SANTA CATARINA DE SIENA
Continuaçao
sejas tu, que não usaste do tempo e da força que te foram concedidos. Creio, Pai, que pela bondade de Deus e por vossa santidade não agireis de maneira que isso possa cair sobre vós... Perdoai-me, perdoai-me, que o grande amor que tenho à vossa salvação, e a grande dor que sinto quando vejo o contrário, fazem-mo dizer". E conclui com esta singular ameaça : "Fazei com que não me queixe de vós a Cristo crucificado, que de outrem não me posso valer, pois ninguém há maior que vós no mundo" (carta 255).
Deus exige — lê-se em outro passo dessa carta — que o Papa reforme a Igreja : "Posto que Ele vos conferiu a autoridade, e vós a aceitastes, deveis usar vossa força e poder.
E se não quereis usá-los, melhor seria renunciar àquilo que assumistes: mais honra de Deus e salvação de vossa alma resultaria disso que do contrário".
Ao sucessor de Gregório XI, que tomara o nome de Urbano VI, ela recomenda que "com prudência trate sempre de prometer o que lhe for possível cumprir, para que não resulte daí prejuízo, vergonha e confusão" (carta 370). Pastor nos mostra que esse Pontífice, animado aliás de sincero zelo reformador, era de um "natural inconsiderado e extraordinariamente impetuoso". A virgem sienense lhe escreve: "Suavizai um pouco, por amor de Jesus crucificado, os movimentos demasiado vivazes que a natureza faz nascer em vós".
E noutra carta: "... sois o Pai e Senhor de toda a Cristandade, todos estamos sob as asas de Vossa Santidade. Quanto à autoridade, podeis tudo; mas, quanto a ver, não podeis mais do que um homem só. É necessário, pois, que vossos filhos vejam e façam... tudo o que convém à honra de Deus e à vossa, bem como à salvação das ovelhas que estão sob vosso cajado... Cumpre escutá-los com paciência... Quando tomais conhecimento das faltas que se cometem, gemeis de ver Deus ofendido. Mas, por outro lado, quando um, de vossos filhos vem vos informar do que ele julga constituir uma ofensa a Deus, aborreceis-vos também. E, todavia, ele pecaria se não tivesse o cuidado de vos dizer a pura verdade, porque nada deve ser oculto a Vossa Santidade".
Aos dois Pontífices que entretiveram relações com a admirável extática, se pode aplicar o que Pastor disse a respeito do primeiro deles: "Constitui um belo testemunho em favor de Gregório, que Catarina pudesse falar tão livre e animosamente; como o constitui, para ela, ter falado assim" (loc. cit., p. 227).
Não era menos franca, aliás, a linguagem de suas cartas aos grandes do mundo. Ao Rei da França, ela adverte que "basta de tanta estultícia e ignorância" (carta 235). E a Honorato Gaetani de Fondi, o poderoso vassalo da Santa Sé: "Por que vos contaminais com este mal de morte (o Cisma)? Pelo amor que tendes á vossa própria sensualidade, e por despeito concebido contra vosso suserano" (carta 313).
UMA SANTA QUE NÃO ERA MARITAINISTA.,.
Encerremos a digressão. Mostrávamos as medidas concretas que Catarina aconselhava para a reforma da Igreja
"Mas — lê-se em carta a Gregório XI — pensai, doce Pai, quão difícil seria pôr em prática essas medidas, se não cumprísseis duas outras coisas, que devem vir na frente para que se possa fazer o resto. A saber: vosso advento a Roma, e erguer o estandarte da santíssima Cruz" (carta 206). Em outros lugares a jovem toscana aponta a terceira condição: a paz entre os cristãos. Comecemos por esta última.
Por que a paz? Para poupar terríveis sofrimentos à pobre humanidade. Mas, sobretudo, porque sem a paz não era possível a reforma da Igreja. Durante a guerra — lembra a Santa ao Papa Gregório XI — "acreditando ter necessidade dos Príncipes e dos grandes, vós vos julgais obrigado a dar-lhes pastores segundo suas vistas e não segundo as vossas. É um grande mal, no entanto, e não deveria haver mais desses pastores inchados de orgulho, que são como porcos imundos ou folhas agitadas pelo vento do século".
