Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 876 | página 42-43
| VIDAS DE SANTOS |

Conquanto fossem de raça síria, os libaneses até pelo menos fins do século XIX falavam o árabe, sob a forma de dialeto. Contudo, como o Líbano estava então sob o protetorado da França, com a qual mantinha cordiais relações desde o século XVI, a língua e a cultura francesa se disseminaram no país por meio dos missionários daquela nação. É por isso que muitos libaneses falavam e ainda falam essa língua.

A liturgia usada pelos maronitas talvez fosse, e ainda seja, a do rito siríaco, baseada na liturgia de São Tiago, mas com algumas adaptações inspiradas no rito latino, sendo celebrada em aramaico, a língua falada por Jesus Cristo. Contudo, para benefício do povo miúdo, o Evangelho era lido em árabe. As práticas devocionais da Igreja Latina eram mais costumeiras entre os maronitas do que entre as outras igrejas orientais.1

Sobre a devoção mariana dos católicos orientais, comenta o bispo maronita Dom Joseph Mahfouz : “A devoção à Mãe de Deus é, dizem, apanágio dos cristãos do Oriente; pode-se também afirmar que todo coração libanês, e em particular maronita, é um coração mariano. Todo ofício maronita deve conter hinos à Virgem Maria; e toda cerimônia religiosa deve incluir orações Àquela que foi a co-redentora da humanidade”.2

Assim era a vida da Igreja Católica no Líbano, em cujo solo nasceu um dos maiores taumaturgos dos tempos contemporâneos: São Charbel Makhlouf.

Dedicado desde pequeno às coisas de Deus

Charbel Makhlouf nasceu no dia 8 de maio de 1828 na aldeia de Bigah-Kafra, a mais alta do Líbano, situada a 1600 metros de altitude. Era o quinto filho do casal Antun Zarour Makhlouf e Brígida Al-Chidiac. Tinha dois irmãos e duas irmãs. Recebeu no Batismo o nome de Youssef (José).

De fé sólida e piedade sincera, sua família era modesta e vivia da agricultura, ambiente rural conscienciosamente religioso no qual Youssef cresceu. Aos três anos ele perdeu seu pai, passando a ser tutelado pelo seu tio paterno, Tanios.

Youssef frequentou a escola paroquial da aldeia. Desde pequeno demonstrou profundo sentimento religioso e propensão para a contemplação. De vez em quando deixava as brincadeiras e isolava-se numa gruta, para estar a sós com Deus. Os outros meninos passaram a chamar essa gruta, por ironia, de “a gruta do santo”.

Como em todas as famílias maronitas daquele tempo, à noite Youssef e seus irmãos se ajoelhavam ao redor da mãe e repetiam as preces que ela fazia, enquanto o incenso queimava num prato junto ao altarzinho suspenso à parede, dedicado a Nossa Senhora.

No inverno, com a neve cobrindo os campos e parte das casas — atingindo às vezes quatro metros — , Youssef ajudava a mãe nos afazeres domésticos. Na primavera, levava a vaca e os cordeiros da família para pastar, e ajudava o tio no cultivo do campo, sobretudo no das amoreiras para criar o bicho da seda, naquele tempo o principal meio de vida da montanha libanesa.

Enquanto trabalhava, com o pensamento sempre posto nas coisas divinas, Youssef rezava a Nossa Senhora, para que o ajudasse a tornar-se monge como seus dois tios maternos.

“Deus me quer inteiramente para Si”

Apesar de seu afeto materno e da oposição do tio — que necessitava de braços para o campo — , aos 23 anos Youssef decidiu fugir de casa e apresentar-se no mosteiro de Nossa Senhora de Mayfouq, da Ordem Maronita, na região de Byblos. Aí começou o noviciado, escolhendo o nome religioso de Charbel, em honra do santo martirizado em Edessa no ano 107.

Descobrindo seu destino, a mãe e os parentes tentaram várias vezes demovê-lo de seu intento, ao que ele respondia peremptoriamente: “Deus me quer inteiramente para Si”.

Depois do primeiro ano de noviciado, o Irmão Charbel foi enviado para fazer o segundo ano — de provação — no mosteiro de São Maron, de Annaya, cujos monges se dedicavam a cantar o Ofício Divino em aramaico sete vezes por dia, a estudar a liturgia e a vida monástica, e a aperfeiçoar-se no caminho da perfeição. Além disso, cuidavam dos trabalhos domésticos, como fazer pão, cultivar a terra, ou mesmo ser sapateiro-remendão ou carpinteiro.

Em 1853, aos 25 anos, Charbel pronunciou seus votos solenes de pobreza, obediência e castidade. Foi então enviado ao mosteiro de São Cipriano, em Batroun, onde funcionava o Seminário Teológico da Ordem Libanesa Maronita de que foi aluno, tanto em teologia quanto em santidade, do Beato Pe. Nimatullah Kassab Al-Hardini. Sempre um dos primeiros da classe, após seis anos de estudos teológicos Charbel foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1859, em Bekerké, sede patriarcal maronita.

Tendo sua mãe ido visitá-lo — por amor à Regra e Àquele que o “queria inteiramente para Si” — , ele se limitou a falar com ela do interior da capela, sem que um pudesse ver o outro. E dizia que o monge que mantém contacto com seus parentes depois de professo deveria recomeçar o noviciado.

A fama de taumaturgo se propaga

O Pe. Charbel voltou então para o mosteiro de São Maron de Annaya, onde permaneceria até o fim de sua vida.

Exercendo o múnus sacerdotal com muita edificação, encarregando-se por humildade dos trabalhos manuais da comunidade, logo começaram rumores de milagres operados por ele.

Certo dia, por exemplo, os monges trabalhavam num campo, quando viram uma perigosa serpente. Quiseram espantá-la, sem sucesso. Chamaram então o Pe. Charbel, que ordenou à serpente que fosse embora sem molestar ninguém. Ela obedeceu. Outra vez, gafanhotos estavam devastando a região quando receberam ordem do Pe. Charbel para se afastarem. Eles o fizeram imediatamente.

Por ordem de seus superiores, o Pe. Charbel curou vários doentes desenganados pela medicina. Certa vez chegou acorrentado ao convento um louco furioso, agressivo e perigoso, chamado Jibrail Saba. O religioso ordenou-lhe pôr-se de joelhos, ao que ele obedeceu. Colocou então suas mãos sobre a cabeça do infeliz e rezou. Depois disso, entregou-o inteiramente curado aos seus parentes.

“Quero viver ignorando os prazeres deste mundo”

Como sentira desde cedo o chamado à solidão, o Pe. Charbel pediu várias vezes permissão para se retirar a um eremitério. Mas, por ser muito útil à comunidade, a permissão foi sendo adiada.

Finalmente, em 1875, após 16 anos de vida em comum, um fato miraculoso obter-lhe-ia a desejada permissão. Depois de mais uma insistência do Pe. Charbel, o Superior pediu-lhe que esperasse um pouco mais e lhe deu um processo urgente para estudar, dizendo-lhe que tinha licença para fazê-lo até mais tarde da noite.

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