Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 859 | página 50-51
| AMBIENTES–COSTUMES–CIVILIZAÇÕES |

Graça e grandeza, miséria e servidão

Plinio Corrêa de Oliveira

A foto nos apresenta os torreões feéricos da famosa igreja de São Basílio, em Moscou. Esse edifício admirável, que foi construído por Ivan, o Terrível, no século XVI, evoca com extraordinária vivacidade o que havia de mais típico na Rússia dos Tsares. Divide-se ele em duas partes, separadas horizontalmente por uma linha ideal.

A metade de baixo, que vai do solo até a parte mais baixa dos torreões, é sólida, maciça, extremamente pesada: um enorme conjunto arquitetônico, cujas pedras se empilham de modo a formar um bloco densíssimo, que parece até estar afundando no chão.

Acima dessa linha ideal, inesperadamente, os torreões se diferenciam do embasamento colossal e, como se fossem agulhas graciosas, erguem-se esguios para o céu. As cúpulas bizantinas são tão leves, tão delicadas, que a nossos olhos de ocidentais modernos parecem até aeróstatos prontos a alçar voo a qualquer momento. Precedendo-as com estupendo arrojo, está bem no alto a cúpula mimosa que parece arrastar irresistivelmente atrás de si, como uma cauda de cometa, um imenso torreão triangular.

Um dos fatores da beleza é a harmonia dos elementos muito diversos. Este fator se encontra com excepcional riqueza nessa obra-prima, em que se concilia e se completa o sumo da severidade, da estabilidade e da força, com o sumo da graça, da fantasia e da leveza.

E nisto está o encanto desse monumento, que retrata a alma algum tanto imatura e primitiva, mas esplendidamente matizada e artística, da grande Rússia, da gloriosa Rússia..., da pobre Rússia que teria sido bem outra se o cisma não a tivesse arrancado dos braços amorosíssimos da Esposa de Jesus Cristo.

Essa igreja admirável, mais asiática talvez do que europeia, se situa num quadro urbanístico totalmente ocidentalizado e de agradável aspecto.

E o olhar se detém, embevecido, na consideração de um tão belo conjunto, no qual tudo parece falar-nos de graça, delicadeza e dignidade.

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