Como nada no mundo importava mais do que a reforma, cumpria sacrificar à paz qualquer interesse temporal, por mais legítimo e relevante que fosse. Concepção de rara coerência, por certo, e que por isso mesmo tem sido censurada por biógrafos modernos da angélica sienense: tanto é verdade que falta a muitos católicos de nossos dias o espírito de fé.
Nossa "mantellata", pelo contrário, tinha uma fé vigorosa. Por isso não hesitava em insistir com Gregório XI e Urbano VI para que terminassem a guerra com os adversários italianos da Santa Sé, mesmo que isso lhes custasse a perda de territórios da Igreja: "é melhor negligenciar o temporal, do que o espiritual ".
Mais ainda. Ao Rei da França, Carlos V, empenhado numa guerra justa contra a Inglaterra, a jovem dominicana pede que deixe de ser "autor de tanto mal e impedimento de tanto bem" (carta 235).
Ainda para alcançar a concórdia entre os cristãos, Catarina se lança a uma ação estritamente política. Para não nos alongarmos demais, registremos apenas que, enviada pelo Papa a Florença para tratar da paz, ela estimulou um golpe de Estado do partido guelfo, que sabia disposto a negociar com a Santa Sé (Legenda, 3a parte, cap. VI). O que, aliás, quase lhe custou a vida.
É espantoso. Mas temos que reconhecer que esta Santa não conhecia a doutrina maritainista da autonomia do temporal...
"A DOCE CRUZADA CONTRA OS CÃES INFIÉIS"
“Si che tutti di bella brigata andiamo a morire per Cristo". "Preparai-vos, a fim de que todos, em bela brigada, partamos para morrer por Jesus Cristo", — exclama a ardorosa toscana dirigindo-se à Rainha de Nápoles (carta 138). É sempre com esse entusiasmo juvenil que suas cartas se referem ao "santo passaggio", ao "tão doce e santo mistério", à "santa e doce operação".
Na concepção catariniana, a cruzada constitui um complemento e uma condição da paz no seio da Cristandade. O consciencioso autor da "Legenda", Beato Raimundo de Cápua, atesta ter ouvido a "venerável Mãezinha" expor a Gregório XI seu pensamento a esse respeito: "Santíssimo Padre, não encontrareis meio melhor que a cruzada para estabelecer a paz entre os cristãos. Esses homens de armas, que entretêm a guerra entre os fiéis, irão de bom grado lutar a serviço de Deus. Poucos, com efeito, são tão maus que não consintam, de boa mente, em prestar a Deus um serviço que, ao mesmo tempo, lhes é agradável e lhes permite resgatar seus pecados. Extinto o foco das discórdias, não haverá mais incêndio. É assim, Santíssimo Padre, que obtereis muitos proveitos: ... a paz da Cristandade, a penitencia dos soldados e a salvação de muitos sarracenos" (Legenda, 2a parte, cap. X).
Essa "alma que tem fome de almas" entrevê um esplêndido futuro missionário como consequência de se levar a Cruz à mão armada até as terras do Islã: "Ó, quanto deleite se víssemos o povo cristão dar o condimento da fé aos infiéis. Recebendo a luz, logo chegariam estes a grande perfeição, como planta nova..., e assim produziriam flores e frutos de virtudes no corpo místico da Santa Igreja, a tal ponto que, com o perfume de suas virtudes, ajudariam a apagar os vícios e os pecados, a soberba e a imundície, que abundam hoje no povo cristão, e singularmente nos pastores" (carta 218).
Não são somente esses proveitos que recomendam a "santa e doce passagem sobre os malvados cães infiéis" (carta 145). Trata-se também de vingar o pundonor cristão, e de afastar o perigo muçulmano: "grande vergonha é para os cristãos, por certo, deixar os infiéis na posse daquele santo e venerável lugar, que de direito é nosso"(ibid.); "os infiéis vos convidam — escreve ao Papa — à santa passagem, ao aproximarem-se, cada vez mais, para arrebatar o que é vosso" (carta 218).
Mas esse "tão doce e santo mistério" devia ter sobretudo o sentido de sacrifício oferecido a Deus pelo bem da Igreja. É o que a nossa admirável mística exprime na frase que citamos no artigo anterior: "Dar o sangue por amor do Sangue".
