ESCREVEM OS LEITORES
Um leitor, Campos: "No semanário anexo o Sr. encontrará um artigo sobre o evolucionismo, no qual, para resolver se há contradição entre as palavras do livro do Gênesis e os postulados da evolução, se diz: "Respondamos logo com a autoridade de ...: A tese da geração espontânea (que aliás é uma das fórmulas mais avançadas da evolução) não é contra a fé nem contra a filosofia cristã". Pergunto: pode-se resolver assim, com a autoridade de uma pessoa particular, uma questão dessas?"
R. A pergunta versa sobre o critério a ser adotado para solucionar aparentes oposições entre a ciência e a Fé. Dizemos "aparentes", porque já se tornou lugar comum, à força de ser evidente, que oposição real não há e nem pode haver, uma vez que ciência e Fé têm a mesma origem, Deus Nosso Senhor. Sobre a questão ventilada no artigo do citado semanário, "Catolicismo" já teve oportunidade de se externar, nesta mesma secção, em seu n° 5, de maio de 1951. Hoje nos estenderemos um pouco mais, porque o assunto nos parece da maior relevância. E, de fato, para um católico poucas questões têm a importância desta: saber que critério adotar para resolver de acordo com a doutrina da Igreja as dúvidas que lhe ocorram.
1. Em matéria de Fé, o único juiz é o Magistério autêntico e infalível da Igreja.
Não quer isso dizer que não se possa, para esclarecimento de pontos obscuros ou duvidosos, aduzir a autoridade de quem se distinga pela segurança de doutrina e força de argumentação. Há mesmo alguns autores cuja opinião goza na Igreja de prestigio excepcional. Assim São Tomás de Aquino, cuja filosofia os Papas não se cansam de inculcar como o melhor vocabulário humano para traduzir as realidades divinas, o que, em outras palavras, significa uma filosofia objetiva, real, verdadeira, uma vez que os mistérios de Deus não contradizem, mas elevam a razão humana. Assim, também, Santo Agostinho, especialmente na doutrina da graça: tal como o Anjo das Escolas, é ele abonado por declarações explicitas da Santa Sé. São Celestino I, Hormisdas, entre outros Papas, o enaltecem por sua ciência, que o coloca "inter magistros optimos". Ao lado destes, temos outros Santos cuja doutrina a Igreja recomenda, salientando às vezes a parte da Revelação em que foram mais excelentes. Deste modo, Santo Afonso de Ligorio é o moralista, São João da Cruz, o místico, Santo Antonio, a "arca do Testamento e escrínio da Sagrada Escritura" (Gregório IX), etc. Mas tudo isso significa; tão somente, que não se deve abandonar a opinião desses doutores levianamente, sem argumentos válidos. E nada mais. Quem pretendesse liquidar uma questão controversa com a sentença de um Padre ou Doutor da Igreja (fosse ele um Santo Agostinho, ou um São Tomás de Aquino) atribuindo-lhe a mesma força decisiva de um documento do Magistério Eclesiástico, se enganaria.
2. Foi o que aconteceu com os jansenistas (de cuja boa fé, diga-se de passagem, é lícito duvidar), que abusavam da autoridade de Santo Agostinho. Tal fato motivou a advertência de Alexandre VIII, contida na condenação da seguinte sentença: "Sempre que alguém encontrar uma doutrina claramente fundada em Santo Agostinho, pode desde logo, e de modo absoluto, admiti-la e ensiná-la, sem atender a nenhuma bula pontifícia" (D. 1320).
Isso, no século XVII. O mal, no entanto, continua. O Santo Padre Pio XI, na encíclica que escreveu por ocasião do décimo quinto centenário da morte do Doutor Hiponense, repete a mesma lição de Alexandre VIII, com estas palavras: "Antes de mais de perto iniciar a exposição que Nos propusemos, queremos sejam todos advertidos de que os mais amplos louvores com que os antigos escritores enalteceram a Santo Agostinho, devem ser retamente entendidos, isto é, não — como muitos, destituídos de senso católico, julgaram — no sentido de que a autoridade de sua palavra deva preferir-se à suprema autoridade da própria Igreja Docente".
