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uma grande coincidência de fatores que induzem hoje a uma Fé e a uma Moral subjetivas, intimistas, que vêm acompanhadas da pretensão de uma religião "à la carte", que não é a que Deus revelou e mandou seguir, mas a que eu escolho segundo minha fantasia e na qual não existe nenhuma autoridade que tenha o direito de ensinar-me o que devo crer ou praticar. Os sociólogos da religião caracterizam essa atitude individualista com a fórmula "believing but not belonging": crer em algo, mas não afiliar-se a nada. A consequência moral é construir uma ética individual de acordo com os próprios caprichos. E o corolário extremo é a negação da realidade natural, como na Ideologia de Gênero.
Considera muito importante essa exteriorização e socialização da Fé em práticas ou em símbolos?
— Não sou eu quem o considera assim. É Jesus Cristo, que ao instituir os sacramentos associou a cada um deles um sinal visível. E é tão importante que, se não houver esse sinal, que se chama matéria do sacramento (por exemplo, a água no Batismo ou os santos óleos na Extrema Unção), ele se torna inválido. E note que a essência de todo sacramento é a comunicação da graça. Ou seja, uma realidade sobrenatural que, entretanto, para ser comunicada, exige uma marca sensível, a matéria. O mesmo vale para a própria Igreja. Como dizia Bossuet, Ela é Cristo disseminado e comunicado. Contudo, não é um Corpo apenas místico, mas também a sociedade visível de todos os que professamos a mesma fé, recebemos os mesmos sacramentos e estamos submetidos aos mesmos pastores. Negar a realidade visível, social, hierárquica e jurídica da Igreja é protestantismo puro.
"Nosso continente afigura-se-me hoje convulsionado na etapa final de uma crise. As utopias liberais e socialistas se esgotaram. O mundo deseja outra coisa. Mas Jesus é o único caminho"
Desse caráter visível da Igreja resulta a necessidade de uma profissão pública da fé. Contam, não sei se é verdade, que quando São Tomás Morus se negava a aceitar o adultério de Henrique VIII, seu amigo, o Duque de Norfolk, ter-lhe-ia aconselhado a assinar o documento de aceitação para escapar da morte. "Não são senão palavras e Deus só olha os corações", teria dito o duque. Ao que o futuro mártir teria respondido: "E quando dizemos a Deus que O amamos, ou Lhe pedimos que perdoe os nossos pecados, o que é que fazemos senão dizer palavras?".
O mesmo vale para a Cristandade. As sociedades são criaturas de Deus, Autor do instinto de sociabilidade, e enquanto realidades naturais e visíveis elas têm a obrigação de dar glória a Deus de maneira coletiva e pública. Uma sociedade não pode ser apenas "vitalmente cristã", como queriam Maritain e o Cardeal Journet, porque isso corresponde, no plano social, ao mesmo "intimismo" desviado que criticamos no plano individual.
Além do mais, o laicismo é uma mentira e um embuste, porque um Estado nunca pode ser religiosamente neutro: vemos isso na Europa, onde está sendo imposta a Religião do Homem, com seus dogmas e sua nova moral de pretensos "direitos humanos", que incluem o aborto, o "casamento" homossexual, a eutanásia etc. E já está preparada a nova Inquisição, sob a suposição de que afirmar a existência de uma Lei divina superior às leis do Estado é fundamentalismo. A alternativa é clara: ou retornamos à Cristandade ou seremos os dhimmis [cidadãos de segunda classe, não-muçulmanos, de um Estado regido pela sharia] de uma sociedade oficialmente ateia... ou islâmica, como prevê o romance Submissão, de Michel Houellebecq.
Como caracterizaria a crise atual da Igreja?
— Considero que a Igreja vive a crise mais aguda de sua História. Ao olharmos para os vários aspectos do mundo de hoje, vemos heresias por todas as partes, a profanação dos sacramentos, o menosprezo da virgindade e da castidade segundo o próprio estado; vemos o divórcio, o concubinato, o adultério serem aceitos com normalidade; vemos os filhos ilegítimos, os filhos que não conheceram um de seus progenitores; até a Extrema-unção é desprezada.