"QUIMERAS" COMO AS DE SANTA JOANA D'ARC
Catarina desenvolveu grandes esforços em prol da realização da cruzada. Conservam-se trinta e seis cartas suas versando esse tema, e dirigidas a Gregório XI, ao Rei da França, à Rainha-mãe da Hungria, à Rainha de Nápoles, a Bernabó Visconti, ao "condottiere" Acuto... Tudo em vão: a "santa e doce operação" não teve lugar.
Não era essa, naquele século, a primeira vez que se levantava a questão do "passagium ultramarinum". Pode-se mesmo dizer que essa idéia era familiar aos Papas e Príncipes do "trecento". Em 1365, pouco antes de se iniciar a vida pública de Santa Catarina, tinha partido uma cruzada, que chegara a tomar Alexandria. Mas a cidade fora reconquistada ao fim de quatro dias, e a expedição, como as tentativas anteriores, fracassara. Com base nisso, uma biografia recente (aliás excelente sob muitos aspectos) censura afetuosamente o "ardor talvez inconsiderado com que Catarina se exauria em pregar a cruzada quimérica".
Nossa beguina previu a objeção e antecipou a resposta. Uma de suas cartas reconhece que a "doce operação" era humanamente impraticável naquele momento histórico. Mas logo acrescenta que a Deus tudo é possível. Sabia tão grande mística, por certo, que a Providencia se dispunha a derramar graças extraordinárias, capazes de mover à guerra santa seus contemporâneos endurecidos na tibieza e no pecado. A cruzada não era, portanto, uma quimera. Apenas, essas graças excepcionais não tiravam aos homens a infeliz possibilidade de recusá-las. Nossa jovem heroína mereceria, pois, censura se tivesse apresentado seu projeto como certamente realizável: mas isso ela nunca fez.
Se a França de Carlos VII tivesse recusado — como a França de Carlos VII tivesse recuado eram oferecidas através de Santa Joana d'Arc, os ingleses não teriam sido "boutés" fora do reino. Teríamos, por isso, o direito de chamar de quiméricas as promessas da donzela de Orleans?
Se abstrairmos destas considerações, não só a cruzada como todos os outros empreendimentos da filha dos Benincasa parecerão utópicas.
GRAÇAS A ELA, O PAPADO VOLTOU PARA ROMA
As ruas já estavam desertas em Genova naquela noite de outubro, quando os hospedeiros de Catarina anunciaram que um Eclesiástico desejava falar-lhe. Ao ver entrar o visitante de porte aristocrático e modos tímidos, vestido como um simples Padre, a Santa lançou-se reverentemente a seus pés. Era Gregório XI. A meio caminho de Avignon para Roma, novamente abalado pelos rogos e advertências de sua Corte de franceses, o Papa fugira à vigilância dos Cardeais para mais uma vez perguntar àquela que o trouxera até ali: realmente é vontade de Deus que eu restitua o Papado a essa cidade que perseguiu meus antecessores?
Espírito reto e generoso, já antes de conhecer a virgem de Siena fizera o Pontífice voto de transferir sua residência para a Diocese de Pedro. Mas repugnava à sua "índole melancólica e tímida" (Pastor) por em execução tão árduo empreendimento. Seria preciso vencer tantas resistências de seus parentes, de seus Cardeais, de toda a sua Corte, todos tão apegados à doce Provença. Seria necessário expô-los a perigos tão reais, no meio daquele povo do Patrimônio, embrutecido e sempre pronto a revoltar-se. E tudo seria tão difícil para ele que nunca estivera na Itália, que não falava uma palavra da língua de seus súditos ultramontanos.
Mas um dia o Papa começara a receber cartas em que essa jovem toscana exigia, em nome de Deus, que ele "efetivasse com verdadeira e santa solicitude o que já iniciara por um santo propósito: o seu advento" (primeira carta a Gregório XI). Com eloquência sobrenatural — e com uma santa liberdade temperada por imensa humildade — ela lhe demonstrava que esse era o seu dever, refutava suas possíveis objeções, ameaçava-o com os castigos de Deus, prometia-lhe o auxilio divino para o "avvenimento".