Não é só. Parece que, hoje em dia, há um desejo incontido de independência em relação ao Magistério Eclesiástico. Pode ele falar explicitamente sobre determinados assuntos, e falar para dirimir questões relacionadas com esses assuntos, muitos católicos ouvem e... continuam a sustentar o contrário. Assim, para dar um só exemplo, o Santo Padre Pio XII escreveu a constituição apostólica "Bis Saeculari Die" sobre as Congregações Marianas, na qual mostra que esses sodalícios, por sua natureza, por seus feitos, por seu apostolado, por tudo enfim, são "ipso iure" Ação Católica, sem que lhes falte nota nenhuma das que caracterizam a Ação Católica. Isso em 1948. Pois, ainda hoje, há os que se julgam capacitados a restringir a palavra do Papa, introduzindo distinções que ela ignora! O mesmo se diga a propósito da encíclica "Humani Generis", cujas condenações não têm impedido certos católicos de sustentar os mesmos erros atingidos por essas condenações.
3. Compreende-se assim, muito facilmente, a advertência do Santo Padre Pio XII, na alocução que dirigiu aos participantes da 6a Semana italiana de adaptação pastoral, reunida em Roma em setembro do ano findo:
"Circunstâncias particulares no período mais recente da vida eclesiástica Nos levaram, em Nossas alocuções ao Sacro Colégio e ao Episcopado, em 31 de maio e 2 de novembro de 1954, a dizer uma palavra sobre o fundamento do Magistério de direito divino do Papa e dos Bispos, e sobre o ensinamento dos teólogos, que exercem seu oficio, não de direito divino, mas por delegação da Igreja, e portanto ficam submetidos à autoridade e vigilância do Magistério legitimo. Se, como teólogos, estão eles ativamente interessados na Orientação e utilizam argumentos teológicos científicos, poder-se-ia perguntar se é a sua palavra ou a do Magistério da Igreja que tem mais peso e oferece melhor garantia de verdade. A este propósito lê-se na encíclica Humani Generis: "Este depósito (da Fé), não foi a cada fiel, nem mesmo aos teólogos, que Jesus Cristo o confiou para dar-lhe uma interpretação autêntica, mas unicamente ao Magistério da Igreja ... Assim, Nosso Predecessor de imortal memória, Pio IX, ao ensinar que a teologia tem a tão nobre tarefa de mostrar como uma doutrina definida pela Igreja está contida nas fontes, acrescentou estas palavras, não sem razões graves: no mesmo sentido em que a Igreja a definiu. Portanto, para o conhecimento da verdade, o que é decisivo não é a opinião dos teólogos — opinio theologorum, mas o sentido da Igreja — sensus Ecclesiae. Do contrario, seria fazer dos teólogos quase mestres do Magistério — magistri Magisterii, o que é erro evidente".
4. Portanto, onde há uma palavra da Igreja, não devemos recorrer a outras fontes; onde não há, nosso julgamento nunca é definitivo, pois sempre existe possibilidade de engano. De onde, qualquer que seja o mérito do artigo a que se refere nosso consulente, parece-nos que não andou bem avisado o seu autor ao pretender liquidar uma questão relacionada com a Palavra divina, mediante tão só a autoridade de um sábio, merecedor embora de todo o nosso acatamento. Tanto mais que se trata de um assunto sobre o qual o Papa falou para dar orientação aos fiéis. Tal, com efeito, a finalidades da encíclica "Humani Generis".
