Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 831 | página 34-35

| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

pudessem saborear a amarga ironia, a inscrição estava em três línguas: hebraico, grego e latim. À vista daquela tabuleta ofensiva, e exaltados pela cólera, os chefes do povo despacharam um emissário a Pilatos, fazendo-lhe ver o ultraje que fazia à nação; e rogavam que houvesse por bem modificar a inscrição. Pilatos, porém, respondeu-lhes secamente: “O que escrevi, escrito está” (Jo 19, 19-22).

Naquela ocasião, Pilatos referendava a declaração de Caifás (que devia morrer um homem por todo o povo – Jo 18,14), proclamando nas línguas mais conhecidas no mundo de então que aquele Homem, aquele Redentor, aquele Messias, aquele Rei que há de dominar sobre todos os povos — judeus, gregos ou romanos — é o Crucificado do Gólgota.

Crucifixão – Lucas Cranach, o Velho (1472–1553). Museu Nacional de Arte da Dinamarca.

“Meu Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem!”

A má vontade de Pilatos exasperou os judeus. E como não podiam tirar a tabuleta que dava a Jesus o título de Rei dos judeus, puseram-se a zombar e blasfemar daquela realeza. Nisto os sacerdotes e escribas davam o exemplo, dizendo: “Salvou aos outros,salve-se agora a si mesmo; se é o Messias e Rei de Israel, desça da cruz e creremos então n’Ele. Apelava para Deus, e proclamava-se Filho de Deus; venha agora Deus a libertá-lo!”.

Animado com as blasfêmias dos seus chefes, o povo as repetia, acompanhando-as de insultos grosseiros. Passando e repassando diante da cruz em magotes, abanavam furiosamente a cabeça e gritavam: “Anda! Tu que destróis o Templo e em três dias o reedificas, desce da cruz, se podes, e põe-Te a salvo. Se és Filho de Deus, desce do teu patíbulo”.

Os próprios soldados, que habitualmente executavam o seu ofício em silêncio, terminaram por tomar parte naquele transbordamento de injúrias. Aproximavam-se do Crucificado e ofereciam-lhe vinagre como se fosse refresco, dizendo-lhe: “Se tu és o Rei dos judeus, salva-te então!” (Mt 27, 39-44; Mc 15, 29-32).

Não era descendo da cruz que o Filho de Deus devia afirmar a sua realeza, mas sim morrendo nela para cumprir a sua missão de Redentor e Salvador. Por isso, ao ouvir aquelas sacrílegas provocações, Jesus experimentou apenas um mais vivo sentimento de amor. Os seus olhos, arrasados de lágrimas, detiveram-se por um momento naqueles judeus em delírio; e pela primeira vez, desde a chegada ao Calvário, saiu-lhe dos lábios uma palavra: “Meu Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34). Não só pedia misericórdia para aqueles criminosos, mas escusava-lhes os crimes e blasfêmias, atribuindo-os à ignorância. De fato, eles não conheciam a divindade de Jesus, e isto até certo ponto tornava menos criminosa aquela horda de deicidas.

Atitudes do mau e do bom ladrão

Excitado pelas irrisões e insultos que toda aquela turba lançava contra Jesus, um dos ladrões, crucificado junto com ele, voltou a cabeça para o lado e proferiu esta blasfêmia: “Eles têm razão no que dizem; se és Tu realmente o Messias, salva-Te a Ti e salva-nos a nós”. Mas o companheiro, calmo e resignado, repreendeu aquele procedimento. “Nem tu sequer temes a Deus? A que fim tais imprecações contra um homem condenado, como tu? E mais, nós somos justamente castigados pelos crimes que fizemos; este, porém, que mal fez?”.

Ao pronunciar estas palavras, sentiu esse ladrão operar-se na sua alma uma completa transformação. Sob a ação duma luz interior, compreendeu que Jesus, o Filho de Deus, estava morrendo pelos pecados dos homens. Penetrou-lhe no coração o arrependimento, mas um arrependimento cheio de amor, que lhe trouxe lágrimas aos olhos. Disse então a Jesus: “Senhor, lembrai-vos de mim, quando entrardes no vosso Reino”. E logo ouviu esta resposta de infinita misericórdia: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 39-43).

A Crucifixão, com santos e o doador (detalhe) – Joos van Cleve (1485-1541). Metropolitan Museum of Art, Nova York.

A natureza inteira cobriu-se com um véu de luto

Enquanto os príncipes dos sacerdotes, os doutores, os soldados e a populaça zombavam da realeza de Jesus e se fartavam de O ver padecer, subitamente veio um espetáculo novo lançar o assombro no meio daqueles deicidas. À hora do meio-dia, quando o sol brilhava com todo o seu fulgor, o céu, até então puro, tornou-se sombrio e ameaçador. As nuvens, cada vez mais espessas, cobriram o disco do sol, e pouco a pouco difundiram-se as trevas pelo Gólgota, por Jerusalém e por toda a Terra. Era a noite misteriosa profetizada por Amós (8, 9): “Naquele dia extinguir-se-á o sol em pleno meio-dia, e no meio da mais viva luz as trevas invadirão o mundo”. Deste modo respondia Deus aos insolentes reptos dos deicidas: o sol ocultava-se; e a natureza inteira cobriu-se com um véu de luto, para chorar a morte do Criador (Lc 23, 44).

Naquele mesmo instante emudeceram os blasfemadores, e sobre o Calvário começou a reinar um silêncio de morte. A turba desvairada fugiu; os próprios chefes do povo, antevendo a justiça divina, desapareceram uns após outros. E só ficaram no monte os soldados romanos incumbidos de guardar os supliciados; o centurião que os comandava; alguns grupos isolados que deploravam no íntimo da alma o crime cometido pela nação; e as santas mulheres que rodeavam a Virgem Maria. Até aquele momento os soldados as tinham contido à distância, mas então elas se aproximaram da cruz. Ao clarão sanguíneo do céu meio velado, podia-se ver o corpo lívido de Jesus e o seu rosto contraído pelo sofrimento. Os seus divinos olhos permaneciam fixos no Céu; e os lábios entreabertos murmuravam uma prece.

Cooperação de Nossa Senhora no ato da Redenção

Junto de Maria, Mãe de Jesus, estavam João, o apóstolo amado; Maria de Cléofas

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