Ao mesmo tempo tinham chegado a Avignon notícias seguras das virtudes e milagres da jovem extática, e de seu enorme prestigio religioso e político em toda Itália. E, por fim, Catarina aparecera pessoalmente, com embaixada de paz da poderosa e revoltada Florença.
Já na primeira audiência que lhe concedera, o Papa compreendera que a enviada dos Oito da Guerra viera sobretudo com embaixada de Deus. Confirmara-o ainda mais nessa convicção o exame de três teólogos da Cúria, a que submetera a "mantellata".
Ao fim de três meses de insistências da Santa, Gregório XI embarcara com sua Corte desolada, rumo ao Patrimônio de São Pedro.
E durante a viagem, longe de Catarina, que seguira por terra, os Cardeais haviam logrado convencer o Papa de voltar à segurança e ao esplendor de seu palácio de Avignon.
Antes de partir, porém, ele vinha ouvir mais uma vez a extática de alma varonil. Sua consciência, que era reta, lhe impusera esse dever.
A história não registrou o que Caterina Benincasa disse a Gregório XI. O que é certo é que, confortado por essa entrevista, o Pontífice venceu todas as resistências, e dias depois embarcou para Roma.
A intervenção de nossa jovem Santa na questão do "avvenimento" foi bem definida por Pastor: "Se Gregório XI pôs em pratica sua já antiga resolução de regressar a Roma, cumpre atribuí-lo sem dúvida às inflamadas palavras que Catarina lhe dirigia com insistência. Não que ela fosse causa da resolução do Papa de voltar a Roma, porém contribuiu essencialissimamente para a execução desse plano" (loc. cit., p. 230).
Por ser matéria bem conhecida, dispensamo-nos de mostrar a magnitude do serviço que a jovem e graciosa "mantellata" prestou assim à Igreja.
O CISMA: UM SANTO APOIA O ANTIPAPA
“Deus me obriga — escrevia Catarina a Frei Raimundo — a me ocupar de uma multidão de empresas, que fracassam, todas, por causa da negligência daqueles que as têm a seu cargo, e sobretudo por causa de meus pecados, perpétuo obstáculo ao bem" (carta 344). Dos quatro grandes desígnios da virgem toscana, só o "avvenimento" se realizou plenamente em seus dias.
Ao morrer Gregório XI — escreve Pastor — "era lamentável o estado em que se encontravam as coisas eclesiásticas. Infelizmente, não se tinham posto em prática os projetos de remédio que, com incomparável liberdade de espírito, Santa Catarina de Siena havia indicado tantas vezes. Gregório XI teve um caráter demasiadamente irresoluto para proceder com energia nessa matéria, e concedeu também excessiva importância às objeções de seus parentes e dos Cardeais franceses que o rodeavam. E o que talvez mais influiu nesse ponto foi a guerra com Florença, que ocupou sua atenção de modo exclusivo... A questão da reforma estava por empreender quando o novo Papa assumiu o governo da Igreja.
"Honra, sem duvida, a Urbano VI o fato de ter, logo depois de sua eleição, começado a realizar a reforma por onde... ela se fazia mais necessária, a saber, pelas altas esferas da Igreja. Mas a forma e maneira com que empreendeu essa tarefa foram equivocadas. Em vez de proceder com prudência e moderação, como se impunha necessariamente em assunto tão espinhoso, deixou-se ele arrastar desde o princípio pela fogosidade de seu temperamento, de sorte que sua posição, de si mesma muito difícil, em breve lhe acarretou os maiores perigos" (loc. cit., p. 248 e ss.). Já mostramos que essa "apaixonada dureza" não passou despercebida a Catarina, e que ela não deixou de implorar ao Pontífice — cuja personalidade apresentava, a par desse, aspectos luminosos — que se moderasse. Mas foi em vão.
Logo após a eleição de Urbano VI, a nossa Santa lhe aconselhou também a nomeação de novos membros do Sacro Colégio, hábeis e virtuosos. A esse propósito escreve o ilustre historiador dos Papas: "O Pontífice cumpriu um dever sagrado quando começou a proceder energicamente contra a corrupção de seu tempo, sem perdoar aos mundanizados Cardeais. O fato de haver ultrapassado os limites que a prudência o obrigava a ter em conta, foi falta grave, porém facilmente compreensível pelo próprio vulto da corrupção. Urbano VI agravou esse erro diferindo tanto a nomeação de novos e aptos Cardeais de diversas nações, que quando quis fazê-lo já era demasiado tarde" (loc. cit., p. 254).