Lembremos aqui o que, a propósito, já escrevemos em "Correspondência" de maio de 1951: "Toda encíclica pontifícia tem um valor doutrinário suficiente para acalmar os temores dos fiéis. E por isso devem elas ser sempre invocadas nas controvérsias entre católicos. Não há dúvida, no entanto, de que, entre as encíclicas, a própria Igreja salienta algumas a que dá importância singular. Deste número é a Humani Generis. Primeiro, o próprio Papa, repetidamente, a tem apontado como diretriz do fiel nos difíceis tempos de anarquia intelectual em que vivemos (cfr. alocução aos universitários franceses, alocução aos membros do Congresso Internacional das Ordens e Congregações Religiosas, etc.). Depois, a quase unanimidade das Universidades Católicas que se têm manifestado sobre este documento em cartas ao Santo Padre, também mostra que se trata de uma encíclica singularmente importante sob o ponto de vista doutrinário. É ela um clarão de intensa luz sobre as discussões entre católicos, alguns dos quais se deixavam atrair, pelas modernas teorias filosóficas e antropológicas, e procuravam acomodar a Sagrada Escritura, bem como os dogmas da Fé, a novos e extravagantes sistemas”.
No que se refere à evolução, a "Humani Generis" não dá o problema como resolvido, a não ser com relação à alma, que é criada imediatamente por Deus. Assim, pois, pode a Igreja, algum dia, após elucidação do sentido real do Gênesis, vir a condenar a doutrina evolucionista. É portanto temerário afirmar que "a geração espontânea não é contra a Fé nem contra a filosofia cristã". A questão está em suspenso, teologicamente; não está resolvida.
5. Não encerraremos estas considerações, sem oferecer aos nossos leitores os edificantes exemplos dos dois grandes Doutores da Igreja que citamos acima. Nem Santo Agostinho, nem São Tomás de Aquino se tinham por infalíveis.
Santo Agostinho ao escrever as "Retratações”, obra em que revê todos os seus escritos, para emendar o que já não julgava certo, observa, num extremo de humildade: "De ninguém desejo que abrace minha opinião apenas para me seguir, a não ser naquilo em que perceba que não errei. Aliás, por esse motivo, componho agora uns livros, nos quais vou revendo os meus trabalhos, para mostrar que nem eu me segui a mim mesmo em todos os assuntos" (De dono perseverantiae, cap. 21).
E São Tomás de Aquino não só se retratou de algumas opiniões, como também estabeleceu o princípio de que o menos forte dos argumentos é o de autoridade, a não ser que esta seja a da Revelação: "Locus ab auctoritate quae fundatur super racione humana est infirmissimus; locus tamen ab auctoritate quae fundatur super revelatione divina est efficacissimus" (S. T. 1, q. 1, art. 8, ad 2um.).
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Prof. A. W. J., Campinas (Est. de S. Paulo): "Tenho visto apreciações contraditórias a respeito do Cardeal Segura y Saenz, recentemente falecido na Espanha. Que há de verdade nas censuras e nos elogios?"
R. A prestigiosa revista católica de Londres, "The Tablet", citando Lord Templewood, antigo embaixador inglês em Madrid, publicou em seu número de 13 de abril p. p. um depoimento tão elogioso quanto objetivo, a respeito do egrégio e pranteado Arcebispo de Sevilha. Traduzimo-lo para informação de nosso consulente, sem contudo fazer nossa cada uma das apreciações do articulista sobre os diversos aspectos da vida política espanhola:
"Morreu o Cardeal Segura", dizia um placard de jornais vespertinos na Victoria Station, segunda-feira à tarde. Num hospital de Madrid, pela manhã cedo daquele dia 8 de abril, expirara serenamente o Cardeal Pedro Segura y Saenz. O nome do Arcebispo de Sevilha e antigo Primaz da Espanha significava alguma coisa para os passageiros apressados em tomar os seus trens rumo ao lar. Eles teriam, supunha-se, a atenção despertada pelas notícias dessa morte, embora houvesse muita outra coisa para servir como manchete. Os leitores do "The Times" depararam na quarta-feira com um generoso tributo à memória do Cardeal falecido, de autoria do Visconde Templewood: "O cuidado pastoral do seu rebanho foi a ocupação de sua vida. Quer na pobre Diocese de Coria, onde trabalhou nos vilarejos abandonados de Las Hurdes, quer na Arquidiocese de Burgos, ou nas Sés de Toledo e Sevilha, foi ele sempre o mesmo Sacerdote simples, viajando de aldeia em aldeia, levando uma vida de renuncias, absorvido na salvação das almas ... A Igreja na Espanha perdeu o principal defensor de seus direitos, e todo o mundo cristão um Bispo dedicado ao munus pastoral, que possuía a piedade e a coragem de um Santo medieval".
