(continuação)
RESISTENCIA ARMADA
"Três Cardeais que são objetos de admiração para os Anjos e para os homens
deste ano, quinto centenário da Carta “Cum his superioribus annis” de Calixto III.
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Antes de tudo, sobre um ponto de fato. Não haja dúvidas. A situação dos católicos é a mais aflitiva, nos países de atrás da cortina de ferro. A este respeito, as esperanças de muitos elementos “otimistas” e “confiantes” não têm fundamento na realidade.
O Soberano Pontífice começa por externar naquela Carta Apostólica como lhe fica “contristado o coração, ao considerar as condições penosas em que padece a Igreja em muitas regiões do mundo em consequência do materialismo ateu”.
Em seguida, denuncia a perseguição que pesa sobre a Hungria, a Albânia, a Bulgária, a Tchecoslováquia, a Iugoslávia, a Rumânia, bem como sobre “os povos da Alemanha e Polônia” e “os que habitam as regiões vizinhas ao Leste, e ao Norte ao longo do Mar Báltico”. Isto é, em todas as regiões do império soviético em que há aglomerações consideráveis de católicos, e estes podem constituir um perigo para o comunismo.
Há mais de dez anos, diz o Pontífice, “vós que habitais esses países estais na tristeza e na aflição”, e “a Igreja de Cristo está privada de seus direitos, se bem que em medidas diferentes segundo os lugares; as associações pias e as congregações religiosas são dissolvidas e dispersadas, e os Pastores são entravados no exercício de seu ministério, quando não são exilados, deportados ou presos; tentou-se até, temerariamente, suprimir as Dioceses de rito oriental e impelir por todos os meios para o cisma o Clero e os fiéis. Sabemos também que muitos são perseguidos de todos os modos por haver professado aberta, sincera e corajosamente a Fé, e por a ter defendido com fortaleza. O que mais Nos contrista é saber que o espírito das crianças e dos jovens é impregnado de doutrinas falsas e perversas com o intuito de os afastar de Deus e dos seus santos preceitos, em detrimento da vida presente e não sem risco para a vida futura.
“Nós, que pela vontade divina ocupamos esta Cátedra de Pedro, temos constantemente diante dos olhos este triste espetáculo; já tratamos dele em anteriores Cartas Apostólicas, mas ainda, hoje não poderíamos calar, sem faltar a Nosso dever”.
Depois de palavras comoventes, de apoio e conforto, dirigidas aos Emmos. Cardeais Mindszenty, Stepinac e Wyszynski bem como à Hierarquia e aos fiéis dos países de além cortina de ferro, o Santo Padre afirma: “É para Nós um grande reconforto saber que muitos dentre vós estão dispostos a sacrificar tudo, inclusive a liberdade e a vida, de preferência a expor a risco a integridade da Religião Católica. Sabemos que nisto numerosos Pastores deram testemunhos invencíveis de coragem cristã: vós sobretudo, Nossos caros Filhos Cardeais da Santa Igreja Romana, que vos tornastes objeto de admiração à face do mundo, dos Anjos e dos homens”.
Entretanto, como nos primeiros séculos da Igreja, não faltam infelizmente os que, dominados pelo desânimo, tendem a apostatar. A estes, dirige o Vigário de Jesus Cristo as seguintes palavras cheias de sabedoria e força: “Sabemos também, infelizmente, que a fragilidade e a fraqueza humanas vacilam, especialmente quando as provas e vexações duram tanto. Acontece então que alguns caem no desânimo, e perdem, o fervor; pior ainda, chegam à conclusão de que é necessário mitigar a doutrina de Jesus Cristo, e, dizem eles, adaptá-la aos tempos novos e às circunstâncias novas, enervando ou modificando os princípios da Religião Católica para os pôr de acordo com os erros deste século em progresso.
