| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)
seus momentos de prostração, lembrava-se de que, ao expulsá-lo do paraíso, Deus lhe prometera que um dos seus descendentes o salvaria, e também salvaria a sua descendência. Por isso, de século em século, não se cansava ele de repetir aos seus filhos que esperassem sempre o Redentor futuro. Quando viu erguer-se diante de si o espectro da morte, adorou a justiça de Deus e adormeceu cheio de calma, saudando pela última vez o Salvador que havia de livrar os seus filhos da tirania de Satanás e abrir-lhes, bem como a ele, as portas do Céu fechadas desde o seu pecado.
A Vítima inocente não desejou lenitivo às suas dores
Os filhos de Adão sepultaram o seu cadáver nos flancos do monte, e no rochedo que o encimava abriram uma cavidade, onde colocaram sua veneranda cabeça. E chamaram aquele rochedo Gólgota, designando o lugar onde repousa o crânio do primeiro homem. Precisamente para ali, para cima daquele rochedo, os carrascos arrastaram Jesus, o novo Adão, para misturar o sangue divino da expiação às cinzas do velho pecador, que infectara na sua origem todas as gerações humanas.4 Uma árvore — a árvore do orgulho e do prazer — perdera o mundo. Com outra árvore às costas — a árvore da ignomínia e do martírio — chegava Jesus ao Calvário.
O Cordeiro de Deus, encarregado de expiar os pecados de toda a sua raça, será tratado como Ele queria ser tratado: sem piedade. Quando um condenado chegava ao Gólgota, era costume apresentar-lhe uma bebida alcoólica para lhe mitigar a sede e reanimar as forças. Preparavam aquela bebida umas caridosas mulheres, e os carrascos passavam-na aos criminosos antes da execução. Entregaram, pois, aos soldados uma poção composta de vinho com mirra. Mas o condenado mal a provou e recusou tomá-la, não obstante a sede ardente que o devorava. É que a inocente Vítima não queria nenhum lenitivo às suas dores.
O Salvador coberto por púrpura de seu precioso Sangue
A Crucifixão – Philippe de Champaigne (1602–1674). Musée National de Port-Royal des Champs, França.
Pela hora sexta começou a sangrenta execução. Quatro soldados despojaram Jesus de suas vestes. Sua túnica estava colada às feridas do corpo, e a arrancaram com tal violência, que todas as chagas se reabriram; e apareceu o Salvador coberto duma púrpura verdadeiramente real: púrpura do seu precioso Sangue. Logo os soldados estenderam-no sobre a cruz para nela O pregar. Houve então um momento de grande silêncio, pois cada um, com os olhos fixos na vítima, queria ouvir os seus gritos e deleitar-se com as suas dores. Estenderam um dos seus braços sobre um braço da cruz, e enquanto os carrascos seguravam o corpo, um deles aproximou da sua mão um cravo enorme; e dando grandes pancadas com um pesado martelo, o introduziu na palma da mão e na madeira. Jorrou abundante sangue, os nervos contraíram-se; e Jesus, com lágrimas nos olhos, exalou um suspiro. Logo um segundo cravo atravessou a outra mão sobre o outro braço da cruz. Uma vez presos os braços, tiveram os algozes de empregar todas as suas forças para estender no patíbulo o corpo, deslocando-o horrivelmente; depois soaram de novo as marteladas, e desta vez foram pregados os dois pés. As marteladas arrancavam de Jesus suspiros; de Maria e das santas mulheres, soluços; da populaça, exclamações ferozes.
Crucifixão (detalhe) – Giotto di Bondone, (1304). Cappella degli Scrovegni all’Arena, Pádua (Itália).
Algozes tiraram a sorte para possuir a túnica de Jesus
Terminada a crucifixão, os algozes ergueram o patíbulo. Enquanto uns sustentavam os braços da cruz, outros aproximaram de uma cavidade aberta na rocha o pé da cruz, e o deixaram cair bruscamente nessa cavidade, de tal modo que sacudiu o corpo e todos os membros do Crucificado. Os ossos se entrechocaram, as chagas das mãos e dos pés rasgaram-se mais, e jorrou sangue de todo o corpo. A cabeça inclinou-se, os lábios entreabertos deixavam ver a língua ressequida, os olhos moribundos cobriram-se de um véu. Quando assim Ele se tornou visível, levantou-se de todos os lados um clamor selvagem. Era o povo a amaldiçoar o Crucificado, conforme o que está escrito: “Maldito seja o criminoso suspenso na cruz”. Os dois ladrões, igualmente crucificados, foram postos à direita e à esquerda do Salvador, a fim de se cumprir outra profecia: “Foi contado entre os malfeitores” (Isaías 53, 12).
Enquanto a multidão insultava os supliciados, os quatro algozes, cansados do seu trabalho, sentaram-se ao pé da cruz central para dividirem entre si as vestes do Salvador; pois, conforme a lei, elas lhes cabiam em posse. Dividiram tudo em quatro partes, para que tivesse cada um a sua. Mas, como a túnica era sem costura (de um só tecido, de alto a baixo), resolveram todos deixá-la intacta e lançar a sorte, para decidir a qual deles caberia. Não sabiam que, fazendo-o desse modo, executavam ponto por ponto as palavras que um profeta põe na boca do Messias: “Dividiram entre si os meus vestidos e tiraram à sorte a minha túnica” (Sl 21,19; Jo 19, 23-24). Versados como eram nas Escrituras, e vendo tudo aquilo, os chefes do Sinédrio devem ter-se recordado dos oráculos divinos. Mas quaisquer outros sentimentos ou ideias eram neles abafados pelo prazer e pelo ódio.
Jesus Nazareno, Rei dos Judeus
Um incidente singular foi-lhes perturbar aquela criminosa alegria. Os soldados vieram colocar no alto da cruz uma inscrição determinada por Pilatos: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. Estas quatro palavras continham uma injúria pungente aos fariseus. Para se vingar daquele povo que o levara a condenar um inocente, o governador mandara fixar publicamente que aquele criminoso, julgado pelos judeus como merecedor do suplício dos escravos, nem por isso deixava de ser o Rei deles. Além disso, para que todos os estrangeiros que enchiam Jerusalém