Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 831 | página 30-31

| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

passos por aquela rua muito escarpada, quando uma palidez mortal se difundiu pelo seu semblante e se dobraram seus joelhos, tornando impossível arrastar a cruz apesar dos seus esforços. Viram os fariseus que Ele ia sucumbir, privando-os do prazer de contemplar sua agonia na cruz, e pediram ao centurião romano que requisitasse um homem para ajudar o condenado a levar a sua carga. Por ordem do oficial, detiveram um hortelão que voltava dos campos, e que se chamava Simão, o Cireneu,2 e o obrigaram a levar a cruz com Jesus. Não opôs Simão resistência, pois sabia que a recusa àquele trabalho significava expor-se a morrer de pancadas; mas sobretudo não se opôs porque, à vista daquele homem alquebrado e desfeito, cujo olhar moribundo parecia implorar-lhe a assistência, excitou-se no seu coração uma sincera compaixão. Soergueu pelo meio o poste esmagador, de tal modo que pesasse o menos possível sobre as costas do Salvador. E não esqueceu Jesus aquele ato de caridade, pois fez do Cireneu um discípulo fervoroso; e dos seus dois filhos, Alexandre e Rufo, apóstolos da verdadeira fé.

Véu de Verônica, retratando a dor do Crucificado

Santa Verônica – Guido Reni (1630). Museu Estatal Pushkin de Belas Artes, Moscou.

Tinham andado uns 200 passos por aquela rua espaçosa, bordeada de grandes e formosas casas, cujos habitantes olhavam com indiferença ou desprezo para os criminosos conduzidos ao suplício. De repente uma mulher de aspecto cheio de dignidade saiu precipitadamente de uma das casas, situada à esquerda da rua. Sem se importar com os soldados que lhe queriam tolher a passagem, aproximou-se do divino Mestre e contemplou um instante aquele rosto desfigurado, coberto de pó, de salivas e de feridas a escorrer sangue. Tomou então o véu que cobria sua fronte, e enxugou com ele a Face da Santa Vítima. Agradeceu-lhe Jesus com um olhar, e continuou o seu caminho. Mas qual não foi o assombro daquela mulher quando, tendo retornado à sua casa, viu sobre o véu a impressão da Santa Face do Salvador, aquela face triste e lívida, verdadeiro retrato da dor. Em memória deste fato, os discípulos de Jesus imortalizaram, sob o nome de Verônica,3 aquela heroína da caridade.

Jesus caiu outras vezes sob o peso da cruz

Não faltavam mais que uns 100 passos para chegar à porta judiciária, assim chamada porque passavam por ela os condenados à pena capital quando se dirigiam ao Gólgota. Por aquele caminho pedregoso, tornava-se difícil a subida. Apesar dos esforços do Cireneu para O ajudar, Jesus caiu outra vez sob o peso da cruz. Levantou-se com grande esforço e aproximou-se da porta. Ali, sobre uma coluna de pedra chamada coluna da infâmia, estava afixado o texto da condenação. E o Salvador, ao passar, pôde ler que ia à morte por ter revolucionado o povo contra César e usurpado o título de Messias. Não deixaram os fariseus de Lhe apontar a odiosa tabuleta, testemunho das suas próprias acusações.

Depois de ter passado a porta, encontrou-se Jesus ao pé do Gólgota. Algumas mulheres corajosas, apesar da proibição de chorar à passagem de um condenado, não contiveram gritos e lamentos ao vê-lo. Algumas tinham os filhos nos braços, e aqueles filhos choravam com as suas mães. Movido à compaixão, ao pensar nas calamidades que se precipitariam sobre a ingrata Jerusalém, lamentou Jesus aquelas mulheres desoladas: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, mas chorai antes por vós e pelos vossos filhos. Dias virão em que se há-de dizer: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram! E então clamarão aos montes: Caí sobre nós! E às colinas: Esmagai-nos! Pois se deste modo é tratada uma madeira verde, que sucederá à seca? Se assim é tratado o inocente, que será do pecador?” (Lc 23, 28-31).

Seis dias antes, do alto do Monte das Oliveiras, vertera Jesus lágrimas sobre Jerusalém e profetizara a sua ruína; e agora anunciava solenemente o seu castigo. Os chefes do povo, ao ouvir aquela profecia, deveriam ter tremido de assombro. Porém, cegos e endurecidos, irritaram-se com as ameaças que aquele condenado proferia contra a Cidade Santa. E os carrascos, por eles instigados, redobraram os golpes com que O feriam; de tal modo que, tratado como um jumentinho de carga exausto, antes de chegar ao cimo da colina caiu pela terceira vez nas pedras do caminho. Levantaram-no quase sem vida, e à força de O empurrar, arrastar e puxar em todos os sentidos, chegou enfim ao lugar do suplício.

Naquele momento a multidão, que afluía de toda a parte, apertava-se à volta do pequeno monte para assistir aos derradeiros padecimentos do condenado e aplaudir a sua morte. Vai soar a sexta hora do dia, o momento é solene como nenhum outro. Chega ao seu desenlace a grande tragédia do Homem-Deus, à qual assistem os anjos, os homens e os demônios.

Jesus chegando ao alto do Calvário

O planalto rochoso onde devia realizar-se a crucifixão eleva-se a 200 passos da porta judiciária. Chama-se Gólgota em hebraico, significando o mesmo que Calvário ou lugar do crânio. Foi-lhe dado este nome, segundo as tradições, para perpetuar uma grande recordação. Milhares de anos antes de Jesus, expirara sobre aquele monte solitário um homem oprimido pelo peso dos anos e do sofrimento: Adão, pai da raça humana. Exilado do paraíso, vivera nove séculos na penitência e nas lágrimas. Teve de comer o pão com o suor do seu rosto, sofrer as torturas da doença, apagar à custa de austeridades o fogo das paixões que lhe abrasavam a alma, chorar pelos filhos criminosos que se digladiavam em lutas fratricidas, e ouvir ressoar ao seu ouvido a justa palavra de Deus: “Adão, morrerás, porque pecaste!”.

Contudo, nunca o desespero chegou a perturbar a alma do pobre exilado. Nos

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