“A esses desalentados, e semeadores de desalento, os Pastores têm o dever de lembrar a afirmação solene do Divino Redentor: O Céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão (Mat. XXIV, 35), e de os exortar a que ponham sua esperança e sua confiança naquele cuja providência não se engana em suas disposições, e que nunca priva de sua assistência os que estabelece na solidez de seu amor (cfr. Missal Romano, orações do 7.º e do 2.º domingos depois de Pentecostes). Jamais com efeito o Deus onipotente permitirá que seus filhos fiéis e generosos sejam privados da graça e da força divina, e que, separados de Jesus Cristo, sucumbam desgraçadamente nesta luta pela salvação, e presenciem impotentes a ruína espiritual de seu próprio povo”.
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Assim, o documento pontifício enumera um a um os elementos típicos de uma grande perseguição: o território por ela atingido é imenso, numerosíssimos os fiéis que ela oprime, a própria Hierarquia, em suas figuras mais altas e representativas, não é poupada, os meios empregados são dos mais cruéis, em face da prova muitos são os que resistem e atingem a palma do martírio, mas outros há enfim que procuram numa apostasia velada ou franca o meio de salvar sua existência terrena. O motivo da luta é nitidamente religioso. Não se trata de uma ojeriza à influência latina: as Dioceses de rito oriental são até as mais diretamente visadas. Trata-se, isso sim, de um governo dominado pelo materialismo ateu que, coerente com sua péssima ideologia, deseja a completa extinção da Fé.
Ora - e este pormenor interessa sobremaneira - estas perseguições são movidas por Moscou, precisamente nos territórios que conquistou depois da última guerra. De onde impossível será não recear muitíssimo que, em outros países que conquiste, a Rússia proceda do mesmo modo.
Mas, dirá algum leitor, há nisto certo exagero. Pois nem toda a perseguição procede do Kremlin. Haveria temeridade em afirmar que tudo quanto se faz em Belgrado resulta de ordens vindas de Moscou. Pois ainda há bem pouco tempo as duas capitais estavam até em conflito.
Aceitemos a objeção, pelo menos argumentandi gratia.
Se a ruptura entre Moscou e Belgrado era sincera, é óbvio que Belgrado agiu por iniciativa própria, contra a Igreja. Como se explica que dois governos antagônicos entre si procedam em face da Igreja de maneira tão minuciosamente idêntica? Se entre esses dois governos só o que havia de comum era a ideologia, claro está que a ideologia é a responsável pelo que fazem de igual...
Note-se por fim que o discurso do Papa é posterior ao início de toda a “operação sorriso”. Ele é de molde a deixar bem certo que tal manobra não alterou em nada os termos essenciais da perseguição.
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Destarte, tudo leva a crer que, se vencerem a guerra, os russos espalharão seus erros por todo o mundo, e inaugurarão a maior perseguição religiosa da história.
À vista disto, qual o dever dos católicos? Em sua Carta Apostólica, o Santo Padre evoca uma situação muito análoga à atual, com a simples diferença de que era menos trágica. Os turcos, tendo vencido o Império Bizantino, ameaçavam a Europa Central. Seu domínio representaria o triunfo do maometanismo, por certo um adversário muito menos total da Religião Católica, do que o materialismo ateu.
“Verificando esta situação crítica, diz Sua Santidade, o infatigável Pontífice Calixto III julgou de seu dever exortar paternalmente os Pastores e fiéis do mundo católico a expiar seus pecados pela penitência, a restaurar a vida cristã em toda a sua integridade, a implorar o socorro eficaz de Deus por fervorosas orações. Além disto, com grande constância, aplicou-se por todos os meios a desviar dos fiéis o perigo, e por fim atribuiu ao socorro divino a vitória alcançada pelos heróis que, alentados pelas exortações de S. João de Capistrano e guiados pelo valente general João Hunyady, defenderam corajosamente a fortaleza de Belgrado. Para que a lembrança deste acontecimento fosse conservada na Liturgia, e para que todos os cristãos dessem graças a Deus, instituiu ele a Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se celebraria no mundo inteiro no dia 6 de agosto (cfr. Carta Apostólica “Inter divinae dispositionis”, de 6 de agosto de 1457)”.
