Sacerdote brilhante, religioso cheio de virtude
Para seus contemporâneos, Pedro Tomás não era apenas um sacerdote brilhante, mas sobretudo um religioso cheio de virtude. Diz o Pe. François Giry em sua obra Vies des Saints: “Ele era considerado não apenas um tesouro da ciência, mas também um espelho de modéstia, pureza e caridade. Acima de tudo, tinha grande devoção à Virgem Santíssima, cujo amor estava tão fortemente gravado em seu coração, que o bendito nome de Maria pontilhava todas suas palavras [...]. O venerável Jean de Hildesheim, seu discípulo nesse período, testemunhou em seu trabalho Speculum Carmeli que Pedro Tomás lhe havia revelado ter tido uma visão da Virgem Maria (provavelmente em 1351), garantindo que a Ordem Carmelita não desapareceria, e que estaria sempre presente até o final dos tempos. A Virgem teria indicado a ele que essa promessa havia sido feita pelo próprio Cristo, a pedido expresso de Elias, ‘o primeiro Patrono da Ordem’, durante a Transfiguração”.3
Em 1345 Pedro Tomás foi nomeado pregador apostólico da Ordem do Carmo, e no ano seguinte bispo de Patti e Lipariron. Como autêntico carmelita, nunca deixou de vestir o hábito religioso e portar o escapulário ao dormir, mesmo sendo bispo.
Pacificador, pregador de cruzada
O afresco de Andrea Bonaiuti (séc. XIV), “A Igreja Militante” na Capela Espanhola, no convento Santa Maria Novella, em Florença, retrata as principais personagens da cruzada liderada por São Pedro Tomás e o rei de Chipre, Pedro I (círculo). No centro o Papa Inocêncio VI.
A partir de 1353, e sob os pontificados de Inocêncio VI e Urbano V, Pedro Tomás consagrará sua vida a missões diplomáticas delicadas, que lhe serão confiadas pela Santa Sé como Legado Papal: “a pacificação entre todos os cristãos; a defesa dos direitos da Igreja junto aos monarcas mais poderosos da época; a unificação das igrejas ortodoxas eslavas e bizantinas com a Igreja verdadeira; a cruzada contra os muçulmanos; e a liberação da Terra Santa”.
Em maio de 1359 foi nomeado Legado Universal da Santa Sé e Inquisidor da Fé para todo o Mediterrâneo europeu. Uma de suas missões era “castigar os infiéis, trazer de volta os dissidentes e sustentar os cristãos autênticos”. Inocêncio VI lhe deu para isso “um direito de velar sobre as forças armadas e organizar uma cruzada”.
Como Legado da Igreja Católica para o Oriente, São Pedro recebeu a missão de pôr-se à frente de uma expedição militar visando deter os turcos que ameaçavam não só Constantinopla, mas toda a Cristandade. Constantinopla cairia um século mais tarde, pondo fim ao Império Romano do Oriente.
Defensor da Imaculada Conceição
Os carmelitas apontam São Pedro Tomás, já em sua época (portanto, quase quatro séculos antes da proclamação do dogma), como um ardoroso defensor da Imaculada Conceição. Assim, foi ele chamado a se pronunciar num debate teológico no qual defendeu a tese de que a Santíssima Virgem Maria foi concebida, desde o primeiro instante de sua conceição, sem a mancha do Pecado Original a que está sujeita toda a humanidade, salvo a de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Com efeito, sua ardente devoção à Santíssima Virgem foi sempre o farol que iluminou todas suas ações. Ele se gloriava de ser carmelita. Sempre que podia, mesmo na qualidade de bispo e depois Patriarca, hospedava-se nos conventos de sua Ordem, cumprindo com exatidão todos os pontos das Regras, especialmente o que ordena ao religioso “meditar dia e noite a lei do Senhor”.
Os cismáticos recalcitrantes e a peste
Em 1359, Pedro Tomás foi enviado a Creta para lutar contra cismáticos que faziam numerosas perversões entre os católicos latinos. Tentou convencê-los a retornar ao seio da Igreja, mas nada conseguindo, excomungou os que recusavam a conversão. Fez desenterrar os ossos do iniciador do cisma e queimá-los publicamente.
Retornou a Chipre em 1361, no momento em que lá grassava mortífera epidemia de peste. Organizou então orações rogatórias e procissões em Nicósia e Famagusta, para fazer cessar a epidemia. Seu biógrafo relata que mesmo os “sarracenos, turcos e judeus, aterrorizados pelo perigo, seguiam com piedade o que dizia o Legado. O milagre não tardou a responder às suas preces: de 200 doentes encontrados agonizantes à sua chegada (em Famagusta), só um faleceu”.
Nova cruzada em defesa dos Lugares Santos
Em 1362 São Pedro Tomás concebeu a ideia de uma nova cruzada para livrar os Lugares Santos e restabelecer o Reino de Jerusalém. Associaram-se a ele Pedro I de Chipre e seu discípulo Felipe de Mézières. Depois de procurar durante três anos apoio financeiro, logístico e de pessoas, e obter o apoio do Papa, em setembro de 1365 os cruzados, acompanhados do santo, partiram com destino ao seu objetivo – Alexandria no Egito. A tomada dessa cidade foi rápida. Felipe de Mézières assim descreve Pedro Tomás no curso do combate: “Com o rosto transfigurado, o Legado pôs todo seu ardor em descer em terra sob as flechas inimigas, sem mesmo a proteção de um elmo. Os sarracenos lançaram ‘uma avalanche de flechas’, que não feriram nenhum cristão”.
De acordo com o censurável costume da época, infelizmente os vencedores saquearam e incendiaram parcialmente a cidade, cometendo abusos de toda ordem contra a população. Esse procedimento, que não podia ter aprovação do santo, por castigo de Deus fez com que a vitória fosse de curta duração. Com efeito, temendo que um poderoso reforço viesse em auxílio do inimigo, os cruzados reembarcaram para Chipre, apesar da opinião contrária de Pedro Tomás, para lá gozarem de seu butim. O santo retornou então a Avignon, para dar um relato ao Papa e pedir-lhe novos meios para reiniciar a fracassada cruzada.
O santo enfrentando sua última batalha
Por volta do Natal de 1365, o santo teve de enfrentar sua última batalha, desta vez contra a morte. Adoecendo gravemente, afirmou: “A vida e a morte se igualam a meus olhos: se eu for indispensável à cruzada, prefiro viver. Se não sou, a morte me convém; que seja feita a vontade de Deus”. Muito tentado pelo inimigo do gênero humano, recebeu os últimos sacramentos na noite de 5 para 6 de janeiro de 1366.
Há duas versões sobre a sua morte: pela primeira, teria enfrentado com grande austeridade o rigoroso inverno, sem nenhuma proteção a não ser o hábito religioso, e a grande friagem durante as celebrações de Natal provocou-lhe a febre que o levou à morte. A segunda versão, mais provável, é de que teria sido