"Já se podia prever com bastante certeza uma revolução no Colégio Cardinalício, quando Urbano VI se indispôs também com seus amigos políticos, a Rainha de Nápoles e seu esposo, bem como o Conde Honorato Gaetani de Fondi" (loc. cit., p. 251).
Pouco depois, os treze Cardeais não italianos, alegando coação do povo sobre o Conclave, declararam nula a eleição de Bartolomeu Prignano. E no dia 20 de setembro de 1378, criaram um antipapa, que tomou o nome de Clemente VII.
Por culpa muito mais dos Cardeais mundanizados que de Urbano VI (Pastor, loc. cit., p. 255), começava o Grande Cisma do Ocidente, que duraria trinta e nove anos. Tão grande foi a confusão criada pelas intrigas dos rebeldes, que se tornou difícil ou impossível para os contemporâneos do drama discernir qual era o verdadeiro Sucessor de Pedro. Basta lembrar que um grande Santo como São Vicente Ferrer apoiou vigorosamente o antipapa Bento XII. Houve não só dois Papas e dois Sacros Colégios, como também, muitas vezes dois Bispos disputaram a mesma Diocese, dois Abades o mesmo Mosteiro, dois Párocos a mesma Paróquia (Pastor). Nações, Ordens Religiosas, familiar dividiram-se em duas facções que se chamavam reciprocamente de cismáticas. Foi das piores crises e humilhações que a Igreja jamais enfrentou.
Catarina estava em Siena quando os Cardeais se revoltaram. Chamada por Urbano VI, ela "veio sentar-se à cabeceira da Igreja Romana" (Gebhart, loc. cit.). O Papa fez a jovem irmã terceira falar em pleno Consistório, e apresentou-a ao Sacro Colégio como modelo de coragem. Já aludimos à prodigiosa atividade que ela desenvolveu nesse período, para obter adesões à obediência do Pontífice legítimo. A seus esforços se devem muitas das primeiras vitórias alcançadas contra o Cisma.
O espírito lúcido da Santa compreendeu, todavia, que já passara o momento dos meios humanos. Ela se lembrava do que o Senhor dissera ao confiar a reforma da Igreja em larga medida a uma jovem "popolana": "Se os homens desprezarem esta salutar humilhação, esmagá-los-ei sob meu justo julgamento". Foi então que Catarina ofereceu sua vida pela "doce Esposa de Cristo".
* * *
Muitos se escandalizaram na tribulação. Esta verdadeira filha da Santa Igreja sabia, porém, que não só as portas do inferno nunca prevaleceriam, senão também que um dia se cumpriria o que ela mesma profetizara:
"Quando estas angústias tiveram passado, Deus saberá, por meios invisíveis aos homens, purificar sua Santa Igreja. Ele dará vida nova ao espírito de seus eleitos, daí resultará tão grande reforma na Igreja de Deus, e tal renovação de santidade entre seus pastores, que só de pensar nisso meu espírito exulta no Senhor. A Esposa de Cristo, hoje desfigurada e vestida de farrapos, será então imaculadamente bela, e coroada do diadema de todas as virtudes. Os povos fiéis se alegrarão com a gloria que lhes advirá de tão santos pastores, e os infiéis, atraídos pelo bom odor de Jesus Cristo, voltarão ao verdadeiro Pastor, ao Bispo de suas almas" (Legenda, 2a parte, cap. X).
(1) "Santa Catarina de Siena — O zelo pela Igreja me queima e me consome", n° 78, de junho p. p.
OS CATÓLICOS FRANCESES NO SÉCULO XIX
VITÓRIA DA POSIÇÃO ULTRAMONTANA
Fernando Furquim de Almeida
O Concílio do Vaticano encerrou uma época da história da Igreja.
A Revolução Francesa, tentando abolir a antiga ordem temporal para melhor atingir a Religião, suscitou em toda a Europa uma reação que, por sua vez, preparou o aparecimento de movimentos católicos pujantes em todos os países, logo depois da queda de Napoleão.
