Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 835 | página 40-41

| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

só cedeu pecaminosamente àquele blasfemo pedido, fundindo um bezerro de ouro (ídolo dos egípcios, que o adoravam com o nome de Apis), mas até ofereceu-lhe sacrifícios.

Isso irritou o Senhor Deus dos Exércitos, que disse a Moisés: “Vejo que este povo é de cerviz dura. Deixa-me, a fim de que o meu furor se acenda contra eles, e que eu os extermine, e eu te farei chefe de uma grande nação”. Moisés intercedeu pelo seu povo, e “o Senhor se aplacou, e não fez ao seu povo o mal que tinha dito” (Ex 32, 10 e ss.).

Descendo do Monte, Moisés “muito irado, atirou das suas mãos as tábuas da lei, e quebrou-as ao pé do monte” (Id. 32, 19). Aarão, o principal culpado, deu uma desculpa esfarrapada para justificar seu crime, e sem dúvida teria perecido com os outros hebreus, se Moisés não tivesse intercedido por ele para que não incorresse na ira divina, manifestada no que se seguiu: Moisés queimou e triturou o ídolo, reduziu-o a pó e misturou-o à água, da qual fez todos os judeus beberem. Juntou depois os filhos de Levi, que sob a sua direção mataram cerca de três mil dos prevaricadores, enquanto grande número desses era consumido pelas chamas que saíam do altar. Outros, em número maior ainda, foram atingidos pelo fogo do céu, que teria exterminado a todos se Aarão, de turíbulo na mão, não se tivesse interposto entre os mortos e os vivos, aplacando a cólera de Deus.

Sumo Pontífice de Israel

O ramo da tribo de Levi, isto é, de Aarão, estava coberto de flores. O irmão de Moisés foi então proclamado Sumo Pontífice, dignidade que o acompanhou até a morte.
Cornelis Huyberts, 1720. Rijksmuseum, Amsterdã (Países Baixos).

Por ordem do implacável Deus do Antigo Testamento, colocaram-se no tabernáculo 12 ramos das 12 tribos, para que fossem escolhidos os que se dedicariam ao serviço do altar. No dia seguinte, o ramo da tribo de Levi, isto é, de Aarão, estava coberto de flores. O irmão de Moisés foi então proclamado Sumo Pontífice uma segunda vez, dignidade que o acompanhou até a morte, tornando-se hereditária em sua família. Pois, apesar de seu crime, Deus não alterara a escolha que fizera de Aarão para ser o Sumo Pontífice de Israel, como está dito em Hebreus, 5, 4.

Por isso “exaltou também a Aarão, semelhante a Si, da tribo de Levi. Estabeleceu com ele um pacto eterno, deu-lhe o sacerdócio de seu povo, e encheu-o de felicidade e de glória. [...] Moisés consagrou-lhe as mãos e o ungiu com o óleo santo. Foi-lhe, pois, concedido por aliança eterna, a ele e à sua descendência, enquanto durar o céu: servir ao Senhor e exercer o sacerdócio, e abençoar o povo em seu nome” (Ecl. 45, 7-8; 18-19). Não podia haver maior glória. Aarão consagrou também seus filhos Nadab, Abiu, Eleazar e Itamar ao serviço divino.

Zelo pelas funções sagradas

Aconteceu então que, no próprio dia da consagração de Aarão, seus filhos Nadab e Abiu, como sacerdotes, “tendo tomado os turíbulos, puseram neles fogo e incenso, oferecendo diante do Senhor um fogo estranho”. Então o Deus implacável do Antigo Testamento, para dar um espantoso exemplo de como deveriam ser realizadas as funções sagradas, fez com que “um fogo vindo do Senhor os devorasse, e morreram diante do Senhor”. Mas não parou aí. Na terrível lei antiga, não foi permitido ao pai e aos irmãos dos falecidos chorarem por eles. Alertou-os Moisés: “Não descubrais a cabeça, nem rasgueis os vossos vestidos, não suceda morrerdes vós e levantar-se a ira do Senhor contra seu povo” (Lv 10, 1 a 6).

Aarão e Maria se queixam de Moisés – ‘Octateuch’, Codex Vaticanus, séc. XII. Biblioteca Apostólica, Vaticano.