É claro que se a sociedade está assim, isso se deve em parte ao fato de a Igreja, que deveria santificá-la, atravessar também um momento que deixa muito a desejar. Em vez de evangelizar o mundo, optou-se por dialogar com ele, especialmente no que caracteriza a "modernidade". O resultado foi a teologia existencialista de Rahner, a moral de situação de Marciano Vidal, a Teologia da Liberação marxista de Gustavo Gutiérrez etc. Ou seja, em vez de nos convertermos para adaptar nossas crenças e nossas vidas ao Bem e à Verdade revelados, fazemos uma "releitura" do Evangelho para aceitar o neopaganismo moderno e a Revolução anticristã.
Estamos perdidos, ou há esperança?
— Fátima, a grande esperança é o título de uma das campanhas mais importantes em alguns países que representamos aqui em Bruxelas. Fátima não é uma esperança, é uma certeza. Nossa Senhora advertiu em 1917 que se o mundo não se emendasse viria um castigo, mas acrescentou: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!". E como prova da veracidade desse anúncio, Ela prognosticou vários outros acontecimentos, todos eles ocorridos, e fez o portentoso "milagre do sol".
O triunfo do Imaculado Coração de Maria é a grande esperança, e a grande certeza que nos aguarda no horizonte.
E nossa querida Europa, como a vê?
— "Nossa querida Europa"… Ao falarmos dela, falamos da Cristandade. Apesar de o Reinado Social de Cristo poder ser instaurado em diversos contextos culturais, foi historicamente aqui na Europa que ele se instalou e a partir daqui navegou até os confins do mundo. Os senhores, ibéricos — espanhóis e portugueses — carregam esse mérito histórico. Estou certo de que, quando esperamos o triunfo do Coração de Maria, esperamos também o retorno da Europa cristã. Não imagino um Reino Social de Cristo sem a Europa.
Nosso continente afigura-se-me hoje convulsionado na etapa final de uma crise. As utopias liberais e socialistas se esgotaram. O mundo deseja outra coisa. Mas Jesus é o único caminho. Não devemos buscar salvação fora do Cristianismo. Nesse sentido, novamente, Fátima é a grande esperança. Seu apelo à conversão profunda e sincera, se atendido, é a única coisa que poderá nos salvar.
Como se despediria de nossos leitores espanhóis e, por extensão, de toda a Ibero-América, onde tanto se lê este portal?(*)
— Parafraseando a Rainha Maria Antonieta, dir-lhes-ia que o castelhano é a mais bela língua, quando a ouço nos lábios de minha mulher e de meus filhos.
Espero não ofender meus compatriotas alemães nem os nacionais de outros países acrescentando que quem não aprecia o modo de ser católico de um espanhol falta-lhe algo em sua catolicidade. Talvez o "sim, sim; não, não" e a altaneria cavalheiresca devessem caracterizar todos os filhos da Igreja, mas no caso da Espanha isso se dá de modo insubstituível. A Espanha levou a Fé à Ibero-América. Penso em combatentes que vão para a frente de batalha cantando "Viva la muerte!", ou que na Sexta-Feira Santa honram Nosso Senhor crucificado cantando "Soy el novio de la muerte". Tal ousadia combina maravilhosamente com uma Santa Teresa que, após uma peripécia que a fez passar muito medo, censura Jesus de ter poucos amigos... por tratar tão duramente aqueles que O amam!
Queria então dizer a todos os espanhóis católicos que necessitamos deles. Que a Europa precisa de católicos assim. Voltem a ser assim, ou continuem a ser assim, para o bem da Espanha e para o bem da Igreja.•
(*) https://adelantelafe.com/duque-paul-oldenburg-analiza-la-crisis-actual-la-iglesia/
LEGENDA:
- Legionários espanhóis, em Málaga, portam o Cristo da Boa Morte cantando o hino "soy el novio de la muerte" (sou enamorado da morte).