Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 800 | página 36-37

(continuação)

dos sinos. Trazidos solenemente da fundição em carros de boi enfeitados, havia grande festa à sua chegada. Todo o povo os circundava dias a fio, enquanto o pároco, se não o bispo, se preparava para a cerimônia. Embora os sinos já tivessem sido objeto de dois exorcismos na fundição, outros ainda eram oficiados no dia de sua bênção. Rezavam-se orações, treze salmos, lia-se o Evangelho de São Lucas, ao mesmo tempo em que se lançavam sal, água benta, óleos santos, incenso, mirra, e algodões e sanguíneos enxugavam as unções. Terminada a bênção, os sinos — cujo som o povo estava ávido por ouvir, pois tinha o dom de tocar os corações e mover as vontades — eram elevados ao campanário.

Sonoridade

Os sinos marcavam os momentos mais importantes da vida de todos: nascimentos, casamentos, festas litúrgicas e nacionais, funerais, catástrofes e guerras. Antes de tudo, seu som exorcizava os demônios dos ares e convidava os anjos a se juntarem aos fiéis; movia o coração das crianças para que assistissem às aulas de catecismo; tocava as almas em pecado, convidando-as ao arrependimento; aumentava a devoção dos adultos; dissipava ventos, tempestades e raios, espantava insetos daninhos às plantações. O timbre do bronze, bento pelo poder da Santa Igreja, no alto do campanário, conforta, acalma os ânimos, liberta das ansiedades, traz segurança aos que o ouvem, dá saudades de Deus. Certos sinos “eram bons para o granizo” que em certas estações são devastadores de casas e plantações. Outros, pelo contrário, atraíam chuvas nas épocas de estio. Em 1956, na cidade de Gers, na Gasconha, das 337 paróquias existentes, 143 ainda tocavam sinos à vista de tempestades e granizo. Aos poucos, sob a pressão do laicismo militante, os párocos abandonaram esse costume. Ia assim se reduzindo a antiga ordem cristã, na qual refletia o sobrenatural, e se fixava aos poucos o país no naturalismo. Em 1878, em Largentières, o sineiro se recusa a tocar os sinos, temendo os raios. Dois mendigos tomam o seu lugar, tocam-nos valentemente e a tempestade se desvia. Nas paróquias vizinhas, onde não se ouviram os carrilhões, casas foram atingidas e a colheita perdida.

Bênção dos sinos

No Ritual Romano de Bordeaux (1620) consta a oração da bênção dos sinos. “Fazei, Senhor, que este vaso preparado por vossa Igreja seja santificado pelo Espírito Santo, de tal modo que sua sonoridade convide os fiéis ao combate pelo Céu. Quando sua melodia ressoar no ouvido do povo, que sejam aumentadas nele a Fé e a devoção, que sejam reprimidas para longe todas as ciladas do Inimigo, o ruído do granizo, os turbilhões das borrascas, a impetuosidade das tempestades. Que os raios hostis sejam apascentados. Que o sopro do vento se torne salubre e suspensa sua violência. Que a força de vossa Destra aniquile as Potestades do ar e que estas, ao bimbalhar deste sino, sejam tomadas de terror e fujam diante do sinal da Cruz de vosso Filho traçada sobre ele. Esta Cruz diante da qual dobrará todo joelho no Céu, na Terra e no Inferno.”

Esses ritos e bênçãos teciam os dias do ano, protegiam, davam ânimo. Faziam parte do estilo de vida de então. Estilo que “nasceu de harmonias insondáveis, agia no subconsciente, despertava a imaginação e extasiava [...] não provinha de disposições oficiais ou legais, mas era muito real e, na maioria das vezes, não decorria de urnas ou eleições, mas da própria natureza do relacionamento humano, na sua tessitura social”, escreve A. Lindenberg (op. cit., pp. 83 e 57). Tendo marcado profundamente a alma do povo, sua lembrança não se apagou por inteiro. Essa mentalidade não desapareceu. Ela se transformou, em parte. Foi comprimida por novas fórmulas. Integrou-se nos novos modelos revolucionários, com os quais convive em contradição. Houve uma mudança, sim, mas uma continuidade também. Em momentos decisivos da nacionalidade, a parte da mentalidade que continua ligada ao perfume dos campos e dos tempos aflora. Ao aflorar ela manifesta a vontade sobrevivente do “país profundo”.


Legendas: - Sinos da Catedral de Segóvia, na Espanha (Foto: Paulo Campos). - Bênção dos sinos da Catedral de Notre-Dame (Paris, 2013).