Filho de um casal de professores de aldeia, nasceu Pedro Segura y Saenz perto de Burgos, no dia 4 de dezembro de 1880, e foi sagrado em 1916 como Bispo Auxiliar de Valladolid, onde havia anteriormente ensinado no Seminário e servido como secretário do Arcebispo. Em 1920 tornou-se Bispo de Coria, numa região áspera e pobre da Espanha ocidental, perto da fronteira portuguesa, e foi aí que se encontrou com o Rei Afonso XIII, durante uma visita real. O Rei, muito impressionado com o Prelado, obteve a sua nomeação para Arcebispo de Burgos, na vigília do Natal de 1926. Exatamente um ano depois, quando tinha apenas 46 anos, e ainda por indicação real, Mons. Segura foi transferido para a Sé Primacial de Toledo e elevado ao Sacro Colégio, tendo recebido a "berretta" das mãos de Afonso XIII, de acordo com a tradição espanhola, na Catedral de Toledo, no Natal de 1927. Era um monarquista de vigorosas convicções, e ao ser proclamada a república, em abril de 1931, manifestou sua consternação publicamente, na Catedral, e também escreveu uma Carta Pastoral em louvor do Rei que se afastava, o que foi tomado como grave ofensa pelos republicanos. Começou esse documento expressando "grata recordação de Sua Majestade o Rei Afonso XIII, que durante seu reinado preservou com êxito as antigas tradições de fé e piedade de seus antepassados". Em seguida dedicou três parágrafos ao panegírico de "Sua Majestade deposta"; e insinuou, numa previsão não compreendida então em parte alguma, que "os inimigos do Reino de Jesus Cristo" estavam avançando. "Nestes momentos de terrível incerteza, todo católico deve avaliar a extensão das suas responsabilidades e valentemente cumprir o seu dever... Se permanecermos inertes e indolentes, se nos permitirmos dar guarida à apatia e à timidez, se deixarmos caminho aberto aos que tentam destruir a Religião, ou confiarmos na benevolência de nossos inimigos para garantir o triunfo de nossos ideais, então não teremos o direito de nos lamentar quando a amarga realidade nos mostrar que tivemos a vitória nas mãos e contudo não soubemos lutar como intrépidos guerreiros, preparados para sucumbir gloriosamente".
O governo republicano, ofendido, solicitou à Santa Sé que removesse de sua Arquidiocese o Cardeal. Este dirigiu-se secretamente para Roma a fim de esclarecer a situação, e regressou à Espanha incógnito, sabendo que não se esperava que ele voltasse. Em Guadalajara foi reconhecido, preso pela polícia, detido durante a noite, no dia 14 de junho, escoltado até a fronteira em Irun e expulso. A partir de então, viveu em Roma cerca de sete anos, tendo resignado em favor do Cardeal Goma no ano de 1935. Em 1938 foi eleito Arcebispo de Sevilha e retornou à Espanha.
Durante a guerra ele foi, ainda conforme o testemunho do Visconde Templewood, então Embaixador inglês em Madrid, "o mais desassombrado inimigo do hitlerismo na Espanha inteira". "O General Franco, como amigo de Hitler, e o falangismo, como versão espanhola do nazismo, incorreram em sua condenação num tempo em que a Espanha estava sob domínio alemão. O falangismo e o nazismo lançaram sobre ele seu anátema".
