seja, prolongou a escravidão reinante nos povos do Leste europeu, dominados pelo comunismo.
Na América Latina, tal política — sob a denominação de “queda das barreiras ideológicas” — foi inaugurada em 1971 pelo Presidente argentino Alejandro Lanusse (+1996), num encontro com o Presidente chileno, o marxista Salvador Allende.
No campo eclesiástico desenvolveu-se análoga política de coexistência pacífica com os regimes marxistas. O Cardeal Agostinho Casaroli (+1998), encarregado pelo Papa Paulo VI dos assuntos internacionais, adotou uma similar Ostpolitik vaticana com os governos comunistas, a ponto de passar a ser conhecido como ‘o Kissinger do Vaticano’.
Uma das mais ilustres vítimas dessa estratégia foi o Cardeal József Mindszenty, Príncipe de Esztergom e Primaz da Hungria, que em 1974 foi sacrificado para favorecer o bloco soviético. Ele foi sumariamente destituído de sua arquidiocese devido à sua heroica resistência, mantendo as “barreiras ideológicas” ao comunismo. (Ver quadro seguinte).
Cardeal Mindszenty,
o heroico resistente que não se deixou dobrar
Mons. Casaroli, em seu livro de memórias publicado em 2000, após descrever a viagem que fez à Hungria — para tratativas colaboracionistas com os títeres de Moscou — , descreve seu encontro com o inquebrantável Cardeal Resistente, na tentativa de forçá-lo a não opor obstáculos ao governo comunista húngaro:
“Desde o início, o “príncipe primaz” [o Cardeal Mindszenty] se mostrou decididamente contrário ao comunismo. Como era de se temer, ele foi logo preso e processado [...].
O fato da sua prisão, no dia posterior ao Natal de 1948, havia provocado enorme impressão no mundo e foi visto como a prova decisiva da natureza antirreligiosa e opressiva dos novos regimes da Europa Oriental. O cardeal permaneceu prisioneiro até a revolução anticomunista de 1956 [...].
E eis que, fechado em sua negra batina sacerdotal, um pouco curvado como sob o peso de muito graves preocupações, mas com a tranquila segurança de quem se sente investido de dignidade solidamente radicada na história e no direito, embora menosprezada. Com o rosto branco iluminado pelo fogo de dois olhos de aço, o cardeal veio em nossa direção! [...].
A minha visita devia despertar nele o suspeito que tivesse chegado lá, mandado pela mais alta autoridade da Igreja, para forçar-lhe um pouco a mão, no sentido de abandonar o seu refúgio na delegação americana. Talvez, entrasse nisto também a suspeita que tudo fosse fruto de uma combinação para atender um desejo do governo húngaro, coisa que lhe seria impossível de aceitar!
Mas também a simples hipótese de eventuais conversações ou negociações entre a Santa Sé e tal governo, sob este ou qualquer outro argumento, lhe parecia inaceitável no plano dos princípios e sem perspectivas no plano prático. A Hungria — disse-me ele uma vez — não é o melhor terreno para começar tratativas com os comunistas [...].
Ele dava a impressão de uma lâmina de aço, inflexível, pronta ao choque sem exclusão de golpes com uma realidade igualmente determinada a não se deixar dobrar” (Agostino Casaroli, Il martirio della pazienza - La Santa Sede e i paesi comunisti (1963-1989), Einaudi, Torino, col. Gli struzzi nº 520, 2000.
Os fatos
Tendo a Ostpolitik vaticana impulsionada pelo Papa Paulo VI chegado ao seu auge em 1974, como escreveu o Prof. Plinio, “trazendo como consequência enorme perturbação de consciência para a maioria anticomunista de católicos, vi-me levado pelas circunstâncias a elaborar um documento — vasado na linguagem mais reverente — em que demonstro, com base na doutrina católica, a liceidade da resistência à détente com o comunismo, então promovida pelo Vaticano”.2
No mesmo ano, por ocasião de uma viagem a Havana, o citado Mons. Casaroli (foto à dir.), depois de encontrar-se com Fidel Castro, entre várias afirmações desconcertantes, declarou que “os católicos que vivem em Cuba estão felizes sob o regime comunista”, e que “os católicos e, em geral, o povo cubano, não têm a menor dificuldade com o governo socialista”.3
Outro exemplo dessa “politique de la main tendue” — a política da mão estendida da diplomacia vaticana com os regimes comunistas — foi a conduta estarrecedora do Cardeal Silva Henríquez, Arcebispo de Santiago do Chile, de liberar os católicos para votarem no marxista e ateu Salvador Allende para a Presidência da República, e de colaborar para a manutenção do regime marxista que ele depois implantou no Chile.
“Por esse conjunto de atitudes — comenta o Prof. Plinio — , tão próprias a aproximar do comunismo os católicos, não consta que o purpurado tivesse sofrido a menor censura. Se houve quem imaginasse
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