ardente simpatia. O enfermo curado estava na primeira linha da assistência e atraía todos os olhares. Procedeu-se ao interrogatório.
— “Em nome de quem – perguntou Caifás – e por que poder curaste este homem?”
— “Príncipes do povo – respondeu Pedro – visto que nos trazem ao vosso tribunal por ter curado este homem e visto que desejais saber em nome de quem o curamos, devo dizer-vos a verdade. Sabei, pois, que este homem, nós o curamos em nome de Jesus de Nazaré, daquele Jesus a Quem vós crucificastes e a Quem Deus ressuscitou dos mortos; daquele Jesus a Quem vós rejeitastes, mas que se tornou a pedra angular do edifício. Ninguém mais vos poderá salvar, pois nenhum outro nome foi dado aos homens para nos podermos salvar” (Act 4, 7-12).
A firmeza do apóstolo abalou os juízes. Aquela linguagem de um homem simples e iletrado, daqueles pobres galileus que eles tinham visto no séquito do Mestre, lançou-os numa espécie de espasmo. Por outra parte, o enfermo ali estava diante deles, como prova irrefutável da intervenção divina. Para dissimular o seu embaraço, ordenaram aos guardas que levassem para fora os acusados e se puseram a deliberar sobre o melhor partido a tomar. Sendo-lhes impossível negar um milagre feito diante do povo, resolveram, quando menos, impedir que se divulgasse e proibir aos apóstolos, sob as penas mais severas, que pregassem o Nome de Jesus. Fazendo-os, pois, comparecer de novo, intimaram-lhes a proibição absoluta de falarem e ensinarem em nome do seu Mestre, tanto em público quanto em particular. Mas Pedro e João já não eram homens que se intimidassem com ameaças. “Julgai vós mesmos diante de Deus — responderam eles — se é justo que vos obedeçamos a vós antes que a Deus. Não podemos calar-nos sobre o que vimos e ouvimos” (Act 4, 13-19).
A graça do Espírito Santo de pregar sem nenhum temor
Ao ouvirem estas palavras que consagravam os direitos imprescritíveis dos ministros de Jesus, os juízes romperam em objurgações ameaçadoras, mas despediram os apóstolos sem mais castigo, pois receavam uma revolta popular. Pedro e João apressaram-se a voltar para os seus irmãos, que estavam inquietos com a prisão. Depois de terem ouvido as proibições e ameaças do Conselho, a assembleia pediu ao Senhor a força de que precisasse cada um: “Senhor — exclamaram todos — Vós dissestes por boca de David: ‘Por que rugiram as nações e por que motivo os príncipes e os povos conspiraram contra o Senhor e contra o seu Cristo?’
“Conspiraram contra Jesus e agora ameaçam-nos também a nós com a sua cólera. Dai-nos a força de ensinar a vossa palavra sem nenhum temor e multiplicai os prodígios em nome do vosso Filho Jesus”. Mal tinham feito esta oração, sentiu-se tremer a casa e o Espírito Santo inundou-os de graça e todo o temor lhes desapareceu do coração (Act 4, 24-30).
Continuaram, pois, os apóstolos e, com mais força do que nunca, a pregar a Ressurreição do Salvador. Por seu lado, Deus multiplicava por meio deles os sinais e milagres. Por isso, cada dia mais densa se apinhava em torno deles, sob os pórticos ditos de Salomão, a multidão dos ouvintes. E o número dos crentes crescia em proporções notáveis e a fé no poder dos apóstolos tornava-se tão geral que traziam em catres, para o meio das praças públicas, os doentes e enfermos da cidade e vilas vizinhas a fim de que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra percorresse alguns deles e os livrasse dos seus males (Act 5, 15).
“Primeiro se deve obedecer a Deus que aos homens”
Uma vez que se averiguou bem que os pregadores do Nome de Jesus nenhum caso faziam das ameaças do Sinédrio, o sumo-sacerdote e os seus cúmplices ordenaram que prendessem aqueles rebeldes e os encarcerassem, bem resolvidos a lhes infligir um severo castigo. Mas na própria noite da prisão veio um anjo do Céu abrir aos apóstolos a porta da prisão. E, tendo-os conduzido para fora, disse-lhes: “Ide ao Templo para nele pregar as palavras de vida”. Obedeceram eles e desde o amanhecer entraram para os pórticos e se puseram a ensinar como nos outros dias (Act 5, 17-20).
Contudo, os pontífices e anciãos, reunidos em conselho, enviaram guardas a buscar os presos a fim de proceder ao julgamento. Com grande espanto seu, encontraram os calabouços vazios e foram anunciar aos amos a estranha notícia. “Encontramos as portas da prisão perfeitamente fechadas — disseram eles — e bem vigiadas pelas sentinelas, mas dentro daquelas portas não vimos ninguém”.
Não acabavam os juízes de se repor da surpresa e trocavam entre si as suas ansiosas impressões, quando lhes foram anunciar que os presos estavam a ensinar o povo no Templo, o que mais ainda lhes acrescentou o embaraço. Por fim, mandaram a um capitão das guardas que fosse prender os apóstolos e os trouxesse ao pretório. Foi ele e se desempenhou do cometido, mas usando de muito bons termos a fim de não ser corrido à pedrada pelo povo. O sumo-sacerdote repreendeu-os com dureza por terem infringido as suas ordens (Act 5, 21-23).
— “Tinha-vos proibido expressamente — disse-lhe — que ensinásseis em nome d’Aquele Homem e vós, não contentes em pregar a sua doutrina a toda a cidade, ainda nos tornais responsáveis da sua morte e do seu sangue”.
— “Primeiro se deve obedecer a Deus que aos homens”, respondeu Pedro. “O Deus dos nossos pais ressuscitou aquele Jesus a Quem pregastes num madeiro e O exaltou e O constituiu Príncipe e Salvador dos povos, a fim de excitar Israel ao arrependimento e lhe conceder o perdão dos pecados. Do que afirmamos somos nós testemunhas; nós, e o Espírito Santo, que Deus dá a todos os que Lhe obedecem” (Act 5, 27-32).
Página seguinte