O Pe. Charbel foi então à cozinha para que colocassem azeite em sua lamparina. Querendo zombar do sisudo monge, em vez de azeite, o servente colocou água. Absorto em seus profundos pensamentos, São Charbel nada percebeu e se retirou. Foi à cela e acendeu naturalmente a lamparina sem nada desconfiar, e pôs-se a rezar.
O servente, que estava à espreita, viu perplexo a lamparina acesa... Correu então ao padre superior para lhe contar o sucedido. Este foi imediatamente à cela de São Charbel e constatou o fato maravilhoso. No dia seguinte, avisado do milagre, o Geral da Ordem autorizou imediatamente o Pe. Charbel a ocupar, no eremitério de São Pedro e São Paulo, pertencente ao próprio mosteiro, a cela do Pe. Eliseo Kassab Al-Hardini, irmão do Beato Al-Hardini, então falecido.
O eremitério ficava situado a 1.400 metros de altitude. O eremita permanecia sob a jurisdição do superior do convento e fazendo parte da comunidade, apesar de sua vida retirada. Fazia uma só refeição por dia, composta de legumes verdes ou cozidos, cereais e azeitonas. Por penitência, nunca comeu frutas. A refeição era entregue pelo mosteiro.
Contrariamente à moderna “Teologia da Libertação” e à nova missiologia, ele dizia: “A pobreza favorece a salvação. A frugalidade fortalece a alma. Quero viver nas privações, ignorando os prazeres e as doçuras deste mundo. Quero ser o servidor de Cristo e de meus irmãos”.
Um de seus piores tormentos, na altitude em que vivia, era o frio do rigoroso inverno libanês. “O padre Charbel, malvestido, mas com vestes limpas, mal alimentado, mas com boa saúde, exposto sem defesa ao frio e ao calor, privado de qualquer conforto e qualquer ternura humana era, entretanto, o homem mais feliz do mundo, pois o Senhor tornara-se sua verdade, sua força, sua riqueza, sua alegria e a razão de sua vida”.3
A vida post-mortem de São Charbel
Depois de 23 anos de vida eremítica — com sua legendária obediência e angélica castidade transparecendo em todo seu ser, sua pobreza e sua oração contínua pelas quais imitou os maiores Santos da Igreja — , Charbel Makhlouf morreu no dia 24 de dezembro, vigília de Natal do ano 1898.
Ao dar início ao seu processo de beatificação, em abril de 1954, Pio XII afirmou: “O Pe. Charbel já gozava, em vida, sem o querer, da honra de o chamarem santo, pois a sua existência era verdadeiramente santificada por sacrifícios, jejuns e abstinências. Foi vida digna de ser chamada cristã e, portanto, santa. Agora, após a sua morte, ocorre este extraordinário sinal deixado por Deus: seu corpo transpira sangue há já 79 anos, sempre que se lhe toca, e todos os que, doentes, tocam com um pedaço de pano suas vestes constantemente úmidas de sangue, alcançam alívio em suas doenças e não poucos até se veem curados”.4
Em 1952, quando foi feita a terceira exumação do corpo de São Charbel, “o corpo foi retirado do caixão e sentado numa cadeira, diz testemunha ocular. Os braços e as pernas dobrados, curvados. A cabeça inclinada, balançava dum lado para outro. As vestes sacerdotais e as roupas interiores estavam encharcadas de sangue”. 5
O número de milagres operados por ele nessa ocasião foi tão grande, que Anaya, onde está seu mosteiro, foi chamada de “A Lourdes libanesa”. Somente entre 22 de abril de 1950 e 25 de junho de 1955 foram registradas nos anais do Convento São Maron 237 curas, muitas constatadas e confirmadas por médicos.6
Um último fato: durante sua vida, São Charbel nunca foi fotografado. Entretanto, sua foto que corre o mundo foi, segundo testemunhas fidedignas, produto de mais um de seus estupendos milagres. Em 1950, o Pe. George Webby, sacerdote maronita de Scranton, nos Estados Unidos, visitou o Líbano e tomou uma foto de monges do lado de fora do mosteiro onde o santo vivera. Quando revelou a foto, viu que São Charbel aparecia milagrosamente entre os monges, de acordo com informação fornecida pela igreja de Santo Antônio.7
Página seguinte