ria-se a ele de todas as partes, não só um a um, mas em grandes grupos e às centenas, como se ele fosse o Anjo Rafael e um médico descido do Céu; e, segundo o testemunho daqueles que o acompanhavam ordinariamente, ninguém jamais retornou descontente, mas cada um bendizia a Deus de ter recebido o cumprimento do que desejava”.*
Alguns dos grandes milagres operados pelo santo
Dentre os mortos que ele ressuscitou, destaca-se seu sobrinho Nicolas. Este desejava ardentemente fazer-se monge na Ordem que seu tio acabava de fundar, mas sua mãe, por apego humano, a isso se opôs tenazmente. O rapaz adoeceu e morreu. Seu corpo foi levado à igreja do convento, e Francisco pediu que o conduzissem à sua cela. Passou a noite em lágrimas e orações, obtendo assim a sua ressurreição.
No dia seguinte, de manhã, quando sua irmã foi assistir ao sepultamento do filho, Francisco perguntou-lhe se ela ainda se opunha a que ele se fizesse religioso. Ao que ela respondeu em lágrimas: “Ah! se eu não me tivesse oposto, talvez ele ainda vivesse”. — “Quer dizer que você está arrependida?” — insistiu o santo. — “Ah, sim!”. Francisco trouxe-lhe então o filho são e salvo, que a mãe abraçou em prantos, concedendo a licença que antes recusara.
Outro caso famoso foi o da ressurreição de um homem que havia sido enforcado três dias antes pela justiça. Restituiu-lhe não só a vida do corpo, mas também a da alma.
Mas o fato mais extraordinário, e que segundo se sabe só ocorreu com Francisco, foi o de ter ressuscitado duas vezes uma mesma pessoa. Certo Tomás de Yvre, habitante de Paterne, trabalhando na construção do convento dessa cidade, foi esmagado por uma árvore. Levado ao santo, este lhe restituiu a vida. Tempos depois, ele caiu do alto do campanário, espatifando-se em baixo. O santo restituiu-lhe novamente a vida.
Coroamento de todas as suas virtudes
Foi durante esse tempo que lhe apareceu o Arcanjo São Miguel, seu protetor e da nascente Ordem dos Mínimos, trazendo-lhe uma espécie de ostensório em que aparecia o sol num fundo azul e a palavra Caridade, que o Arcanjo recomendou ao santo que tomasse como emblema de sua Ordem.
Francisco passava as noites em prece, mal dormindo sobre umas pranchas. Observava uma quaresma perpétua, às vezes comendo a cada oito dias, tendo mesmo passado uma quaresma toda sem alimento, à imitação de Nosso Senhor. Seu hábito era de um tecido grosseiro, que ele portava dia e noite, mas que nem por isso deixava de exalar agradável odor. Seu rosto, sempre tranquilo e ameno, parecia não se ressentir das austeridades que praticava nem dos efeitos da idade, pois era cheio, sereno e rosado.
O coroamento de todas as suas virtudes consistia numa admirável simplicidade. Ele era bom, franco, cândido, serviçal, sempre disposto a fazer o bem a qualquer um. Foi esse espírito que ele comunicou a seus filhos espirituais.
Francisco era dotado do dom da profecia. Segundo um de seus biógrafos, dele se pode dizer, como do Profeta Samuel, que nenhuma de suas predições deixou de se cumprir. Assim, profetizou que os turcos invadiriam Otranto, na Itália, e que esta seria reconquistada pelo Rei de Nápoles; havia já predito que os mesmos tomariam Constantinopla, o que ocorreu.
Os demônios não podiam resistir-lhe, e foram inúmeros os casos de possessos que ele livrou do jugo diabólico.
Embora analfabeto, pregava com tanta sabedoria, que pasmava a quem o ouvia. E como tinha em grau heroico a virtude da sabedoria e as virtudes cardeais — prudência, justiça, temperança e fortaleza — , elas brilhavam em seu modo de ser e agir, como também em suas palavras. Por isso, sem o menor constrangimento, podia conversar e dar conselhos a Papas, reis e grandes deste mundo.
Expansão da Ordem dos Mínimos para outras nações
A fama de suas virtudes chegara até a França, onde Luís XI fora atacado por doença mortal. Por isso, pediu ao santo que fosse curá-lo. Mas este só partiu para aquele país com ordem formal do Papa. A viagem revelou-se providencial para a expansão de sua Ordem não só na França, mas também em outros países da Europa, como Alemanha e Espanha.
Assim que esteve com o rei, São Francisco de Paula discerniu que a vontade de Deus não era de curá-lo, mas de levá-lo desta vida. E o disse claramente ao soberano, preparando-o para a morte. O monarca confiou-lhe seus filhos, principalmente o delfim, então com 14 anos.
Francisco foi o confessor da Princesa Joana, que depois de repudiada por seu marido, o futuro Luís XII, fez-se religiosa e mereceu a honra dos altares.
Foi por conselho de Francisco que o Rei Carlos VIII casou-se com Ana de Bretanha, herdeira única daquele ducado, que veio assim unir-se ao Reino da França.
Entre outros grandes carismas, São Francisco de Paula era dotado de uma graça especial para obter de Deus o favor da maternidade para mulheres estéreis. Muitos milagres desse gênero, alguns em casas reais ou principescas, foram relatados no processo de canonização do santo em Tours.
Suas devoções particulares consistiam em cultuar o mistério da Santíssima Trindade, da Anunciação da Virgem, da Paixão de Nosso Senhor, bem como os santíssimos nomes de Jesus e Maria.
A “segunda morte” de São Francisco de Paula
Nascido há exatos 600 anos, o santo faleceu na Sexta-feira Santa do ano de 1507, aos 91 anos de idade. Seu corpo permaneceu incorrupto até 1562. Nesse ano, durante as Guerras de Religião, os protestantes calvinistas — como o santo havia predito — invadiram o convento de Plessis, onde estava enterrado, tiraram seu corpo do sepulcro e, sem se comover de vê-lo em tão bom estado, queimaram-no com a madeira de um grande crucifixo da igreja.
O santo foi assim como que martirizado depois de sua morte. Entretanto, apesar do ódio dos inimigos da fé, sua glória permanece para sempre.
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