Aarão voltou a incidir na ira de Deus: “Ora, Maria e Aarão falaram contra Moisés por causa de sua mulher etíope, e disseram: ‘Porventura o Senhor falou só por Moisés? Não nos falou igualmente a nós?’”. O Senhor então, “como Moisés era o mais manso dos homens que havia na terra”, cobriu Maria de lepra. Moisés intercedeu por ela, e o Altíssimo lhe disse que a curaria somente depois de sete dias, pois o que ela fizera contra Moisés foi como “se meu pai lhe tivesse cuspido no rosto”. Maria foi posta fora do acampamento, até ser chamada de novo (Nm 12, 1 e ss.). Pelo fato de só Maria ter sido punida, presume-se que Aarão tenha se limitado a aprovar a observação de sua irmã.

Sobre Aarão, os Livros Santos relatam ainda muitas outras coisas que poderiam ser acrescentadas. Quando se aproximava o fim de sua carreira, Deus disse a Moisés que o conduzisse à montanha de Hor. E à vista de todos, por ordem do Senhor, despojou Aarão de suas vestes pontificais e com elas vestiu Eleazar, que seria o sucessor. Aarão não teve a felicidade de entrar na Terra Prometida, por ter duvidado do poder de Deus quando este mandou Moisés bater com seu cajado no rochedo de Cades para obter água. Os dois irmãos ficaram inseguros, por isso Moisés bateu duas vezes ao invés de uma: “O Senhor disse a Moisés e a Aarão: Porque vós não me crestes para me santificardes diante dos filhos de Israel, não introduzireis estes povos na terra que eu lhes darei” (Nm 20, 8-12). O Salmo 105, 32-33, afirma a esse respeito: “Irritaram o Senhor nas águas da contradição, e Moisés foi castigado por causa deles, porque perturbaram o seu espírito, e foi duvidoso nas suas palavras”.

A Escritura Santa não dá detalhes da morte do Pontífice, limitando-se a dizer: “Morto Aarão no cimo do monte, desceu (Moisés) com Eleazar. E toda a multidão, vendo que Aarão tinha morrido, chorou por ele com todas as suas famílias durante 30 dias” (Nm 20, 22 e ss.). Aarão foi sepultado no próprio monte Hor, e não se sabe onde está seu túmulo, da mesma forma como ocorreu com Moisés.

De seu casamento com Elisabete, irmã de Nahason, esse Sumo Pontífice teve quatro filhos. Os dois primeiros, Nadab e Abiu, morreram sem deixar posteridade. Mas os descendentes dos dois últimos, Eleazar e Itamar, tornaram-se muito numerosos. O mais famoso deles foi sem dúvida São João Batista, o Precursor, como diz São Lucas: “Nos tempos de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias; sua mulher, descendente de Aarão, chamava-se Isabel” (1, 5), sendo que nenhum dos descendentes desse Sumo Pontífice honrou tanto seu sangue quanto o Precursor, proclamado pelo Salvador do Mundo como “o maior dos nascidos de mulher” (Mt 11, 11).

Dizem os exegetas que Aarão, enquanto Sumo Pontífice da Antiga Lei, é naturalmente a prefigura de Nosso Senhor Jesus Cristo, primeiro e Soberano Sacerdote da Nova Lei. A esse respeito, está escrito na epístola aos Hebreus: “Ninguém se arrogue esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão. Por isso mesmo Cristo não se glorificou a Si mesmo para se fazer pontífice, mas (foi glorificado por) Aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho, hoje Eu te gerei’” (Hb 5, 4-5).

“Em segundo lugar, temos a eficácia e a duração do sacerdócio, tanto de um quanto do outro. O sacerdócio de Aarão, desse ponto de vista, é inferior ao de Jesus Cristo. Se, contudo, o primeiro tivesse sido capaz de levar os homens à perfeição e comunicar-lhes a justiça que agrada a Deus, o Outro teria sido inútil. Daí a ineficácia [de Aarão] chamar por uma nova, e o sacerdócio de Jesus tomar para sempre o lugar do de Aarão” (cfr. Hb 7, 11-12). 

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