Durante toda a sua vida o Cardeal Segura mostrou-se profundamente interessado pelos problemas de saúde pública e subnutrição, bem como pela reforma social de modo geral, e — especialmente quando se achava em Coria como jovem Bispo — esteve ativamente empenhado em planos práticos para suavizar a vida dos castelhanos pobres. Depois de 1939 tornou-se crítico intransigente da Falange, tendo proibido o hino falangista "Cara al sol" em qualquer função religiosa submetida à sua jurisdição, e resistido com êxito à ordem de colocar em todas as Igrejas um "in memoriam" de José Antonio Primo de Rivera — resistência que levou ao extremo de acenar com a excomunhão para impedir tais homenagens em sua Diocese. Atacou com frequência a censura governamental, afirmando que suas palavras estavam sendo suprimidas na imprensa. Em 1953 recusou ao General Franco o privilégio tradicional dos Chefes de Estado espanhóis, de entrar na Catedral de Sevilha sob um palio, por considerá-lo reservado aos Monarcas, e não assistiu a nenhuma função pública enquanto o General se encontrava na cidade. Em 1952 deixou de comparecer ao Congresso Eucarístico Nacional de Barcelona, em virtude de lá se acharem o Caudilho e muitos outros representantes do regime. Declarou que o "Fuero de los Espanoles" era exageradamente liberal em seus dispositivos sobre o regime legal dos protestantes; e deplorou o tratado de defesa celebrado entre a Espanha e os Estados Unidos em 1953, sob a justificação de que a influência americana encorajaria a difusão do protestantismo. Porém, no dia de sua morte o General Franco anunciou que nos funerais lhe seriam tributadas as mais altas honras militares, em reconhecimento pelos serviços prestados à Espanha; e muitos membros do governo lhe renderam homenagem. O Cardeal Segura era respeitado por todos como homem de santidade pessoal e como paladino de rígidos padrões de comportamento.
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
Teatralidade, Romantismo
e Hediondez na Catequese
Plinio Corrêa de Oliveira
Nosso tema de hoje é complexo. Considera ilustrações catequéticas em três etapas diversas, com desvios crescentes que foram saindo um do outro. A era da ópera exerceu no primeiro sua influência sentimental. A era do cinema vincou com suas piores marcas o gênero "quadrinho" no qual o segundo se inspira. O terceiro é um escândalo no sentido mais pleno da palavra. Tem todos os sintomas das modernas taras e degenerescências da arte. Seria interessante descrever e analisar a fundo o nexo entre estes três desvios: a natureza desta seção não o permite. Contentar-nos-emos, pois, com algumas indicações.
É claro que de 1930 para cá, muita coisa de bom também se tem feito no terreno catequético. Estamos longe de o negar. Desejamos simplesmente, nesta nota, alertar nossos leitores contra desvios que, do ângulo essencialmente catequético em que nos pomos, são particularmente perigosos.
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Jesus converte a água em vinho nas bodas de Caná. Cena de uma História Sagrada de 1930. Nenhum dos grandes sopros da arte cristã passa por esta composição aguada. Maria Santíssima acaba de obter uma graça imensa, pois Jesus antecipou a série de seus milagres, operando em atenção a Ela um portento. Nesta situação, o artista imagina a Virgem com a fisionomia adocicada, fria, indolente, de uma boneca de louça. Nosso Senhor parece um jovem algum tanto lânguido e sonhador, que recebe com displicência as provas de admiração dos circunstantes. A ênfase teatral dos Apóstolos faz sorrir. O ambiente está todo impregnado de certo sentimentalismo.
Vê-se que o artista quis representar Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima modestos e bondosos apesar da imensidade do triunfo, os Apóstolos edificantemente entusiasmados, as bodas concorridas e animadas. Mas a inspiração lhe faltou totalmente. O quadro é artificial e sem vida. Um certo romantismo o marca em diversos de seus aspectos.
Sem embargo disto, a intenção foi boa. O autor fez o possível para dar uma idéia digna, bela, piedosa, da cena evangélica. E, por mais real que seja seu insucesso, não se pode dizer que tenha chegado a um resultado grotesco ou caricato.
