Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 862 | página 20-21
| VIDAS DE SANTOS |

São Francisco de Borja

Plinio Maria Solimeo

A Santa Igreja celebra no dia 3 de outubro a festa litúrgica de São Francisco de Borja, Vice-Rei da Catalunha, Duque de Gandia e Grande de Espanha, que renunciou às atrações do mundo ao ver o cadáver da outrora belíssima Imperatriz Isabel. Enviuvando-se aos 40 anos, ingressou na Companhia de Jesus, da qual foi o terceiro Superior Geral. Faleceu em 30 de setembro de 1572, há exatos 450 anos.

O pequeno ducado de Gandia, pertencente ao Reino de Valência, era governado no início do século XVI por Dom João de Borja. Ele o recebera de sua mãe que, viúva prematuramente pela segunda vez, decidiu ingressar no Monasterio de las Descalzas onde já se encontrava sua filha Isabel, de edificante virtude.

Dom João era casado com Dona Joana de Aragão, neta, por um ramo bastardo, do Rei Fernando de Aragão, esposo de Isabel, a Católica, soberanos que puseram fim a oito séculos de dominação moura na Espanha no mesmo ano em que promoviam o descobrimento da América.

Francisco, primogênito dos Duques de Gandia, nascido a 28 de outubro de 1510, deveu à mãe sua precoce piedade. Dona Joana tinha especial predileção por ele devido a seu bom temperamento e natural inclinação à virtude. Não descuidando em que recebesse formação própria a seu ilustre sangue, escolheu para o filho dois preceptores de conhecida erudição e comprovada virtude.

Modelo de virtude em luxuosa Corte

Aos 10 anos Dom Francisco perdeu a mãe. A partir de então deixou o convívio do pai e dos sete irmãozinhos para ser educado pelo tio materno, Arcebispo de Saragoça, com quem ficou durante alguns anos.

O costume exigia que os filhos dos Grandes de Espanha passassem a juventude como pajens na Corte. Assim, ao cumprir 16 anos, Francisco foi enviado ao palácio de Carlos V, jovem Rei da Espanha e Imperador do Sacro Império. Este logo se afeiçoou ao adolescente por sua nobreza de sangue, seriedade, diligência e piedade.

A Imperatriz Isabel, filha do Rei de Portugal e esposa de Carlos V, tinha tal dileção por Dom Francisco que, atingindo ele os 20 anos, recomendou-lhe por esposa Dona Leonor de Castro, sua melhor dama de companhia, então com 17 anos, em cujas veias corria o mais ilustre sangue luso. Como presente de bodas, o Imperador Carlos V concedeu a Dom Francisco, além do título de Marquês de Lombay, a nomeação para Montero-Mor de sua Casa. E a Imperatriz acrescentou-lhe o de Cavalariço-Mor, enquanto à Marquesa, esposa de Francisco, o de Camareira-Mor.

A Imperatriz quis ser a madrinha do primeiro filho do casal, que recebeu o nome de Carlos, em honra do Imperador. Dispôs também que seu filho Felipe — o futuro Rei Felipe II — fosse o padrinho.

Em meio a todas essas distinções, vivendo em faustosa corte e sendo dos poucos a ter entrada livre na câmara real, o jovem Marquês de Lombay mostrava-se sempre simples e recatado, impressionando a todos por sua rara virtude, fruto do salutar hábito de domar suas paixões e más inclinações. Para isso, utilizava os métodos mais eficazes, como a oração, confissão e comunhão frequentes, além de penitências voluntárias. Dona Leonor procurava seguir a mesma trilha.

Deus os abençoou, concedendo-lhes cinco filhos e três filhas, uma das quais seguiria as pegadas da bisavó, entrando também para o Monasterio de las Descalzas de Gandia. Após o nascimento do oitavo filho, os Marqueses decidiram viver em estado de continência, embora não tivessem atingido ainda os 30 anos de idade.

O ano de 1529 marcou profundamente a vida do Marquês. A Imperatriz Isabel, no auge do poder e de sua extraordinária beleza, faleceu. Como prova de estima pelo casal, dispôs o Imperador que somente a Marquesa amortalhasse sua esposa, e que seus restos mortais fossem acompanhados pelo Marquês até o Panteão Real, em Granada.

Quando, após 15 dias de traslado sob um sol abrasador, o Marquês teve de reconhecer ante os notários aquele corpo já em adiantado estado de corrupção, constatou novamente, de maneira pungente, a fragilidade das glórias deste mundo. E renovou seu propósito de, caso sobrevivesse à esposa, dedicar sua vida em uma ordem religiosa. São João de Ávila, a quem então abriu sua alma, aprovou a sua decisão.

Vice-Rei da Catalunha – “Exílio” em Gandia

Assim que o Marquês voltou de Granada, Carlos V o nomeou Vice-Rei da Catalunha, cargo de grande confiança e responsabilidade, concedido anteriormente somente a pessoas mais idosas e já experimentadas

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