E Pio XII conclui: “Antes de terminar esta Carta, queremos lembrar-vos como Nosso Predecessor Calixto III, em sua Carta Apostólica Cum his superioribus annis, tinha ordenado que diariamente se tocassem os sinos em momento determinado, a fim de incitar os fiéis de todo o orbe católico a dirigir suas orações a Deus onipotente e benevolente, para que afastasse do povo cristão o imenso desastre que o ameaçava. Hoje, os perigos a que estão expostas vossas almas e a Igreja Católica em vossos países não são menores. Por isto, quando ouvirdes o som dos sinos convidando à oração, lembrai-vos desta exortação e, animados com a mesma confiança no socorro divino, elevai, a exemplo de vossos antepassados, súplicas e preces a Deus”.
Assim, a reação do Papa Calixto III, e agora a do Papa Pio XII, é a mesma. Antes de tudo, recorrer aos meios sobrenaturais. Para aplacar a cólera divina, nada melhor do que a oração, a penitência, a reforma da vida cristã. Mas se a Providência põe a nosso alcance também o gládio do poder temporal, para a resistência à mão armada, cumpre usá-lo. Foram heróis dignos de todo louvor os que acorreram de várias nações da Europa a fim de, sob a direção de João Hunyady, combater contra o maometano invasor. A Providência abençoou a tal ponto seu esforço, que lhes deu a vitória. E para isto suscitou o zelo de um grande Santo como João de Capistrano, a cujas exortações se deveu o ânimo indômito com que os guerreiros cristãos lutaram até o fim.
Se em algum lugar da terra houver perigo iminente de que um país seja dominado pelo comunismo, e se neste lugar a resistência armada for a única possível, parece-nos certo que só merecerá louvor o católico que para lá se dirija a fim de derramar seu sangue.
NOTA INTERNACIONAL
NASSER: DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS?
Adolpho Lindenberg
Diante da nacionalização da Companhia do Canal de Suez, como típico episódio da guerra fria, dividiu-se a opinião pública ocidental nas três clássicas e tradicionais posições:
a) aqueles que são favoráveis à Rússia e por isso aplaudiram o ato "desassombrado", "altivo" e "patriótico" do ditador egípcio;
b) os que percebem que o controle absoluto do canal por um país que pertence inegavelmente a orbita soviética será uma assinalada vitória da Rússia, com fundas repercussões estratégicas e diplomáticas;
c) a grande e deplorável coorte dos paladinos da terceira e "equilibrada" posição: — "afinal, um país tem ou não tem o direito de nacionalizar as companhias que operam em seu território?", "se a nossa época tem-se caracterizado pela extinção dos odiosos colonialismos ocidentais (o colonialismo soviético não conta, porque seu nome é "ocupação provisória e protetora"), porque não acabar com esse símbolo do poderio da orgulhosa Albion?", "todos os conflitos devem ser resolvidos pacificamente, fazendo ambas as partes concessões; caso um dos litigantes se mantenha intransigente, convém prolongar indefinidamente as negociações, mesmo que com isso a espoliação que deu origem ao conflito se torne um fato consumado" (esse princípio evidentemente só se aplica quando a vítima da alegada espoliação é um país que atenta contra a paz mundial opondo-se ao "sagrado direito da Rússia de defender seus interesses").
Para nós, católicos, que compreendemos perfeitamente a ameaça para a Cristandade que significam as continuas vitórias da Rússia na chamada "guerra fria", constitui um dever tentar modificar os pontos de vista daqueles que ingenuamente defendem esses perigosíssimos "slogans" da "terceira posição".
A ilegalidade da desapropriação da Companhia do Canal de Suez poderia ser demonstrada pelo fato de sua existência como entidade particular de capitais estrangeiros ter ficado garantida até 1960 pelo acordo celebrado em 24 de junho de 1954 entre a Inglaterra e o Egito, segundo o qual as tropas britânicas entregaram aos egípcios a guarda da importante via marítima. O ato de Nasser é, portanto, ilegal não enquanto simples nacionalização de uma companhia particular e estrangeira (como talvez tenha sido o caso da desapropriação das companhias petrolíferas inglesas no Iran em 1952), mas sim enquanto constitui infração a um tratado firmado livremente por duas nações independentes.
