terna era a que devotava aos anjos e aos santos.
A magna obra de Santo Tomás de Aquino
Como surgiu a grande obra filosófica e teológica de Santo Tomás? Como discípulo de Santo Alberto Magno, os dois santos se deram conta da dificuldade que havia naquela época em canalizar os estudos filosóficos, corrigindo e depurando Aristóteles, para que sua filosofia pudesse servir eficazmente à Teologia. Para eles, “a Filosofia deveria ser cultivada sobre bases mais amplas, não se contentando somente com Aristóteles, nem com Platão, mas procurando harmonizar entre si, numa síntese nova e superior, o verdadeiro existente em ambos”.6 Do mesmo modo, “a própria Teologia deveria também ampliar suas bases, servindo-se da Filosofia já depurada e mais bem cultivada, além do argumento tradicional de autoridade”.7
Essa obra magna foi encomendada pelo Papa a Santo Tomás, que a levou a cabo com toda a força de seu talento e de sua piedade, sobretudo com a monumental Suma Teológica. Tal era seu domínio sobre a matéria, que ele realizou esse imenso trabalho ditando ao mesmo tempo a três ou quatro amanuenses.8
Título de Expositor por excelência
Com a sua assombrosa capacidade de trabalho, Frei Tomás pôs mãos à obra. E, “em vez de trabalhar sobre Aristóteles, transmitido em traduções infiéis e glosado por árabes e judeus, como fez seu mestre [Santo Alberto Magno], procurou isolá-lo de todas suas aderências, e purificá-lo de todas as incorreções, graças a uma tradução direta e fiel de seu amigo Guilherme de Moerbeke, feita a partir dos melhores manuscritos gregos. E, sobre tal base, empreendeu um comentário literal de suas obras principais, verdadeiro modelo em seu gênero por sua sagacidade e exatidão, que lhe mereceu o título de Expositor por excelência”.9
“Ascensão do pensamento humano”
Pelo que “a Filosofia de Santo Tomás é o ponto culminante de uma lenta e laboriosa ascensão do pensamento humano”,10 “a síntese filosófica mais perfeita que o engenho humano criou”,11 e “a síntese de uma filosofia perene”.12
Por isso, “com Santo Tomás começa verdadeiramente uma nova época da Filosofia e da Teologia; a mudança sofrida por elas foi, em realidade, profunda e gigantesca. A colaboração da fé e da razão na obra mancomunada da ciência teológica ficava assegurada para sempre, por estar fundada sobre bases inamovíveis”.13
“Homem mais sábio até o fim do mundo”
Santo Alberto Magno, que foi seu mestre e o conhecia muito bem, dizia de seu discípulo “que era a flor e a honra do mundo, o homem mais sábio do seu tempo até o fim do mundo, sem temor de ser superado por ninguém, cujos escritos brilham sobre todos os demais por sua pureza e sua veracidade”.14
E o futuro Papa Clemente VI, fazendo o panegírico do santo na primeira vez que se celebrava sua festa na Universidade de Paris (7 de março de 1324), “compara sua sabedoria à de Salomão; porque, assim como o Rei sábio superou nela todos os hebreus, egípcios e orientais, assim Santo Tomás excedeu em saber a todos os filósofos e teólogos, havidos e por haver, na Universidade parisiense. E acrescenta que sua doutrina é verdadeira, sem contágio algum de falsidade, clara sem sombra alguma nem enfado de obscuridade, útil e frutífera sem deixar-se levar de uma curiosidade excessiva nem de vãs sutilezas, é copiosa e abundante por sua variedade e universalidade”.15
Por sua vez, o Beato Urbano V o chama “Doutor egrégio que, com seus ensinamentos saudáveis e transparentes, iluminou a Igreja universal, pondo de manifesto os enigmas da Escritura, desatando os nós de suas dificuldades, elucidando suas obscuridades e aclarando as dúvidas que surgem em seu estudo”.16
“Não há erro que não tenha demolido”
Já o Beato Pio IX “celebra seu gênio sobre-humano, que lhe permitiu escrever insuperavelmente sobre as coisas divinas e humanas, merecendo a aprovação do próprio Deus. Porque, na realidade, deduziu toda a ciência de princípios incontestáveis e invulneráveis, e a organizou em um corpo de doutrina claramente disposto com tal arte, que não há verdade que não tenha captado, nem erro que não tenha demolido”.17
O célebre convertido inglês, cardeal Manning, analisando a situação em que estava o mundo em seu tempo, isto é, em meados do século XIX, afirma: “A moderna Filosofia quis fazer do homem um Deus, mas um Deus que tem olhos e não vê, que tem ouvidos e não ouve. Duvida de tudo, não admite nada, agita-se desesperadamente em um agnosticismo universal. Só se pode curar tamanha doença com a clara Filosofia do Doutor de Aquino”.18 Como desde então o mundo não fez senão decair, pois muitos filósofos e teólogos se tornaram praticamente ateus e até subversivos, daí a necessidade premente de se voltar à escolástica e à sua mais alta expressão, o tomismo.
“Reconduzir pelo Rosário a humanidade extraviada”
Mais tarde Leão XIII, que foi cognominado o Papa de Santo Tomás e do Santo Rosário, “expressa sua convicção profunda e sua vontade decidida de dirigir as inteligências pela doutrina de Santo Tomás, e os corações pelo Rosário; quer dizer, de reconduzir a humanidade extraviada aos caminhos da verdade e da verdadeira vida por esses dois meios eficacíssimos de salvação”.19
Na encíclica Aeterni Patris, esse Pontífice trata da “necessidade e utilidade de uma Filosofia sã e robusta, que possa servir convenientemente à fé sem menoscabo de sua própria dignidade de ciência humana”. Ora, “a Filosofia de Santo Tomás possui eminentemente essas qualidades”. Pois, “dotado de um engenho aberto e penetrante, de uma memória fácil e retentiva, de uma vida sem mancha, sem outro norte que a verdade, e imensamente rico em conhecimentos divinos e humanos, foi comparado justamente ao sol que fecunda a terra com o calor de suas virtudes, e a enche e ilumina com o resplendor de sua ciência”. Pelo que “é necessário voltar à Filosofia de Santo Tomás,
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