Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 873 | página 48-49
| AMBIENTES–COSTUMES–CIVILIZAÇÕES |

Arte de subir e de descer escadas

Plinio Corrêa de Oliveira

Poder-se-ia definirescadacomo uma série de degraus que nos permite, calcando os pés, passar de um andar ao outro; enquantoelevadornos permite o acesso de um andar ao outro por via mecânica.

Os arquitetos, ainda com ares da antiga arte, procuravam dar às escadas certa nobreza. Elas deviam ter alguma coisa de ornamental, de tal maneira que, como tudo aquilo que serve ao homem, esconda ou colabore a não se pensar na miséria humana, mas, pelo contrário, realce algo do homem.

A mais elementar das ideias é a de que uma escada serve para subir e para descer, duas operações que podem mostrar a miséria, mas também a grandeza do homem. Tudo quanto o cerca deve respeitá-lo e ele deve viver cercado de respeito, mesmo o mais modesto dos homens. Ser respeitado vale muito mais do que ser querido.

Então, até mesmo uma escada deve ser feita para cercar o homem de respeito, porque tudo aquilo de que ele se serve deve ter elementos que realcem algumas excelências da natureza dele, e disfarcem algumas misérias da condição humana.

Descer ou subir escadas com a leveza do minueto

Subir ou descer escadas cria problemas que eu chamaria quase de teatrais, quase uma encenação. Quando um homem sobe uma escada, ele sobe lutando contra a lei da gravidade. E no final de uma escada alta pode aparecer um sinal da miséria humana: o cansaço.

Antes do pecado original, o homem operava sem cansaço — o trabalho era indolor, agradável, interessante. Mas depois do pecado original o trabalho passou a ser difícil, a lei da gravidade começou a pesar, e vivemos batalhando contra o chão. Uma das manifestações da vitória sobre a lei da gravidade é o minueto; durante essa dança o homem e a dama pisam como se fossem plumas.

Esses comentários nos dão oportunidade de sentir o gosto de refletir. Um modo de refletir seria abrir um tratado sobre o raciocínio, mas isto não daria inteiramente o gosto da reflexão. Outro seria, por exemplo, refletir sobre o modo de subir e descer escadas, que pode ter a leveza de um minueto, e cogitar que esse modo pode acentuar no homem aquilo que nele é mais semelhante a Deus. Assemelhar-se a Deus é a honra suprema, é o fim último, é o bem extremo.

Subindo ou descendo uma escada, as pessoas podem no final acabar por manifestar que fizeram algum esforço. É o tributo que a natureza cobra, ainda que na melhor flor da juventude, devido aos efeitos do pecado original.

Ademais, quem sobe uma escada, sente outro aspecto da miséria hu-

Página seguinte