A Revolução, no entanto, continuou a sua obra, já agora com bem maior moderação e prudência. Conseguiu assim introduzir no seio do Catolicismo a semente da discórdia, fomentando em muitos católicos mais em evidência a preocupação de conciliar a Igreja com as idéias que ela mesma impusera à humanidade.
O aparecimento do liberalismo católico, fruto dessa nova tática, criou a necessidade de se distinguirem os católicos que o eram pura e simplesmente, daqueles que se deixavam levar pelas novas correntes de opinião. Os ultramontanos, na realidade assim chamados pelos seus adversários, são exatamente os que se opuseram a essas inovações. A divisão foi se tornando cada vez mais profunda, e a história da Igreja no século XIX teve como eixo, até 1870, a luta entre ultramontanos e liberais.
O Concílio do Vaticano representou a vitória da posição ultramontana. Os bispos liberais, apesar de todo o brilho natural de que deram prova durante as sessões, apesar de lançarem mão de todos os recursos para impedir a definição dogmática da infalibilidade, nada conseguiriam. Na realidade, a Igreja, com exceção do pequeno grupo da chamada minoria, acreditava plenamente na infalibilidade e desejava vê-la proclamada como dogma.
O ultramontanismo conseguira jugular o surto dos novos erros, e na França, onde se deram os maiores choques, reduzira o liberalismo católico a um fenômeno de superfície. Vimos que este se restringira a seus próprios dirigentes, acompanhados por um pequeno grupo de galicanos remanescentes e por um ou outro intelectual católico que não se resignava a ser exclusivamente católico. Ao contrário, a massa dos fiéis e a grande maioria do clero e do laicato franceses eram nitidamente ultramontanas, e tinham conseguido se impor como uma das poucas forças vivas do fim do Segundo Império.
Sem desprezar a ação de D. Guéranger, Mons. Pie, Mons. Parisis e tantos outros, é inegável que Louis Veuillot foi o maior artífice desse esplêndido resultado. Lido sempre com avidez, o "Univers", combativo e ortodoxo até nos seus menores comentários, mantinha vivo o espírito verdadeiramente católico do povo francês. Além disso, o choque entre ultramontanos e liberais na França repercutia nos outros países, e assim Veuillot se tornou o sustentáculo da campanha contra os novos erros que serpeavam por todo o mundo católico.
Era natural que seus serviços fossem reconhecidos pela Santa Sé. Pio IX, tendo que agradecer novas contribuições recolhidas pelo "Univers" para as despesas do Concílio, aproveitou a oportunidade, e com um Breve elogiou o trabalho do valoroso campeão do Catolicismo.
Veuillot, ao enviar a oferta, escrevera:
"Santíssimo Padre,
"Prostrado a vossos pés, envio uma nova oferta conseguida pela subscrição aberta no Univers para vos ajudar nas despesas do Concílio.
"Esta subscrição, que continua, é alimentada pelo óbolo do pobre, sobretudo pelos óbolos do sacerdote, mais pobre na França que os mais pobres, porém mais generoso que os mais opulentos. Estes óbolos são atos de fé e de amor dirigidos ao Vigário de Jesus Cristo.
"Eles confessam vossa missão de autoridade e salvação. Agradecem a Nosso Salvador, que deu Pedro ao mundo, e que, em nossos dias inquietos, vos colocou nesse trono de luz e de justiça para abater, para confirmar e para edificar, de sorte que por esse magistério infalível nossos espíritos receberam a certeza, e nossas almas a paz.
"Para os subscritores, para meus colaboradores do Univers e para mim, feliz intermediário, imploro humildemente a bênção apostólica".
Pio IX, no Breve com que respondeu, tem expressões repassadas de gratidão e louvor:
"Dileto Filho, saudação e bênção apostólica.
"As provas de dedicação e de amor que de vós recebemos, em vosso nome e no de vossos colaboradores, quando Nos oferecestes a rica subscrição confiada a vosso jornal pelos fiéis, Nos foram muito agradáveis, e a oferta em si Nos deu grande prazer, porque é testemunho da piedade filial de um grande número, e também porque é fruto do combate que sustentais há muito tempo pela Religião e por esta Santa Sé.
