Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 800 | página 24-25

(continuação)

da Lituânia e a Rússia soviética, foi recebido apoteoticamente em Kaunas, onde se estabeleceu.

No ano seguinte Dom Matulionis visitou o Vaticano, sendo recebido por Pio XI. Quando ele se ajoelhou diante do Sumo Pontífice para lhe oscular o anel e pedir a sua bênção, Pio XI o levantou e, ajoelhando-se diante dele, disse: “O senhor é um mártir. Dê-me primeiramente a sua bênção”.

Vigiado pelo serviço secreto russo

Em 1943 Pio XII nomeou-o bispo de Kaisiadorys. Apesar das ameaças e intimidações, o intrépido bispo nunca deixou de criticar a perseguição que os regimes nazista e comunista faziam contra a Igreja e a moral católica. Em particular, apontava a dissolução dos costumes, o amor livre e a prática abominável do aborto, crime monstruoso por sacrificar vidas inocentes, além de impedir o crescimento da população.

No ano seguinte, com o recuo das forças de ocupação nazistas, os russos soviéticos se instalaram novamente na Lituânia. Odiado pelos comunistas, Dom Matulionis foi preso pela terceira vez e enviado para o cárcere de Vladimir. Posteriormente deportaram-no para a Sibéria, onde trabalhou nos pântanos, arrastando troncos para a construção de estradas.

Com a saúde deteriorada, sua libertação ocorreu somente 10 anos depois, em abril de 1956. Retornando à Lituânia, Dom Matulionis não pôde contudo exercer seu múnus episcopal, pois foi proibido de residir em sua diocese. Próximo aos limites desta, na cidade termal de Birstonas, teve que viver em prisão domiciliar, sendo vigiado pelo serviço secreto russo.

Por ódio à fé, executado por comunistas

Dom Teófilo Matulionis passou 16 anos encarcerado nas enxovias soviéticas e perseguido a vida inteira pelos comunistas. Abateram-se sobre ele sofrimentos de toda espécie, físicos e morais. Calúnias e insultos, doenças e fome nas prisões. Entretanto, o que mais o atormentou ao longo das intérminas perseguições de que foi objeto não foi a violência física, mas a profunda dor moral e espiritual pelos contínuos entraves ao seu apostolado visando arrancar almas do pecado e conquistá-las para o Céu.

Mesmo antes de ouvir falar das aparições de Nossa Senhora em Fátima e de conhecer-lhe a Mensagem, o sentido de seu apostolado era consoante com os pedidos da “Virgem mais branca que o sol”. Fustigava o pecado do aborto, a prática do amor livre, o abandono quase geral da observância dos Mandamentos. Pregava incansavelmente a necessidade da conversão e da penitência, estimulava a devoção aos Sagrados Coração de Jesus e de Maria e tinha o foco de sua atenção voltado para a conversão da Rússia.

Em fevereiro de 1962 foi-lhe concedido o título pessoal de Arcebispo. Os últimos meses da vida de Dom Matulionis transcorreram na casa paroquial de Seduva, ao norte do país. Foi ali que agentes comunistas o espancaram barbaramente na véspera de sua morte, causada por uma injeção letal aplicada depois por uma enfermeira da KGB.

Morto “in odium fidei”, Dom Matulionis é o primeiro mártir do regime soviético a ser elevado à honra dos altares. v

Legenda: - (Esq.) Dom Matulionis prisioneiro. (Dir.) Morto pelo ódio comunista.


Fotografia do grande bispo lituano

“No decurso de toda a minha existência, poucas foram as fisionomias que encontrei tão profundas e tão lúcidas, e ao mesmo tempo tão impregnadas de bondade”

Prefaciando a edição brasileira do livro do Pe. Pranas Gaida, Dom Teófilo Matulionis Bispo, prisioneiro e mártir do comunismo (Artpress, São Paulo, 1991 — publicado por iniciativa do Revmo. Pe. Pranas Gavenas, SDB), Plinio Corrêa de Oliveira comenta assim a figura desse grande herói da Fé:

“Sempre me pareceu algum tanto desordenado — salvo circunstâncias muito especiais — ver antes as fotos que ilustram uma obra, e só depois lhe ler o texto. Entretanto, foi precisamente o que fiz, logo que tive em mãos o livro do Pe. Pranas Gaida. Deitei os olhos sobre a capa e me deparei com uma fotografia do grande bispo lituano. E, de imediato, sua fisionomia me causou profunda impressão.

Realmente, no decurso de toda a minha existência, poucas foram as fisionomias que encontrei tão profundas e tão lúcidas, e ao mesmo tempo tão impregnadas de bondade, quanto a do falecido bispo de Kaisiadorys, na Lituânia. Passei, então, com avidez, à leitura do texto conciso, denso e atraente da narração de sua vida. No início, dois sentimentos me dividiam. Um era o desejo de conhecer pelo menos os principais lances da história de Dom Matulionis, ao longo dos quais lhe fora dado formar sua nobre e resoluta personalidade. O outro era o receio de encontrar no livro algo que, de leve embora, deslustrasse, por pouco que fosse, sua insigne personalidade. Porém, antes de chegar ao termo da narração de sua dura e heroica existência, já não temi encontrar qualquer decepção.

Pois não tardei em me certificar de que a alma do grande bispo e mártir era feita de uma só peça. E que, assim, ou se mantinha de pé em meio ao fragor de todas as lutas, ou, se cambaleasse e viesse a perder o equilíbrio, cairia inteira ao chão. E se me tornara a cada passo mais provável que Dom Matulionis conservara sua alma íntegra e pura até o glorioso dia em que, atendendo ao chamado de Deus, se evolou desta Terra para o Céu.

O bispo-mártir me faz lembrar o célebre dístico que glorifica a Santa Cruz na qual o Filho de Deus, com o seu sacrifício redentor, abriu para os homens as portas do Céu: Stat Crux dum volvitur orbis. Enquanto a Terra gira sem cessar, a cruz se ergue imóvel.

Esse dístico lembra a vida de verdadeiro Pastor, de Dom Matulionis. E enquanto em torno dele e de sua atuação, de sua diocese e de sua pátria queridas, nos acontecimentos do cenário político internacional o nazismo e o comunismo dançavam incessantemente sua farândola criminosa e macabra, Dom Matulionis se mantinha altaneiro e sempre fiel à Igreja de Cristo, cuja Santa Cruz sua destra empunhou e levantou bem alto, desde os primeiros passos da vida até os últimos.

Como seminarista, depois pároco e por fim bispo — quer sob o regime czarista, quer depois sob a férula cruel do regime comunista que o perseguiu sem tréguas nem compaixão e o arrastou mais de uma vez ao cárcere, quer nos esplendores dos templos e da liturgia católica, quer enfim na magnificência dos Paços apostólicos do Vaticano, nos quais visitou o Papa Pio XI, então reinante — , Dom Matulionis foi sempre o mesmo. Como o mesmo continua nos páramos celestes em que, aos pés da Santíssima Virgem e de seu Divino Filho, estará rezando pelos compatriotas existentes na Lituânia ou esparsos pelo mundo”.