S. Luiz Grignion de Montfort aos pés da Rainha dos Corações
OS FILHOS DA VIRGEM LUTAM NA VANDEIA CONTRA A REVOLUÇÃO
Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira
Poucos acontecimentos históricos tiveram tão profunda repercussão na vida de todos os povos, quanto a Revolução Francesa. É ela a mãe do laicismo político e social; foi ela que ensinou os Estados a viver como se a Igreja não existisse.
Quando estudamos esse período da história, o amor às coisas da Fé nos sugere a indagação de quais foram as almas heróicas que na época se levantaram contra a Revolução e derramaram o seu sangue para impedir a apostasia da Filha primogênita da Igreja. E o amor à ordem social e política própria à civilização cristã nos leva a procurar, nas linhas ou nas entrelinhas dos livros de história, quais foram aqueles que desde logo viram até onde os princípios de 1789 levariam o mundo, e souberam se lhes opor.
O número de defecções foi desalentador. Luiz XVI chegou até a aprovar e assinar a Constituição Civil do Clero, que instituía a igreja cismática; só mais tarde soube ele se opor à Revolução, mas já era muito tarde para conter a avalanche avassaladora. Segundo as estatísticas mais dignas de crédito, quase metade do Clero francês, inclusive um Cardeal e seis Bispos, aderiram ao cisma.
É nos nobres que acorreram a Paris a fim de morrer pelo Rei, quando o souberam em perigo, que encontramos os heróis que procurávamos. É, ainda, nos Padres perseguidos, exilados e martirizados; nos fidalgos que saíram da França para, no exterior, lutar contra a Revolução; e, finalmente, nos camponeses do Oeste.
A população rural das províncias do Oeste da França viveu, durante aqueles anos trágicos, uma página que pode ser colocada ao lado das mais belas da história da humanidade. Embora pobres, incultos e pouco afeitos às lides das armas, aqueles camponeses ergueram-se vigorosamente contra a Revolução. E o fizeram, sobretudo, em nome da Fé. Tendo conseguido que alguns nobres os comandassem, constituíram o chamado "Exército Católico e Real", que a certa altura quase venceu a Revolução.
E aqui surge outra questão. Quem formou a alma desses homens simples, a ponto de fazer deles cruzados e mártires? Na Vandeia, região onde a insurreição se manifestou com maior vigor, é a São Luiz Maria Grignion de Montfort e aos seus discípulos que cabe essa gloria.
A história dos Missionários da Companhia de Maria, que foram os continuadores da obra do Padre de Montfort na Vandeia, é pouco conhecida, mas cheia de ensinamentos para os que admiram o grande Santo, e o querem imitar em nossos dias.
O Padre de Montfort, missionário no Oeste da França
São Luiz Maria Grignion de Montfort exerceu o seu apostolado nas provincial do Oeste da França, em princípios do século XVIII. De inicio, o Santo não se dedicou à pregação de missões. Durante muito tempo foi capelão de um hospital de Poitiers. Na cidade, sua virtude ficou célebre. Vivendo no mais extremo desapego dos bens materiais, só aceitava o alimento destinado aos pobres e exigia que lhe fosse dado o aposento mais modesto da casa. Percorrendo a cidade, socorria os doentes, as crianças abandonadas e os mendigos, falando-lhes das coisas de Deus.
Mas logo compreendeu que sua verdadeira vocação era outra: a de Missionário. Iniciou então suas viagens, percorrendo o Oeste da França em todos os sentidos, e pregando ao povo. Aos poucos foi adotando um método muito próprio, que dava a suas missões um atrativo todo especial.
Levava sempre consigo, para distribuir aos fiéis, grande quantidade de imagens e gravuras piedosas de todo o gênero, bem como terços e instrumentos de penitencia. Compunha cânticos religiosos, que fazia o povo entoar durante as cerimônias. Vários desses cânticos são conhecidos até hoje, e passaram mesmo a integrar o acervo da piedade popular na França.
Mas a nota mais característica de suas missões era a grandeza e a austeridade dos temas centrais das pregações: amor à Cruz, devoção a Nossa Senhora, horror ao pecado.
Tudo isso — e mais o seu título de Missionário apostólico, que lembrava sua filial adesão à Santa Sé — era frontalmente contrário ao jansenismo dominante na época, que não podia tolerar a ortodoxia e a virtude do Santo. Compreende-se, pois, que ele só tenha encontrado grande receptividade junto ao povo humilde, e que tenha sido até mesmo impedido de pregar em várias Dioceses.
Falecido São Luiz Grignion de Montfort, sua obra não se extinguiu. No hospital de Poitiers fundara ele uma pequena associação de moças pobres. Tendo tido grande desenvolvimento, essa associação se transformou na Congregação das Irmãs da Sabedoria, consagrada ao ensino e sobretudo ao cuidado dos doentes. Por outro lado, seus discípulos, organizados em Congregação Religiosa, e conhecidos como os Missionários de Maria, continuaram durante todo o século XVIII o apostolado que o Padre de Montfort desenvolvera por tantos e tãos frutuosos anos.