"Esta dádiva Nos pareceu ainda mais bela e mais nobre, quando soubemos que foi principalmente pelo clero secundário da França, tão desprovido de recursos, que estes auxílios foram levantados para Nós. O número daqueles que concorreram para esta obra é tanto maior quanto menores devem ter sido as ofertas individuais. De onde resulta claramente que a antiga simplicidade da fé vive na maioria, e que este clero trabalha ardentemente para confirmar e promover a união estreita das almas com esta Cátedra da verdade. Nada Nos pode ser mais grato neste momento em que, com o coração cheio de aflições, vemos o perigo que fazem correr às almas os erros que se multiplicam em toda parte, e com que esforços os inimigos da Igreja e desta Santa Sé trabalham em seduzir Nossos filhos e separá-los de Nós.
"É por isso que vos felicitamos, a vós e a vossos colaboradores, pelo feliz resultado de vossos trabalhos; felicitamos aqueles que os fazem servir ao fortalecimento de sua própria piedade; felicitamos o clero que, unido numa ação comum, vos sustenta por seu exemplo e por seu zelo, e pedimos para todos uma recompensa digna de sua religião e de sua caridade. Como penhor do favor divino e de Nossa paternal afeição, damo-vos com amor a bênção apostólica, a vós, caro filho, a vossos colaboradores, à vossa família e aos outros que são objeto de Nossos louvores.
"Dado em Roma, junto de São Pedro, a 19 de maio de 1870, ano 24 de Nosso pontificado".
NOVA ET VETERA
A "tática de enevoar"
J. de Azeredo Santos
FAZENDO coro com os mentores da revolução universal, certas correntes católicas mostram acreditar na balela do advento inelutável do socialismo marxista. E por isso sustentam que, se a Igreja não quiser ficar à margem da sociedade igualitária e coletivista que estaria inexoravelmente para vir, deveria desde já aderir a esse movimento promotor da ascensão da massa proletária, estabelecendo diálogos e favorecendo encontros com os arautos da nova ordem.
Sobre este assunto a revista de cultura católica "Idea", publicada em Roma sob a competente direção de Mons. Pietro Barbieri, contem em seu número de fevereiro do corrente ano ilustrativo editorial intitulado "Diálogos e encontros". Dada a sua oportunidade, dele faremos a seguir um resumo para os nossos leitores.
Fatalismo historicista
Na Encíclica "Humani Generis" o Santo Padre Pio XII condenou o irenismo religioso, tendência de alguns movimentos católicos contemporâneos, que procuram atenuar a doutrina da Igreja para torná-la agradável ao paladar dos homens que representam a chamada cultura moderna.
Ora, acentua o citado editorial, "a mesma tendência irenista fez sua aparição no campo social. Correntes católicas lançaram suas vistas sobre o marxismo e, em vez de nele discernir o inimigo mortal da civilização cristã, a oposição dialética ao pensamento e à Fé católica, a negação total de todos os princípios sobre os quais se funda nossa concepção de vida, preferiram não avaliá-lo de modo totalmente negativo, e considerá-lo como um fenômeno moderno, um efeito da evolução histórica, a manifestação do trabalho de uma sociedade em caminho para novas estruturas. O marxismo aparece, assim, para as correntes irenistas, ora sob o aspecto de um campo estranho ao Cristianismo, no qual seria conveniente penetrar para nele agir de dentro, ora conto um movimento com o qual seria necessário estabelecer contacto, para libertar as tendências sociais positivas de que seria portador".
Duas cidades, dois mundos se acham atualmente em choque. Não se trata, porém, da oposição entre a cidade de Deus e a cidade do demônio, de que nos fala Santo Agostinho. A luta seria entre uma civilização reacionária, capitalista e burguesa que morre, e a civilização que de suas cinzas está nascendo pela ação do fermento revolucionário: "Ao cristão, sustenta-se, não é licito dividir o mundo em dois setores opostos e separados por um abismo intransponível; para ele não existe, não pode existir a cortina de ferro, de um lado da qual estaria o mal demoníaco e do outro o bem. Sem dúvida, o marxismo é animado por pressupostos inaceitáveis, tais como o materialismo, o fatalismo historicista e o ateísmo; entretanto, no seu interior jazem uma centelha de bem, um núcleo de verdade, que vão sendo libertados das escorias, para que assim resplandeçam e recuperem o valor primitivo. Há também outros, para os quais o futuro pertenceria às correntes marxistas, o coletivismo, com a transformação estrutural da sociedade, seria uma exigência da história, a ascensão das massas proletárias um acontecimento inelutável, impondo-se, por isso, que tanto a Igreja quanto os católicos acertem o passo com o proletariado, para não serem um dia deixados à margem ou arrastados pelas ruínas das atuais estruturas sociais".