Onde, porém, se manifesta ainda mais claramente a ilegalidade do golpe teatral e demagógico do "coordenador" do mundo árabe, é em sua frontal colisão com a verdade inconcussa de que não é licito a uma potência que, como o Egito, tem um processo de civilização inseguro e retardado, e possui vários pontos de conflito com outras nações, assumir com exclusividade o controle de uma via de comunicação vital para um grande número de países. O termo "vital" não é empregado aqui em sentido literário, mas no seu significado mais estrito: em caso, por exemplo, de uma guerra entre a Inglaterra e a França de um lado e a Rússia de outro, poderia constituir fator decisivo a faculdade do Egito de permitir a passagem de navios de guerra soviéticos do Mar Negro para o Mar Índico e de proibir o transito de qualquer belonave ocidental.
O Santo Padre Pio XII ensina que o Estado pode desapropriar uma empresa particular que por suas características tenha tal importância que possuí-la equivalha quase ao domínio da sociedade. Desse princípio podemos deduzir logicamente um segundo: a sociedade internacional deve poder desapropriar certa parcela de um território, desde que sua posse por um só Estado confira a este como que o domínio de todo um setor da vida internacional. Ora, haverá território mais importante para o governo da vida econômica mundial, e posição estratégica de importância internacional mais decisiva, do que o Canal de Suez?
Nasser, como seus congêneres Nehru, Soekarno e Burguiba, tem imprimido um caráter nitidamente socialista ao seu regime. Como explicar, portanto, seu sentido de domínio, delirantemente exclusivista, no que se refere ao Canal? Será ele mais um político que para uso interno tem um peso e uma medida, e para uso externo outra medida e outro peso? As grandes propriedades no Egito foram nacionalizadas com fundamento no bem do povo e do Estado. Não seria coerente internacionalizar (mediante justas compensações, é claro) o Canal de Suez no interesse de todos os povos da terra?
OS CATÓLICOS FRANCESES DO SÉCULO XIX
O grande inimigo de Montalembert
Fernando Furquim de Almeida
CONDENADOS pela Encíclica "Quanta Cura" e pelo "Syllabus", ameaçados de nova condenação pelo Concilio do Vaticano, e derrotados pela ação enérgica de Pio IX, os católicos liberais tiveram esperanças de salvar os últimos restos de seu partido com uma ação política cuja viabilidade lhes parecia assegurada pelo advento do Império liberal. Todos os seus líderes tinham um passado político brilhante e desde o golpe de Estado de Napoleão III militavam na oposição liberal.
Supunham por esse motivo que seriam bem recebidos pela opinião pública. Em maio de 1869 realizaram-se as eleições para a Câmara dos Deputados. Apresentaram-se como candidatos, entre outros chefes católicos liberais, o Duque de Broglie, o Conde de Falloux, o Visconde de Meaux e Augustín Cochin. Foram todos derrotados, e a causa do fracasso ficou bem patente nas objeções que a eles se faziam nas reuniões eleitorais que promoveram. Como um estribilho, os assistentes lhes perguntavam:
"Que pensais do Syllabus?" Ao sair de uma dessas reuniões, Cochin comentou: "O Syllabus será o fuzil que matará minha candidatura".
Montalembert acompanhava os acontecimentos de uma cadeira de rodas a que o condenara a moléstia que o levaria em breve à sepultura. Seu temperamento irrequieto sofria com a imobilidade, e nem os fatos mais evidentes, como essa derrota eleitoral, conseguiam convencê-lo da necessidade da moderação aconselhada por seus amigos. Achava que, os católicos-liberais não defendiam bem a sua causa, que deveriam combater com mais vigor e que tudo deveria ser dito. Um advogado de Paris, Lallemand, escandalizado com as atitudes dos católicos liberais, escreveu a Montalembert perguntando como conciliava ele seu ultramontanismo de outrora com o galicanismo que passara a defender. A resposta foi lamentável, e, o que é mais grave, o velho líder enviou-a à "Gazeta de França" para ser publicada. Vamos reproduzi-la para que os nossos leitores tenham uma ideia do que pode a paixão arrancar mesmo de um católico que tanto serviu a Igreja durante boa parte de sua vida.
