inconformidade essa manifestada muitas vezes de modo até ríspido e irreverente, diante da qual ficava evidente o quanto a posição da TFP era comedida. Nela, o Autor, numa linguagem respeitosa, mas firme, deixa claro que a tática de distensão empregada pela Santa Sé com os governos comunistas só favorecia a estes, enquanto os católicos que viviam atrás da Cortina de Ferro continuavam perseguidos virulentamente.
Disso depreendia a perplexidade:
“Perguntamos então se distensão não é sinônimo de capitulação. Se o é, como não resistir à política de distensão, apresentando-lhe de público o enorme desacerto?”.12
Conclusão do manifesto
O Prof. Plinio encerra a “Declaração de Resistência” com estas comoventes palavras perpassadas de seu intenso amor e veneração à Igreja imortal e ao Romano Pontífice:
“Esta explicação se impunha. Ela tem o caráter de uma legítima defesa de nossas consciências de católicos, ante um sistema diplomático que lhes tornava irrespirável o ar, e que aos católicos anticomunistas coloca na mais penosa das situações, que é a de se tornarem inexplicáveis perante a opinião pública.
(Ver quadro abaixo)
Bispo cubano condena a Ostpolitik vaticana
Mons. Eduardo Boza Masvidal, ex-Bispo auxiliar de Havana, foi expulso de Cuba sob a ameaça de metralhadoras.
O Prelado concedeu uma entrevista publicada em Catolicismo (edição de agosto/1974), na qual descreve o martírio da Igreja na infeliz e pobre ilha comunista, a outrora Pérola das Antilhas.
Quando perguntado como considerava a política de conciliação com o regime comunista castrista, levada a efeito pelo Exmo. Mons. Cesare Zacchi, promovido de Encarregado de Negócios a Núncio pelo Papa Paulo VI, o Prelado cubano respondeu nos seguintes termos:
“Não compartilho a atitude de Mons. Cesare Zacchi, Encarregado da Nunciatura em Havana, por ser uma atitude de defesa do regime e de compromisso com ele. Hoje que a Igreja quer em toda parte ter as mãos livres para cumprir a sua missão sem liames humanos, é inexplicável esse compromisso com um regime violador de todos os direitos e opressor da pessoa humana [...].
“É bom que se saiba que o povo de Cuba não escolheu este caminho, o qual lhe foi imposto pela força e pelo terror”.
* * *
Caminho esse — poder-se-ia completar — que perdura tiranicamente por mais de meio século, sem que tenha havido, em todo este longo período, qualquer eleição livre. O regime de terror instalado a tal ponto que muitos cubanos preferem arriscarem-se no mar em busca de liberdade a continuarem no “paraíso” do “camarada” Fidel Castro [...]. É isto uma felicidade?
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