Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 862 | página 22-23
| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

em semelhantes funções. O Imperador reconhecia assim, naquele vassalo fiel de 30 anos incompletos, a maturidade e prudência necessárias para tal cargo.

Nos três anos de seu vice-reinado, Dom Francisco acabou com o banditismo que infestava a região, robusteceu a fronteira com a França, implementou a Marinha e, em tudo, mostrou-se hábil político e grande administrador.

Em 1542, quando ia começar seu segundo triênio, recebeu a notícia do falecimento de seu pai. Pediu então licença ao Imperador para ir pôr as coisas em ordem no ducado que herdara.

Esta lhe foi concedida, mas Carlos V já o havia nomeado Mordomo-Mor da Princesa da Espanha, Presidente de seu Conselho e Superintendente de seu Erário. À sua esposa, o Imperador nomeara Camareira-Mor; e às suas duas filhas maiores, damas de honra. Todos entenderam que, nomeando Dom Francisco Mordomo-Mor de seu filho Felipe, Carlos V tencionava designar assim o primeiro-ministro do próximo reinado.

Entretanto, Deus não queria Dom Francisco na vida da corte, mas no governo de seu pequeno ducado, a fim de prepará-lo para a grandíssima missão que lhe destinava. E assim sucedeu que, quando Carlos V comunicou à Família Real portuguesa a Casa e os Servidores que diligentemente escolhera para a futura Rainha da Espanha, os soberanos portugueses, por motivos ignorados, rejeitaram o Duque de Gandia.

Nos sete anos seguintes Dom Francisco dedicou-se inteiramente ao seu ducado e à vida de família. Fundou um colégio da Companhia de Jesus, depois elevado a universidade, para dar formação verdadeiramente católica não só aos filhos de seus vassalos, mas principalmente aos dos mouriscos residentes no ducado, que mal aprendiam a verdadeira Religião.

Já se afeiçoara à nova milícia fundada por Inácio de Loyola, pela amizade que mantinha com Pedro Fabro, Pe. Araoz e Luís Beltrão — jovem do colégio jesuíta de Gandia e futuro Apóstolo da Colômbia.

Membro da Companhia de Jesus

Em 1546 Dom Francisco assistiu com grande dor a morte de sua piedosa esposa. Se de um lado, com somente 36 anos, ele se via pronto para realizar seu projeto de se consagrar a Deus, de outro lado prendia-o ao mundo sua numerosa e imatura prole.

Seu desejo de pertencer à Companhia de Jesus levou-o a enviar uma carta a Inácio de Loyola pedindo-lhe humildemente que o aceitasse entre seus filhos, ao mesmo tempo em que lhe expunha os obstáculos que se antepunham a tal desejo, a saber: sua condição de pai e de duque. Enquanto isso, fez voto de castidade e obediência ao superior dos jesuítas de Gandia.

A carta chegou a Santo Inácio num momento de grande aflição, pois ele acabara de perder seu primeiro e muito amado discípulo, Padre Pedro Fabro, consumido por seu extraordinário zelo. Mas conhecendo por revelação divina que o Duque de Gandia entraria para Companhia, nova luz sobrenatural fê-lo saber também que ele seria digno substituto de seu filho falecido.

O fundador da Companhia de Jesus tinha o Duque em tão alta conta, que passou a consultá-lo sobre problemas que enfrentava na Espanha, recomendando ao seu Provincial que fizesse o mesmo.

Certa vez, como não estivesse muito inclinado a autorizar uma fundação em Sevilha, Santo Inácio enviou a Gandia uma folha em branco com sua assinatura, deixando assim ao Duque o poder de decisão.

Do papel que passou a ter Dom Francisco nos destinos da Companhia dá prova o Cardeal Cienfuegos ao afirmar que “todas as empresas e dificuldades da Companhia na Espanha e mesmo na Europa passavam por Gandia, buscando a direção e o juízo de Borja, amparo em sua grandeza e abrigo em sua sombra”.

Profissão secreta na Companhia de Jesus

Carlos V, que nunca esquecia o Duque, pensou nomeá-lo Presidente do Conselho do novo reinado. Ao convocar as Cortes Gerais do Reino de Aragão, em 1547, escolheu as pessoas que haveriam de acompanhar seu filho Felipe, figurando na cabeça da lista o Duque de Gandia. Nomeou-o também Tratador (um dos quatro intermediários entre o Príncipe Regente e seus Estados). Felipe insistiu então com o Duque para que aceitasse definitivamente o cargo de Mordomo-Mor.

Dom Francisco recorreu então a Santo Inácio. Este foi imediatamente ao Vaticano suplicar ao Santo Padre uma dispensa extraordinária para que um nobre pudesse fazer a profissão solene na Companhia, conservando-a, entretanto, em segredo, mantendo as aparências de secular, no decurso de três anos, a fim de colocar seus filhos. Assim, esse nobre (cujo nome foi ocultado) ficaria livre de todos os assaltos exteriores.

Obtida a dispensa, o fundador da Companhia remeteu-a ao Duque, recomendando-lhe não se aproximar de Roma, pois era desejo do Papa conceder-lhe o chapéu cardinalício.

O novo professo continuou intervindo na reforma dos conventos relaxados. E quando os inimigos da Companhia lançaram uma campanha de calúnias contra Santo Inácio e seus Exercícios Espirituais, o Duque escreveu ao Papa pedindo um exame rigoroso dos Exercícios, com uma consequente sentença pontifícia. Esta veio mediante o Breve Pastoralis Officii cura, uma aprovação explícita e honrosa da obra, concedendo indulgências àqueles que se aproveitassem dela. Isso fez calar e estremecer seus caluniadores.

Ao fim de quase três anos, o Duque de Gandia conseguiu casar seus filhos maiores. Transferira alguns de seus privilégios para seu segundo filho, e encarregara o mais velho de proteger e educar os três menores. Tudo parecia pronto quando, casando-se novamente o Príncipe Felipe, voltou a pensar no Duque para seu Mordomo-Mor.

Encontro de dois grandes Santos

Dom Francisco escreveu a Santo Inácio pedindo-lhe licença para refugiar-se em Roma, uma vez que Paulo III havia falecido e o “perigo” do chapéu cardinalício que queria lhe conceder estava momentaneamente afastado. O Geral da Companhia recebeu de braços abertos aquele filho, que conhecia só sobrenaturalmente. Quando o Duque se ajoelhou para lhe pedir a bênção, Santo Inácio fez o mesmo, e os dois santos se reuniram num longo abraço.

Mas não tardou que o novo Papa, Júlio III, conhecendo melhor o Duque, desejasse cumulá-lo de honras, inclusive a concessão do chapéu cardinalício. Santo Inácio mandou-o então afastar-se de Roma e voltar para a Espanha.

Como Grande de Espanha, recebeu finalmente em sua pátria a permissão de Carlos V para fazer-se religioso. Já podia trocar os trajes seculares pela batina e receber a ordenação sacerdotal. Tinha então 40 anos de idade.

Pode-se imaginar a repercussão que tal acontecimento teve na devota Espanha! De todos os lados choveram pedidos para sermões, visitas e exercícios espirituais.

Apesar de sua recente ordenação, Santo Inácio

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