"Peço-vos observar - escreve Montalembert - que o galicanismo, do qual eu era o adversário resoluto e vitorioso há vinte e cinco anos atrás, não tinha senão o nome de comum com o que reprovais no P. Gratry. Esse galicanismo, que trato de múmia, era aquele de que meu antigo colega e amigo, o Conde Daru, zombava outro dia, respondendo a M. Bouland: vós vos enganais de século! Era unicamente a intervenção opressiva ou intrigante do poder temporal nos interesses espirituais, intervenção que uma parte de nosso antigo e ilustre Clero da França aceitou, com frequência, muito facilmente ...
"Mas, quem poderia suspeitar, em 1847, que o pontificado liberal de Pio IX, aclamado por todos os liberais dos dois mundos, se tornaria o pontificado representado e personificado pelo Univers e pela Civiltà! No meio das aclamações unânimes do Clero daquela época em favor de uma liberdade como na Bélgica, quem poderia adivinhar a incrível reviravolta da grande maioria desse mesmo Clero, em 1852? Quem poderia prever o entusiasmo da maior parte dos doutores ultramontanos pelo renascimento do cesarismo, as arengas de Mons. Parisis; os mandamentos de Mons. de Salinis, e sobretudo o triunfo permanente desses teólogos leigos do absolutismo; que começaram por fazer tábula rasa de todas as nossas liberdades, de todos os nossos princípios, de todas as nossas ideias de outrora diante de Napoleão III, para vir em seguida imolar a justiça e a verdade, a razão e a história, em holocausto ao ídolo que erigiram no Vaticano?
"Se esta palavra, ídolo, vos parece muito forte, prestai atenção ao que me escrevia, a 10 de setembro de 1853, Mons. Sibour, Arcebispo de Paris:
"A nova escola ultramontana nos conduz a uma dupla idolatria: idolatria do poder temporal e idolatria do poder espiritual. Quando fizestes outrora, como nós, Sr. Conde, profissão estrepitosa de ultramontanismo, não entendíeis as coisas assim. Defendíamos a independência do poder espiritual contra as pretensões e usurpações do poder temporal, mas respeitávamos a constituição do Estado e a constituição da Igreja. Não fazíamos desaparecer todo poder intermediário, toda hierarquia; toda discussão razoável, toda resistência legitima, toda individualidade, toda espontaneidade. O Papa e o Imperador não eram, um, toda, a Igreja e, o outro, todo o Estado.
"Sem dúvida, há épocas em que o Papa pode se elevar acima de todas as regras, que são só para os tempos ordinários, em que seu poder é tão extenso quanto as necessidades da Igreja... Os ultramontanos antigos levavam isso em conta; mas não faziam regra da exceção. Os novos ultramontanos levaram tudo ao extremo e raciocinaram sem medidas contra todas as liberdades, tanto as do Estado como as da Igreja.
"Se tais sistemas não fossem de natureza a comprometer os mais graves interesses da Religião no presente e sobretudo no futuro, poder-se-ia apenas desprezá-los: mas quando se tem o pressentimento dos males que eles nos preparam, é difícil calar-se e resignar-se. Fizestes bem, Sr. Conde, de os estigmatizar.
"Eis como se exprimia há dezessete, anos o Pastor da maior Diocese da Cristandade, felicitando-me quando lancei um dos primeiros protestos contra o espirito que desde então não cessei de combater. Não é de hoje, foi em 1852, que comecei a lutar contra as detestáveis aberrações políticas e religiosas em que se resume o ultramontanismo contemporâneo.
"Eis, traçada pela pena de um Arcebispo de Paris, a explicação do mistério que vos preocupa e do contraste que assinalais entre meu ultramontanismo de 1847 e meu galicismo de 1870.
"Eis porque, sem poder nem querer entrar na discussão da questão que vai se decidir no Concilio, saúdo com a mais reconhecida admiração, primeiramente o grande e generoso Bispo de Orléans, em seguida os Padres eloquentes e intrépidos que tiveram a coragem de se colocar contra a torrente de adulação, impostura e servilismo em que corremos risco de nos afogar. - Graças a eles, a França católica não ficará muito abaixo da Alemanha, da Hungria e da América. Honro-me publicamente, e nada mais posso fazer, de tê-los por amigos, por confrades na Academia. - Não tenho senão um desgosto, o de estar impedido pela doença de descer à arena para acompanhá-los, não por certo no terreno da teologia, mas no da história, e das consequências sociais e políticas do sistema que combatem.