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Cenas de uma história Sagrada de 1954, apresentada em "quadrinhos".
O nível baixou em todo sentido: "artístico" ( empregamos a palavra entre aspas porque a arte está longe, em ambos os casos ), gráfico, psicológico. Trata-se de uma concepção cinematográfico-romântica da tentação de Nosso Senhor no deserto. Ou melhor, de uma concepção no tipo "história de quadrinhos", deplorável subproduto do estilo "Hollywood".
A posição da cabeça, o olhar vago, sonhador, impregnado de melancolia sentimental, um certo gênero romântico de claro-escuro, reúnem nesta figura, em ponto suburbano, todos os atributos de um galã de cinema. O título poderia ser Beu Geste divagando no deserto com saudades da pátria longínqua.
Depois da aflição do galã, o happy end e as girls. Tendo Jesus vencido a tentação, os Anjos vêm servi-Lo. Que Anjos! Rostos e corpos femininos. Braços de fora. De "angélico", só as asas.
Preferimos não indicar a revista de onde estas tristes coisas foram extraídas. Acentuamos apenas que também elas foram feitas com o intuito de incutir nas crianças uma noção do Evangelho. Provavelmente para agradá-las, a cena foi estilizada à maneira "quadrinhos’. E como sempre acontece em concepções deste tipo, do Evangelho só ficou o rótulo. O resto é "quadrinho" puro.
Em relação à cena anterior, a queda é sensível...
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Agora mais um tombo. E que tombo! Trata-se de uma ilustração do Ofertório do "Missel de Frère Yves", destinado a crianças de 7 a 12 anos. O Centro Nacional do Ensino Religioso, da França, em nota divulgada pela imprensa daquele país, comunicou que as "altas autoridades romanas vêem nestes missais uma arte a ser reprovada de modo absoluto, porque favorece, sobretudo na imaginação das crianças, a formação de conceitos errôneos ou indignos a respeito das coisas santas sobre que versam".
O rosto é assimétrico. Só o olho esquerdo é guarnecido por uma sobrancelha. Só o lado esquerdo do nariz tem narina, só do lado esquerdo do rosto nasce barba. Uma barba que melhor se chamaria barbicha, formando anéis extravagantes e ridículos, que sobem em vez de descer. Uns cabelos escorridos, sem graça nem nobreza, parecem três fios de arame. Os braços dir-se-iam tubos cilíndricos. As pequenas palmas das mãos estão fora de proporção com os longos dedos. O corpo informe, as pernas de comprimento desigual, tudo enfim caracteriza um ente fundamentalmente mal construído.
É digna de nota a presença de um método nessa disformidade. Consiste ela essencialmente numa certa miséria orgânica, pela qual o corpo não teve força para crescer e se constituir normalmente. Mais se diria um rascunho de corpo, do que propriamente um corpo. E rascunho desajeitado. A inserção da mão no braço, e deste no tronco, a ausência de cotovelos e joelhos dão a impressão de um ser hirto, de movimentos ridículos.
Tudo isto a serviço - ou a desserviço - de uma pobre mente que olha apatetadamente ( não há outra expressão ) para o mundo, com a serenidade e a despreocupação de quem não tem discernimento para perceber sua própria disformidade, nem o contraste entre esta e a compostura, a harmonia, a dignidade da natureza e do universo.
Os cravos do pulso, em forma de botão de certos casacos, foram concebidos por uma pessoa que tem as idéias mais tolas sobre o assunto. Idéias tão tolas, aliás, que, enquanto um dos pés está cravado, o outro balouça, vadio, no ar. A ferida do lado esguicha três fios de sangue, como um menino de grupo escolar os desenharia. Parece que o autor é tão tolo quanto o modelo. Sente-se propensão a intitular o quadro "auto-retrato".
E isto explicaria perfeitamente a figura acima. Seria uma versão feminina de sua própria personalidade.