Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 787 | página 28-29
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

Em estrito senso, a misericórdia é um atributo divino. Por sua natureza e essência, é a bondade de Deus enquanto socorre e alivia os nossos males. Como o principal mal é o pecado, o pecador arrependido se torna o principal objeto da misericórdia de Deus, onde ela mais se exerce através do perdão.

Deus é amor e, enquanto tal, misericordioso. Sendo misericordioso, este atributo divino é como o motor que guia toda a história da humanidade.

Com efeito, “a história da misericórdia de Deus é a mesma que a história da Humanidade e a história do próprio Deus: ‘A terra está cheia de sua misericórdia’ (Sl 32, 5). ‘A misericórdia de Deus vem da eternidade, e se seguirá estendendo eternamente sobre aqueles que o temem’ (Sl 102, 17)”.2

Quando na história da Criação aparece o pecado — ou seja, uma ofensa e uma ingratidão a Deus merecedora da condenação eterna — , então “intervém a misericórdia e busca o restabelecimento do plano de origem, e o próprio pecado é ocasião de fazer esse plano mais admirável por meio da Encarnação. [...] Quanto mais a Humanidade se afasta de Deus, tanto mais se afirma sua misericórdia para com os homens. A história do povo de Israel não é outra coisa senão a história das quedas do homem e das misericórdias de Deus. [...] ‘Ainda que uma mãe se esquecesse de seu filho pequenino eu não te olvidarei’ (Is. 49, 15)”.3

Na tocante parábola do Filho Pródigo, o Verbo Encarnado deixa transbordar a misericórdia do seu coração na imagem do pai que não só perdoa, mas recebe com alegria o filho prevaricador arrependido.

Em Jesus Cristo, a justiça e a misericórdia se completam

Sendo Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo é também o Deus de misericórdia. E isso transparece de modo claro e refulgente em todas as páginas do Novo Testamento. Quando iniciava a sua vida pública, falando na sinagoga de Nazaré, Ele atribui a Si a profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor [repousou] sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os contritos de coração, a anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a recuperação da vista, a pôr em liberdade os oprimidos e a pregar o ano favorável do Senhor” (Lc 4, 18-19). Essas palavras do Divino Redentor resumem as obras de misericórdia pregadas por Ele, como a Igreja ensina.

Sendo médico do corpo, Cristo Jesus o é sobretudo das almas: “Ó homem, são-te perdoados os teus pecados” diz Ele ao paralítico ao curá-lo de sua enfermidade (Lc 5, 20; 7, 48; Mt 9, 2). Na tocante parábola do Filho Pródigo, o Verbo Encarnado deixa transbordar a misericórdia do seu coração na imagem do pai que não só perdoa, mas recebe com alegria o filho prevaricador arrependido (Lc 15, 20 a 24).

Sobre a nossa regeneração pelo batismo (foto), diz São Paulo em sua epístola aos Efésios: “Éramos por natureza filhos da ira, como todos os outros. Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extrema caridade com que nos amou, estando nós mortos pelos pecados, deu-nos a vida em Cristo (por cuja graça fostes salvos), e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus com Jesus Cristo, a fim de mostrar aos séculos futuros as abundantes riquezas da sua graça, por meio da sua bondade para conosco em Jesus Cristo” (Ef 2, 3 a 7).

Misericórdia sobretudo para os que temem a Deus

Segundo as Sagradas Escrituras, a misericórdia de Deus se exerce sobretudo em relação aos que lhe são fiéis: “Sua misericórdia se estende de geração em geração, sobre os que O temem” (Lc 1, 50).

Esse é um aspecto frequentemente desprezado nos dias de hoje, quando se fala de misericórdia. Na acepção moderna do termo, ela se transformou numa espécie de cumplicidade, sobretudo em relação aos malfeitores e prevaricadores que não querem deixar seu pecado; ou aos chamados “injustiçados” que, ao contrário de outros, não possuem bens. Isso independente de amarem ou não a Deus, de O temerem ou não. Daí o fato de, no Sínodo dos bispos realizado este ano em Roma, muitos pregarem, sob o pretexto de “misericórdia”, a cumplicidade em relação aos “recasados”, ou seja, às pessoas que vivem objetivamente no pecado, ou aos chamados “casais” homossexuais.

A misericórdia deve visar mais a alma que o corpo

Por outro lado, a misericórdia deve visar mais à alma que ao corpo. As obras de misericórdia espirituais são em si superiores às materiais, pois têm como objeto a parte mais nobre do homem que é a alma. Assim como devemos procurar o bem de nossa própria alma antes que o do corpo, também devemos atender às necessidades espirituais do nosso próximo antes, ou ao mesmo tempo, que as do corpo. Desse modo, corrigir os que erram, dar bom conselho, ensinar ao que não sabe, em si mesmo é superior a simplesmente dar de comer a quem tem fome ou vestir os nus. Evidentemente uma coisa não exclui a outra, e o ideal é somá-las.

Fala-se muito em ajudar os pobres, não tanto porque eles são necessitados, o que seria louvável, quanto por se lhes atribuir um “di-

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