"Mereceria, então, ter a minha parte, e é a única ambição que me resta, nessas ladainhas de injurias, diariamente atiradas contra meus ilustres amigos por uma porção muito numerosa desse pobre Clero que se prepara tão tristes destinos, e que outrora amei, defendi e honrei, como ninguém ainda o fizera na França moderna.
"Aliás, tenho plena confiança no futuro.
"Na ordem política, já fomos libertados do regime que tantos espíritos falsos e servis aclamaram como o apogeu da ordem e do progresso; e vemos renascer a vida pública com a liberdade.
"Na ordem religiosa, continuo convencido, apesar das aparências em contrário, de que a Religião Católica, sem sofrer a menor alteração na majestosa imutabilidade de seus dogmas ou de sua moral, saberá se adaptar na Europa, como já o fez na América, às condições inevitáveis da sociedade moderna, e que continuará, como sempre, a grande consolação e a grande luz do gênero humano".
Essa carta foi publicada pela "Gazeta de França" no dia 7 de março de 1870. O escândalo que causou foi imenso. Os ultramontanos viam com tristeza o seu antigo líder, que tantos serviços prestara à Igreja, chegar ao extremo de chamar o Papa de ídolo, obcecado pela paixão política e pelo orgulho desmedido que não soubera combater. Os liberais, que não tinham sido consultados, viam toda a sua política comprometida pela imprudência do mais autorizado dos seus chefes. Mesmo o público não católico percebeu a queda de Montalembert, acostumado como estava, apesar dos seus desvios, a contá-lo entre os campeões da Igreja.
Uma semana depois, a 13 de março, morria o velho líder. Seu cunhado, o Cardeal de Mérode, ministro de Pio IX, enviou convites a todos os Bispos presentes ao Concilio para a missa de réquiem que mandara celebrar na igreja franciscana de Ara Coeli. Por ordem do Soberano Pontífice, porém, a cerimônia foi proibida, e o Papa fez rezar uma missa pelo morto, sem anúncios nem convites, à qual assistiu pessoalmente.
Toda a vida de Montalembert se resume nestas graves palavras de Pio IX, ao saber de sua morte:
"Morreu na França um homem que prestou os maiores serviços à Igreja. Não sei quais foram os seus últimos pensamentos, suas últimas palavras; o que sei, porque li com os meus olhos, é que esse homem tinha um grande inimigo: a soberba!"
NOVA ET VETERA
A enfermidade infantil do esquerdismo
J. de Azeredo Santos
Valer-se de todas as armas em favor da revolução universal é uma das principais características da ação pratica do marxismo-leninismo.
Em seu livro "A enfermidade infantil do esquerdismo no comunismo", escrito e publicado em 1920, Lenine acerbamente critica o espírito geométrico dos revolucionários que se obstinam na linha exclusivamente extremista, numa atitude rígida e isolacionista, por não compreenderem a necessidade dos compromissos com outras alas socialistas, ou mesmo com os liberais e burgueses.
A TÁTICA DO RECUO
Outra tática importante, e incompreensível para as vítimas da enfermidade infantil do esquerdismo, é a do recuo. Deve-se saber atacar, mas também retroceder, quando necessário e útil à causa revolucionaria. E se os bolcheviques obtiveram êxito nas fases decisivas da luta pela implantação da ditadura do proletariado, "foi exclusivamente porque denunciaram e expulsaram sem piedade os revolucionários de palavras, obstinados em não compreender que cumpre retroceder, que cumpre saber retroceder, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos parlamentos mais reacionários, nas organizações sindicais, nas cooperativas, nas mutualidades e outras semelhantes, mesmo as mais reacionárias" (Lenine, obra cit., edição Lautaro, Buenos Aires, 1946, p. 25).
