Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 835 | página 22-23

| VARIEDADES |

A cozinha dos anjos

Nelson R. Fragelli

A Cozinha dos Anjos – Bartolomé Esteban Murillo (1646). Museu do Louvre, Paris.

O quadro acima é uma obra-prima de Murillo (1617-1682), na qual o grande pintor espanhol retrata o milagre ocorrido na cozinha de um dos mosteiros da Ordem de São Bruno.

Acabavam os caridosos monges de saciar a fome dos pobres, à custa de suas últimas provisões. Despensa vazia, faltava tudo no mosteiro, até mesmo o pão. Privação, pois, para todos. O Superior tinha ordenado dar de comer a quem pedisse, faltasse o que faltasse aos religiosos. Esta era a regra. Com paz de alma, inclinando-se à santa obediência, todos deram tudo, dispostos à míngua. O afluxo de indigentes vinha sendo grande, e não era a primeira vez que, após se retirarem os pobres com pão e toucinho no alforje ao ombro, restava aos religiosos apenas a penúria.

Consideremos as aves do céu...

À hora do almoço, tocou o sino no claustro na velha abadia. Nos bons dias, aquele timbre rotineiro prenunciava pão fresco e uma consistente sopa fumegando já à mesa. Naquele instante ele soava, mas privado da expectativa de deleites do paladar. A regra, entretanto, era positiva: tocado o sino, todos devem comparecer ao refeitório. No quotidiano de um monge, cada ação era marcada por regradas horas, e seguir a voz do bronze fazia parte da estrita observância. Formado o cortejo, todos se dirigiram às mesas, dispostas sob as altas abóbadas do austero salão onde os corpos se restauram das atividades religiosas. Na galeria de acesso ao refeitório, nenhum odor prenunciava o caldo quente: mesas nuas, fogões apagados, cestos vazios de pão. Conformados, os religiosos recordavam-se da palavra do Mestre: “Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros, e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?” (Mt 6, 25-26).

Um dos monges, de nome Tiago, mais tarde canonizado, seguiu o cortejo abismado em orações. Não pedia pão, pedia fidelidade em circunstância tão propícia ao exercício desinteressado do amor de Deus. Fervorosos pensamentos o transportaram em êxtase, e ele gravitava elevado do solo. Subtraiu-se assim, milagrosamente, às leis naturais que regem a humana condição neste mundo. Deus, que recompensa quem se esquece de si mesmo para se abismar em Seu amor, acorreu para dar-lhe o prêmio. À vista de todos, anjos desceram do Céu e começaram a cozinhar às pressas, enquanto Tiago rezava de mãos postas.

Dois anjos discutiam o cardápio e alguns dispunham os utensílios de cozinha: caldeirões, gamelas de cobre, jarros de faiança. Um deles empunhava uma tigela de argila para buscar água na fonte. Outro colocava os pratos. Um terceiro, pondo sal num caldeirão, fazia ferver a sopa, enquanto seu angélico auxiliar socava temperos num pequeno pilão. Coube a querubins escolher legumes num cesto, e Aquele que multiplicara pães e peixes no deserto Se mantinha o Mesmo. Sua bondade é eterna, e se rejubilaram os frades: vai sair o almoço. Segundo o historiador francês Alfred Nettement, de quem tomamos esta descrição, o Superior entrou com dois convidados, cavaleiros da Ordem de Calatrava. Sem o trabalho dos anjos, como poderia receber condignamente tão importantes convivas?

Retratando o milagre, Murillo externou a fé de seu tempo e pôs à consideração de todos esta realidade esquecida, se não denegada: os anjos estão sempre junto aos homens, iluminando e governando aqueles que reclamam seu socorro. Quase nunca visíveis, entretanto, com sua presença sobrenatural eles nos circundam. Com profusão de detalhes claro-obscuros, o quadro sugere a misteriosa — mas quão real — ajuda dos anjos àqueles a quem guardam.

A França sem restaurantes não é a França

Embora pintado por um espanhol, esse quadro está em Paris, no Museu do Louvre. Não por acaso. Ninguém entende tão bem como os franceses que a cozinha tem parte com os anjos. Uma reportagem do Paris Match, de 13 de maio passado, evoca a tela de Murillo. Seu título — “A França sem restaurantes não é a França” — exprime o melhor do artigo. É importante, sem dúvida, a análise da catástrofe financeira ocasionada pela quarentena, a pretexto da atual epidemia, e a cozinha é forçosamente ligada a aspectos financeiros. Brutalmente fechados por ordem do governo, sem prévia advertência, os chefs serão

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