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também coletivo. Os bons e os maus sofrem: os primeiros, para se tornarem mais perfeitos; os segundos, como castigo por suas faltas e convite à conversão.
Santo Agostinho explica o castigo coletivo
O grande Santo Agostinho, bispo de Hipona, Doutor e Padre da Igreja, viveu durante as invasões bárbaras que provocaram a queda do Império Romano do Ocidente. De fato, os vândalos estavam assaltando as muralhas da sua cidade quando ele morreu.
Durante esse período conturbado, os romanos pagãos culparam a Igreja pelo colapso do Império e da Civilização. Argumentavam eles que, se o Império não se tivesse tornado cristão, Júpiter e os outros deuses de Roma o teriam salvo da destruição. Acrescentavam ainda que o Deus dos cristãos não era nenhum deus, pois não os havia poupado dos bárbaros.
Santo Agostinho escreveu o livro “A Cidade de Deus” para defender a Igreja e fortalecer a fé nos corações. Nessa sua obra-prima ele explica o motivo dos castigos coletivos. Seu raciocínio pode ser resumido da seguinte forma:
1 – Como as nações como tais não passam para a vida eterna, elas são recompensadas ou castigadas nesta vida pelo bem ou pelo mal que praticam. Os bons e os maus sentem os efeitos da recompensa e do castigo.11
2 – Quanto aos bons, o castigo purifica neles o amor a Deus. Pode até levá-los das tribulações desta vida para a vida eternamente feliz do Céu. “Os bons têm ainda outra razão para sofrer os males temporais. É a mesma de Job: que o homem submeta o seu próprio espírito à prova, e comprove e conheça com que grau de piedade e com que desinteresse ama a Deus”.12
3 – Por outro lado, com frequência os bons são justamente castigados pelo egoísmo, falta de coragem e de zelo apostólico, que os impede de apontar para os maus o desacerto de seus caminhos: “Receiam pôr em perigo e perder a sua integridade e reputação, [...] se comprazem nas adulações e temem a opinião pública, os tormentos da carne ou da morte, isto é, por causa dos grilhões de certas paixões e não por causa do dever de caridade”.13
4 – Quanto aos maus, eles são castigados pela “divina Providência que costuma, com guerras, purificar e castigar os costumes corrompidos dos homens”.14
Este é também o ensinamento de Santo Tomás, que afirma: “Justiça e misericórdia aparecem no castigo dos justos neste mundo, uma vez que pelas aflições são limpos de falhas menores, e eles são mais elevados das afeições terrenas a Deus. Da mesma forma, São Gregório diz: ‘Os males que nos pressionam neste mundo nos forçam a ir a Deus’”.15
Nossa Senhora de Fátima: uma advertência profética e maternal
Em 1917, Maria Santíssima apareceu em Fátima para advertir que, se o mundo não se convertesse e não fizesse penitência, seria castigado: “Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. [...] Espalhará [a Rússia] seus erros pelo mundo [...]; os bons serão martirizados, [...] várias nações serão aniquiladas”.16
Independentemente de as causas da pandemia de coronavírus serem naturais ou provocadas pelo homem, não podemos excluir os sábios e insondáveis desígnios da Divina Providência. Pelo contrário, por todas as razões expostas acima, e de maneira particular pela mensagem de Nossa Senhora em Fátima, parece-nos que a prudência exige que consideremos com seriedade a possibilidade de que Deus esteja nos advertindo de nossas falhas e nos conclamando ao arrependimento.
Deus não quer a morte do pecador, mas a sua conversão.17 No entanto, se o mundo não atender ao chamado de conversão de Nossa Senhora, não ficaremos surpresos se tragédias ainda piores afligirem o mundo — a aniquilação de nações inteiras, por exemplo, como mencionado por Ela em Fátima.
Seja qual for o futuro que nos é reservado, devemos sempre lembrar que Nossa Senhora também predisse em Fátima a conversão definitiva da humanidade e sua vitória: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!”.
Que a série de catástrofes que caíram sobre o nosso País e o mundo nos ajude a levar a sério o chamado maternal de conversão feito por Nossa Senhora, pois existe esta promessa divina: “Sê fiel até a morte, e te darei a coroa da vida” (Apoc. 2, 10).
O vulcão Galeras ameaça com a sua erupção a cidade de Pasto, no sul da Colômbia. Foram feitas procissões pedindo a Deus que poupasse a cidade do castigo.
Notas:
* Este artigo encontra-se disponível em inglês no link: https://www.tfp.org/is-the-voice-of-god-resounding-in-the-present-pandemic/
1. Salvatore Cernuzio, “Delpini: Da Pagani Pensare a um Dio Che Manda Flagelli. A Milano Chiese Chiuse Mai‘”, La Stampa, 16 de março de 2020, https://www.lastampa.it/vatican-insider/it/2020/03/16/news/delpini-da-pagani-pensare-a -un-dio-che-manda-flagelli-a-milano-chiese-chiuse-mai-1.38600147 . (Nossa ênfase).
2. João Francisco Gomes, “‘Ignorância, Fanatismo ou Loucura.’ Cardeal António Marto Crítica Quem Diz Que Pandemia É Castigo de Deus”, Observador, 15 de abril de 2020, https://observador.pt/2020/04/15 / ignorancia-fanatismo-ou-loucura-cardeal-antonio-marto-critica-quem-diz-que-pandemia-e-castigo-de-deus /
3. Bernie Tafoya, “Cardinal Cupich Prepares For A First-Of-Its-Kind Easter Amid Coronavirus” WBBM780.radio.com, Apr. 9, 2020, https://wbbm780.radio.com/articles/cardinal-cupich-prepares-for-a-first-of-its-kind-easter.
4. Notícias do Vaticano, “O Papa celebra a paixão do Senhor, como o pregador papal reflete na pandemia de Covid-19”, Vatican News, 10 de abril de 2020, https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2020 -04 / papa-francis-paixão-do-senhor-cantalamessa-sermon-coronavirus.html.
5. As citações bíblicas são da Biblia Ave Maria.
6. Adaptação do Salmo 78: 3, 9–10, Tracto da Missa dos Santos Inocentes, Mártires, (dia da festa 28 de dezembro) antigo missal romano latino.
7. São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, q. 22, a. 2c.
8. Ibid., Q. 103, a. 5.
9. Ver Idem, Ibid., a. 6.
10. Assim, Santo Tomás diz: “Visto que Deus é a causa primeira e eficaz das coisas, as perfeições de todas as coisas devem preexistir em Deus de uma maneira mais eminente”. (I, q. 4 a. 2).
11. Ver A. Rascol, s.v. “Providence, S. Augustin”, em Vacant-Magenot-Amann, Dictionnaire de Théologie Catholique (Paris: Letouzey et Ané, 1936), vol. 13, col. 963.
12. Santo Agostinho, A Cidade de Deus, livro I, cap. IX. Tradução de J. Dias Pereira. 2.a Edição. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1996, p. 124.
13. Ibid.
14. Ibid., Cap. 1.
15. São Tomás, Summa Theologica, I, q. 21, a. 4.
16. Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Editora Vera Cruz Ltda., 35ª edição, São Paulo, 1993, pp. 46-47.
17. Terei eu prazer com a morte do malvado? – oráculo do Senhor Javé –. Não desejo eu, antes, que ele mude de proceder e viva?” Ezequiel 18:23.