Dá o antecessor de Stalin outro exemplo, que foi a vitória sobre os mencheviques obtida pelos bolcheviques. "Mas estes nunca teriam chegado a semelhante resultado, se não houvessem aplicado uma tática acertada, combinando a atuação clandestina com a utilização obrigatória das possibilidades legais. Na mais reacionária das Dumas, os bolcheviques conquistaram toda a cúria operaria" (obra cit., p. 25).
Sem esse trabalho de infiltração, de recuo, de compromisso, sem o uso das chamadas possibilidades legais, isto é, de toda uma série de medidas administrativas e legislativas obtidas através da influência comunista nos governos e parlamentos "reacionários", a causa revolucionaria ficaria grandemente emperrada.
O OBSTÁCULO DA CLASSE MEDIA
Lenine alude a uma importante razão de ser dessa tática. Segundo ele, o poder da burguesia, contra a qual a ditadura do proletariado move uma guerra implacável, consiste "não só na força do capital internacional, na força e solidez das relações internacionais da burguesia, mas na força dos costumes, na força da pequena produção. Pois, por desgraça, permaneceu no mundo muita pequena produção, e esta engendra o capitalismo e a burguesia constantemente, cada dia, cada hora, por um processo espontâneo e em massa" (obra cit., p. 17-18).
Ora, segundo a doutrina social católica, o fator capital da prosperidade e estabilidade de um povo vem a ser a existência de uma elite ciente dos seus deveres de liderança social e, juntamente com ela, de uma pujante classe média. De que isto é uma grande verdade, temos de algum modo a contraprova no fato de Lenine considerar essa classe média o maior obstáculo à realização dos planos comunistas. Ao contrário do que declamam certos observadores superficiais do problema comunista, não é em última análise contra o super-capitalismo, não é contra as grandes empresas plutocráticas que lutam os verdadeiros agentes da revolução marxista não infectados pela enfermidade infantil do esquerdismo geometricamente inflexível.
Para eles o grande obstáculo vem a ser o pequeno proprietário, o pequeno produtor, o pequeno burguês: "Suprimir as classes não consiste unicamente em expulsar os proprietários de terras e os capitalistas — isto já o fizemos com relativa facilidade — mas também em suprimir os pequenos produtores de mercadorias. A estes entretanto, é impossível expulsar, é impossível esmagar: dever-se-á entrar em entendimento com eles, pode-se (e deve-se) transformá-los, reeducá-los mediante um trabalho de organização muito largo, lento e cauteloso. Esses tais cercam o proletariado por todos os lados de elementos pequeno-burgueses, impregnam-no destes elementos, desmoralizam-no com eles, provocam constantemente no seio do proletariado recaídas de pusilanimidade pequeno-burguesa, de atomização, de individualismo, de oscilações entre a exaltação e o abatimento" (obra cit., p. 49-50). Mais ainda: "A ditadura do proletariado é uma luta tenaz, cruenta e incruenta, violenta e pacifica, militar e econômica, pedagógica e administrativa, contra as forças e as tradições da velha sociedade. A força do costume de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível" (p. 50). Mesmo porque, acrescenta Lenine, "é mil vezes mais fácil vencer a grande burguesia centralizada, do que vencer milhões e milhões de pequenos patrões. Estes últimos, com sua atividade corruptora invisível, imponderável, de todos os dias, produzem os mesmos resultados de que a burguesia necessita, que determinam a restauração da mesma" (p. 50).
O MISTÉRIO DAS CONIVÊNCIAS
Por outras palavras, a classe média desmente a teoria marxista da inexorabilidade da concentração capitalista e da consequente proletarização universal. E a ação diretamente revolucionaria e comunista seria impotente contra essa montanha instransponível. Que fazer, portanto? Remover esse obstáculo de modo sub-reptício, através da própria legislação e das medidas administrativas e fiscais das chamadas democracias reacionárias.
Que desde os tempos de Lenine tal tática vem sendo seguida com grande eficiência, só um cego pode deixar de perceber, tão notório é o fenômeno da destruição da classe media no mundo inteiro — e no Brasil de modo acentuado a partir do Estado Novo. Um grande tema correlato a ser estudado seria o do mistério das conivências que vêm tornando possível a execução desse plano comunista.