Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 787 | página 30-31
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

reito igualitário” de ter tudo que os outros têm. Esquecem-se de que Nosso Senhor afirmou que “pobres os tereis sempre entre vós”, e que Ele próprio quis nascer pobre numa simples Gruta de Belém.

No conceito de “pobre” se incluem ainda, de cambulhada, os que vivem nas ruas porque culposamente se entregaram às drogas, à bebida, a desmandos sexuais ou outros, que provocaram as suas enfermidades. Ou, em casos não raros, também os que se deixaram dominar pela preguiça. Uns e outros merecem a nossa compaixão e são candidatos a receber de nós auxílio, mas sobretudo espiritual e moral, que os ajude a sair da miséria de alma (e também de corpo) em que se encontram.

No conceito atual de “pobre” se incluem ainda, de cambulhada, os que vivem nas ruas porque culposamente se entregaram às drogas, à bebida, a desmandos sexuais ou outros, que provocaram as suas enfermidades.

Obrigação da prática da misericórdia

Tanto no Velho quanto no Novo Testamento existe uma urgência da parte de Deus em que o homem tenha sentimentos de misericórdia. O supremo argumento é que Deus é misericordioso. Por isso, o homem, criado à sua imagem e semelhança, também deve sê-lo. É a lei da santidade, que em São Lucas (6,35) adquire uma forma categórica: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso”. Quer dizer, misericordiosos como o próprio Deus, isto é, visando mais à salvação das almas do que socorrer o corpo.

Segundo a Sagrada Escritura, há uma obrigação formal para o homem ser misericordioso: “Eu te mostrarei, ó homem, o que te é bom, o que o Senhor requer de ti: É que pratiques a justiça, que ames a misericórdia, e que andes solícito com o serviço do teu Deus” (Mq 6, 8). “O juízo será sem misericórdia para o que não usou de misericórdia” (Tg 2, 13). “Bem aventurados os misericordiosos, porque eles encontrarão misericórdia” (Mt 5, 7). “Porque o que eu quero é a misericórdia e não o sacrifício, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos” (Os 6,6).

Essa obrigatoriedade de praticar as obras de misericórdia vem do próprio mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Como o amor ao próximo nos é imposto por preceito, deve manifestar-se pelas obras, como nos ensina o Apóstolo virgem: “Não amemos só de palavras e com a língua, mas com obras e em verdade” (I Jo 3,18).

Segundo o moralista Pe. Royo Marin, todos temos a obrigação de dar esmolas segundo as nossas possibilidades e as necessidades do próximo. E essa obrigação é tanto mais peremptória quanto maior a necessidade do pobre, por exemplo, se estiver passando fome. Essa é uma obrigação grave e claríssima, decorrente do Direito natural e divino, pois a vida do próximo vale mais do que toda classe de bens supérfluos que tenhamos.4

Infelizmente, “está muito estendido entre pessoas de consciência reta e, mesmo entre cristãos praticantes, a ideia de que as obras de misericórdia são excelentes atos de virtude, mas de simples conselho. Não são, portanto, estritamente obrigatórias. Tal ideia, sem embargo, é completamente errônea. Na medida e grau das próprias possibilidades, o exercício das obras de misericórdia é de rigoroso preceito para todos. Santo Tomás expõe com sua lucidez habitual o raciocínio para demonstrá-lo (cfr. Suma Teológica II-II, q.32, a.5)”.5 Assim, conforme o caso, a omissão pode resultar em pecado mortal.

Na passagem citada, diz Santo Tomás: “É de preceito dar esmola do supérfluo e dá-la a quem se encontra em necessidade extrema. Fora dessas condições, é de conselho (e não de preceito), assim como é de conselho qualquer bem menor”.

Justiça Divina e Caridade

Jesus expulsa os vedilhões do Templo. Na Bíblia, o termo justiça vai além do âmbito da moral e do direito, embora o inclua, para adentrar-se na esfera mais profunda do religioso. E, como consequência da justiça divina, a justiça dos homens deve subordinar-se a essa dimensão religiosa.

Na Sagrada Escritura o termo justiça aparece com matizes de significados muito mais amplos do que na acepção moderna. Grosso modo falando, justiça significa o compêndio de todas as virtudes e de todos os valores, isto é, a santidade. Nesse sentido, estritamente falando, refere-se só a Deus: “Vós sois justo, Senhor! Vossos juízos são cheios de equidade, e vossa conduta é toda misericórdia, verdade e justiça” (Tb 3,2).

Por isso, “Justiça Divina” é empregada no Livro Santo não só para se referir ao julgamento que está de acordo com a Lei Divina, mas sobretudo à perfeição de Deus em todas suas dimensões. “Ele mesmo julgará o universo com justiça, com equidade pronunciará sentença sobre os povos” (Sl 9, 9); “E os céus proclamam sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar” (Sl 49, 6); “A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono, a bondade e a fidelidade vos precedem” (Sl 88,15).

De onde procede, por analogia, que na linguagem bíblica o “homem justo” é aquele que vive segundo Deus, cumprindo todos os seus mandamentos. “Quem segue a justiça e a misericórdia, achará vida, justiça e glória” (Pv 21,21). “Feliz o homem que persevera na sabedoria, que se exercita na prática da justiça, e que em seu coração pensa no olhar de Deus que tudo vê” (Ecco 14,22). “Se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes; ele ensina a temperança e a prudência, a justiça e a força” (Sb 8,7).

Desse modo, na Bíblia, o termo justiça vai além do âmbito da moral e do direito, embora o inclua, para adentrar-se na esfera mais profunda do religioso. E, como consequência da justiça divina, a justiça dos homens deve subordinar-se a essa dimensão religiosa.

Nesse sentido, o significado de justiça na Sagrada Escritura confunde-se por vezes com o da aliança de Deus com os homens, assim descrita: “Vistes o que fiz aos egípcios [castigando-os], e como vos trouxe sobre asas de águia, e vos tomei para mim. Se, portanto, ouvirdes a minha voz e observardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos; [...] Sereis para mim um reino sacerdotal e uma nação santa” (Ex 19, 4 a 6).

Assim: “O primeiro valor da justiça na Sagrada Escritura se move no âmbito da fidelidade, conformidade, sinceridade e cumprimento das exigências da Aliança de Deus. [...] Deus assume o compromisso de salvar; o homem assume o compromisso de fidelidade ao pacto. Esta atitude mútua realizada e vivida faz emergir o âmbito da justiça, configura sua própria noção. Em Deus a justiça é benevolência, salvação. No homem fiel, sua relação com Deus e com os demais em fidelidade pessoal, que impregna o ser de cada homem e consequentemente suas relações na comunidade”.6

Como decorrência do que ficou

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