| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)
e Salomé, mulher de Zebedeu; Maria Madalena, toda submergida na sua dor, que se tinha lançado aos pés da cruz, e abraçada com ela derramava abundantes lágrimas. Lançou Jesus o seu olhar sobre aqueles privilegiados do seu coração, e os seus olhos encontraram-se com os de sua Mãe, que não se desviavam d’Ele um instante. Viu-lhe o martírio interior, e como a espada da compaixão, profetizada pelo velho Simeão no Templo, lhe atravessava a alma. E julgou-a digna de cooperar no ato da Redenção, como tinha cooperado no ato da Encarnação; e não contente em se dar a si mesmo, levou a bondade ao ponto de nos dar a sua Mãe.
João estava chorando aos pés da Cruz. Chorava o seu bom Mestre, pois, embora tivesse ainda vivos os seus pais, julgava-se órfão sem Jesus. Jesus viu, comovido, as lágrimas do apóstolo misturadas com as de Maria. Dirigindo-se, pois, à Virgem Maria, disse-lhe: “Mulher, eis aí o teu filho”. Aquele Filho representava a humanidade inteira, resgatada pelo sangue divino, e Jesus a entregava assim à nova Eva, encarregando-a de transmitir a vida a todos aqueles a quem a primeira dera a morte. Desde aquele momento sentiu Maria que seu coração se dilatava, e se enchia do mais misericordioso amor para com todos os filhos dos homens.
Depois, dirigindo-se Jesus a João, e mostrando-lhe com a vista a Virgem desfeita em pranto, disse: “Meu filho, eis aí a tua Mãe!”. Desde aquele dia, João amou-a e serviu-a como à sua própria mãe (Jo 19, 25-27). E desde aquele dia, também, todos a quem Jesus iluminou com a sua graça compreenderam que, para ser verdadeiramente membros de Jesus crucificado, é preciso nascer daquela Mãe espiritual que o Salvador nos deu no Calvário.
Crucifixão – Philippe de Champaigne (c. 1650). Musée du Louvre, Paris.
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Depois daquele supremo dom do seu amor, pareceu Jesus isolar-se da Terra. Estabeleceu-se em torno d’Ele um silêncio que durou cerca de três horas. Os guardas assombrados iam e vinham no meio das trevas, sem dizer palavra. Imóvel diante da cruz, parecia que o centurião queria penetrar até o mais íntimo da alma daquele estranho supliciado. E Jesus, com os olhos no Céu, orava a seu Pai, oferecendo por todos os homens os seus indizíveis sofrimentos, as ignomínias que sofrera, o sangue que brotava das suas feridas e a morte que O ia ferir. Num dado momento o seu rosto tornou-se sombrio, e uma horrível angústia oprimiu-Lhe o coração; viu-se só, carregado de crimes, amaldiçoado pelos homens, morrendo sobre um patíbulo entre dois criminosos. Repelido da Terra, voltou a sua alma para o Céu; porém, mais vivamente ainda que em Getsemani, experimentou o sentimento pavoroso do mais completo desamparo. Era a justiça de Deus que passava sobre a vítima de expiação, sem que um anjo do Céu viesse consolá-la no momento supremo. Pela hora nona, do seu Coração esmagado e agonizante escapou-se este grito de angústia: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. São as primeiras palavras dum salmo no qual David, por antecipação, conta as dores e a agonia do Homem-Deus (Sl 21, 2; Mt 27, 45-46).
Crucifixão – Francisco de Zurbarán (1598–1664). Art Institute of Chicago (EUA).
“Tudo está consumado”
Contudo, começavam as trevas a dissipar-se. Alguns deicidas, que tinham permanecido no Calvário, atreveram-se a zombar outra vez da sua vítima já moribunda: “Ele chama por Elias. Vejamos se Elias virá socorrê-lo” (Mt 27, 47-49). Jesus experimentava então aquela sede ardente, que é o tormento mais horroroso dos crucificados. Tinha as entranhas mirradas e a língua pegada ao céu da boca. No meio do silêncio, de novo se ouviu a sua voz. Exalando um profundo suspiro, disse: “Tenho sede!”. Havia ao pé da cruz um vaso cheio de vinagre. Um dos soldados molhou nele uma esponja, e segurando-a na extremidade duma haste de hissopo, aproximou-a dos lábios de Jesus. E Jesus sorveu algumas gotas, para cumprir a profecia de David: “Para me matar a sede, deram-me a beber vinagre” (Sl 22,16). Tinha bebido até o fim o cálice das dores, cumprido todas as vontades do Pai celeste, realizado as profecias e expiado os pecados do gênero humano. Disse então Jesus: “Tudo está consumado” (Jo 19, 28-30).
Ao pronunciar estas palavras solenes, viu-se como o corpo se Lhe tornava ainda mais lívido, a cabeça coroada de espinhos Lhe caía em peso sobre o peito, os lábios se descoravam e os olhos se apagavam. Ia já exalar o último suspiro, quando de repente, erguendo a cabeça, deu um brado com tal força, que deixou a todos gelados de espanto. Não era o gemido pungente dum homem moribundo, era o brado triunfal de Deus que diz à Terra: Eu morro, porque quero. Os seus lábios benditos abriram-se então pela última vez: “Meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). E tendo dito estas palavras, inclinou a cabeça e expirou.
Notas:
1. Havia outrora nessa paragem uma capela dedicada a Nossa Senhora do Espasmo. Ainda hoje lá se veem as suas ruínas.
2. Por ser de Cirene, cidade do norte da África, fundada aproximadamente em 630 a.C.
3. A tradição registra que aquela mulher intrépida se chamava Seráfia. E o seu nome de Verônica seria uma alusão à Santa Face: Vera icon, verdadeira imagem. Quando Saulo perseguia a Igreja nascente, Santa Verônica deixou a Palestina, levando consigo o precioso tesouro. É uma das maiores relíquias de que se faz exposição, a cada ano, em São Pedro de Roma.
4. A tradição referente ao crânio de Adão, muito anterior a Jesus Cristo, encontra-se nos escritos de Tertuliano e Orígenes, bem como em muitos dos textos de São Cipriano, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. São Jerônimo se refere a ela numa carta para Marcela. Santo Epifânio afirma que nos foi transmitida não só pela voz das gerações, mas pelos monumentos da antiguidade. Cornélio a Lapide chama-lhe tradição comum na Igreja. De resto, encontra-se viva em Jerusalém na basílica do Santo Sepulcro. Por baixo da capela da Plantação da Cruz acha-se a capela do Túmulo de Adão. O sangue de Cristo, ao infiltrar-se pela fenda da rocha, pôde misturar-se com o pó do primeiro homem. É para lembrar esta comovente tradição que se coloca nos crucifixos uma caveira aos pés de Jesus: é o crânio de Adão sob a cruz, tal como no Gólgota.