Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 873 | página 50-51
| AMBIENTES–COSTUMES–CIVILIZAÇÕES | (continuação)

mana: as pessoas que estão em baixo, vistas de cima, parecem menores do que são. E não é agradável serem vistas assim. Os personagens que nós respeitamos, gostamos de vê-los em cima!

O descer de uma escada é outra operação na qual, como em tudo que o homem faz, pode igualmente transparecer a miséria humana. Se ela não desce com leveza, vista de baixo, pode dar a impressão de uma degringolada que está decaindo, caso não desça com dignidade.

Disfarçar o esforço, como uma homenagem à virtude

Há portanto uma arte de subir e de descer escada. Tanto quanto as circunstâncias permitem, deve-se fazê-lo disfarçando o esforço, fazê-lo com elegância. Pelo respeito que o homem tem para consigo e para com os outros, ele deve procurar velar a sua própria miséria. Tendo pudor de sua própria miséria, ele deve saber disfarçar o esforço, como uma homenagem à virtude.

Manter a compostura exige esforço sobre si, é uma homenagem que os lados fracos do homem prestam àquilo que ele deveria ser se não fosse o pecado original. Pode ser belo e nobre subir ou descer uma escada e esta deve servir de cenário digno para que o homem possa fazer isso de modo distinto. E isto tanto numa habitação modesta quanto nos palácios.

Nos palácios deve ser uma glorificação esse tipo de ação, porque muito mais do que na residência comum, eles são a residência da glória. O palácio é o lugar onde reside a glória, é a habitação proporcionada com a glória e deve dar a possibilidade, a uma pessoa que queira, de gloriosamente descer e subir suas escadarias, feitas para enobrecer.

Ninguém tem o direito de fazer coisas de modo vil

Em tese é mais glorioso subir. O sol quando sobe até o horizonte vai mostrando mais a sua glória; quando ele desce, vai velando essa sua glória nos crepes da noite! As operações do homem são feitas na presença de Deus e dos homens. Assim, é verdade que subir com glória uma escada é uma coisa muito bela aos olhos d’Ele.

Aos olhos dos homens, é mais belo saber descer as escadarias. Porque quem sobe é visto de cima para baixo e quem desce é visto de baixo para cima. E para mostrar a sua própria glória, mostra-se melhor a quem está embaixo. Mas é preciso saber descer sem orgulho. Quer dizer, a pessoa deve descer a escada com glória quando tem direito a ela; descer com distinção quando está numa situação distinta ou é uma pessoa distinta; deve descer com correção pelo simples fato de ser uma criatura humana.

É sumamente incorreto descer dando a impressão de que vai cair e que perdeu o controle de si mesmo. Como a lei da gravidade puxa o homem para baixo, aquele que se precipita dá a impressão de que se entregou, que é um vencido, um destroço que rola. Se ele tem de descer a escada depressa, deve tomar uma atitude bem clara de que está com pressa, mas se mostrar inteiramente senhor de si, com a cabeça e o tronco tesos e eretos.

Assim se desce a escada com correção e não de modo vil. Ora, nenhum homem tem o direito de fazer coisas de modo vil. Hoje tanto se fala de “dignidade humana”, mas com uma noção errada. A noção verdadeira se apagou, mas ela é a luz do homem!

Quando a pessoa tem o direito a uma situação distinta, pela idade ou pelas circunstâncias, deve descer a escada compassadamente. De maneira que a pessoa em baixo perceba claramente todas as fases da operação; avançar o pé, colocar e pôr o outro, para aquele que a vê note que está descendo com superioridade de espírito, fazendo bem aquilo, mas pensando numa coisa mais elevada.

É horrível descer uma escada olhando para os degraus, ou para quem está embaixo como quem dissesse: “Sei que sou um colosso!”. Pelo contrário, deve — pelo olhar e pela atitude, à medida que vai se aproximando de quem está embaixo — fazer sentir mais a sua ação de presença, de maneira que, ao chegar bem perto, a ação de presença se torne plena, não dando a impressão de que apenas chegou um corpo, como pacote de carnes e ossos, mas chegou uma alma.

Alguém poderia me objetar: “Essa consideração é bagatela”. Respondo: Acho que viver é saber analisar as coisas, o contrário é vegetar.

Escada: imagem da hierarquia na escala social

Notem a entrada desse palácio [foto na página ao lado]. Nos antigos palácios, o andar nobre não era o térreo, mas o andar de cima. Os convidados distintos entravam primeiro em um saguão onde havia uma escadaria monumental que dava acesso aos salões revestidos com belas pinturas e esculturas.

Convém que a escadaria de um palácio seja larga, pois convém à largueza e grandeza de toda ação nobre o requerer do homem e da senhora a arte de subir e de descer. Era a preocupação de dignificar a natureza humana, tanto nos nobres quanto nos plebeus; todos são dignificados com a grandeza.

Um espírito igualitário não pode gostar dessas escadas, pois elas representam a imagem da hierarquia na escala social, na escala de valores. Escala e escada não são variantes? A escada serve de suporte para a escala social. O contrário disso é a escada rolante do metrô...

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