Tática da cortina de fumaça
Por um e outro desses raciocínios, chega-se à necessidade dos diálogos e dos encontros: "A política, chamemo-la assim, dos diálogos e dos encontros com as correntes marxistas nasceu dessas alucinações ideológicas, nas quais, a uma sadia preocupação de apostolado e de dilatação do bem, se une um erro fundamental, uma avaliação parcialmente positiva, e não raro simplesmente positiva, do marxismo. A tendência irenista deseja desse modo estender a mão aos marxistas, caminhar lado a lado com eles, com eles se unir para alcançar o mesmo alvo da renovação social, da constituição das chamadas novas estruturas". E com essa aproximação, em vez de agir contra os erros do marxismo, renuncia a alguns postulados do pensamento cristão e capitula ante o classismo e o coletivismo daquela ideologia.
Como já o fizera com o irenismo teológico e moral, a Igreja não tardou a intervir para pôr em guarda os católicos contra esses enganos e falácias. Eis como o Santo Padre Pio XII se pronunciou sobre o irenismo social filo-marxista:
"Com profundo pesar, devemos a tal propósito lamentar o apoio emprestado por alguns católicos, Eclesiásticos e leigos, à tática de enevoar (dell'annebbiamento), para obter um efeito por eles próprios não desejado. Como se pode, ainda, deixar de ver que este é o escopo de todo aquele insincero agitar-se que leva o nome de diálogos e encontros? Com que finalidade, de resto, dialogar sem uma linguagem comum, ou como será possível encontrar-se, se os caminhos divergem, se uma das partes obstinadamente recusa e nega os valores comuns absolutos, tornando assim inexequível qualquer coexistência da verdade? Já pelo respeito ao nome cristão, cumpre desistir de prestar-se àquela tática, pois, como adverte o Apostolo, é impossível querer sentar-se à mesa de Deus e também à de seus inimigos (cfr. 1 Cor. 10, 21). E se ainda existem espíritos vacilantes apesar do doloroso testemunho de uma década de crueldade, o sangue há pouco derramado e a imolação de muitas vidas, oferecidas por um povo martirizado, deveriam finalmente persuadi-los" (Mensagem de Natal de 1956).
"Pelos frutos os reconhecereis"
Quando se torna escandaloso o diálogo com os comunistas, estende-se a mão a outras correntes socialistas, mediante a distinção gratuita entre o comunismo e o socialismo marxista. Ambos têm a mesma base teórica, a mesma tática de mistificação, e visam o mesmo alvo, que é o coletivismo integral. "A política da aproximação com os católicos, da distensão ou da chamada coexistência, iniciada pelo comunismo depois da derrubada do ídolo staliniano, ante cujo pedestal por longos anos permaneceu ele prostrado, e pelo socialismo marxista italiano depois do último congresso de Turim, está agora definida por Pio XII como tática de enevoar".
O irenismo dos diálogos e dos encontros, ao qual se entregaram alguns católicos, Eclesiásticos e leigos, segundo a explicita denúncia feita pelo Papa, é pelo mesmo apresentado como uma ofensa ao nome cristão. E para demonstrar a perversidade intrínseca do marxismo, e a consequente impossibilidade de diálogos e encontros com ele, a mensagem pontifícia relembra os fatos ocorridos na Hungria, numa tentativa de fazer cair as escamas dos olhos de certos católicos ainda iludidos pela tática da mão estendida.
"Pelos frutos os reconhecereis", disse Nosso Senhor Jesus Cristo a respeito dos filhos da iniquidade (Mt. 7, 16 e 20). Conclui o editorial da revista "Idea": "E aos católicos e Eclesiásticos filo-marxistas, desejosos de diálogos e encontros, o Papa repete hoje a mesma norma, recorda idêntico ensinamento".