As duas Congregações tinham seu centro em Saint Laurent-sur-Sèvre, pequena cidade situada justamente no coração da região que se insurgiu contra a Revolução Francesa.
Verdadeiros devotos da Virgem e verdadeiros amigos da Cruz
Fiéis aos ensinamentos de São Luiz Grignion de Montfort, os Padres de Maria pregavam suas missões com grande aparato exterior. Sua vinda era anunciada com antecedência, e com o auxílio ele todos os recursos de propaganda consentâneos com respeito devido à palavra de Deus. O povo simples, sobretudo os camponeses, aguardava com ansiedade o início das pregações, que iriam dar novo alento à vida religiosa da cidade e de toda a região.
Afinal, chega o dia em que os Missionários de Maria devem fazer sua entrada. São sempre dois. Iniciadas as solenidades, o povo logo compreende que sua expectativa não era vã. Os Padres trazem consigo flâmulas, bandeiras, todo o gênero de objetos decorativos; distribuem imagens de gesso, impressos, crucifixos, terços, medalhas e gravuras piedosas, sobretudo do Sagrado Coração de Jesus. E suas pregações movem as almas. Eles falam com aquele ardor sobrenatural que era próprio às missões de São Luiz Grignion de Montfort; suas palavras atingem os corações nos pontos mais sensíveis. Suas homilias não são meras demonstrações de eloquência e de saber, como era do gosto do século XVIII. Pelo contrário, seu modo de falar é simples e despretensioso, mas eles são profundamente práticos, sabem apanhar ao vivo os vícios do povo, e ensinar-lhe as grandes verdades que ele mais precisa ouvir.
Os artifícios de que se utilizam nas pregações atraem os fiéis. Às vezes, os dois Missionários sobem juntos ao pequeno estrado que armaram na praça pública ou em frente à igreja. Um faz as vezes do demônio, e o outro, de Deus. Entabulam um diálogo, e o homem simples, o camponês rude logo vê que ali se está retratando exatamente o que costuma se passar em seu íntimo. Quantas vezes ele ouve em seu coração o que está dizendo o Padre que imita a falácia do demônio! Quantas vezes o Divino Espírito Santo lhe toca a alma dizendo o mesmo que o Missionário que fala em lugar de Deus!
Os Religiosos organizam procissões suntuosas, espalham bandeiras pela cidade, plantam mastros em cujo topo colocam flâmulas, levantam estrados para as pregações, armam altares profusamente ornados e erigem numerosas confrarias. Eles cantam, costuram, sobem em escadas para afixar suas bandeiras, fazem as vezes de sacristães: numa palavra, devorados pelo zelo das almas, prestam-se infatigavelmente a todo e qualquer serviço. Tudo neles atrai os fiéis para a vida de piedade e de mortificação. Para dizer tudo, fiéis discípulos de seu santo Fundador, são verdadeiros devotos da Virgem e verdadeiros amigos da Cruz.
Voltando para casa, no silencio de uma época que não conhecia o rádio nem os motores ruidosos, o camponês revive em sua alma as cenas que vem de presenciar, e degusta as verdades eternas que acaba de ouvir. Por muito tempo aquelas impressões permanecerão vivas em seu espírito. A boa semente não caiu em terreno sáfaro, e será fecundada pela graça de que os Padres de Maria são amplo canal. O humilde campônio reforma sua vida, instrui os seus no caminho da salvação. E assim, através de todo o século XVIII, prepara-se a guerra santa que, em 1792, deverá eclodir na Vandeia.
"Essas brochuras são incendiarias"
QUANDO se iniciaram os movimentos revolucionarias em Paris, os Missionários de Maria compreenderam que se abria para eles nova era de trabalhos e de lutos. Começaram logo a atacar a Revolução, Em princípios de 1791, foram proibidos de pregar. Não podendo exercer sua atividade apostólica normal, não se sentiram desarmados. Iniciaram o combate em outro campo.
Em Saint-Laurent-sur-Sèvre, possuíam eles excelente aparelhamento tipográfico. Era dali que saiam os impressos que costumavam distribuir durante as missões. Mas agora as necessidades da Igreja são outras. A tipografia de Saint-Laurent-sur-Sevre tornou-se um centro de difusão de material anti- rrevolucionário. As gravuras de Santos passaram a ser acompanhadas de notas e orações alusivas à situação político-religiosa. Imprimiam-se aos milhares, folhetos que incitavam o povo à recusa da constituição cismática que acabava de ser promulgada. Os títulos de algumas brochuras editadas pelos Missionários de Maria são sugestivos: "Conversa sobre a nova constituição francesa", "A Igreja e a constituição civil", "O modelo do cristão perseguido". Compreende-se que uma autoridade da região, dominada pelo espírito revolucionário, tenha escrito: "essas brochuras são incendiarias".
Na medida do possível, a pregação oral acompanhava a pregação escrita. Toda a Vandeia recebia com entusiasmo o convite para o martírio, que vinha de Saint-Laurent-sur-Sèvre.
No dia 1o de junho de 1791, cerca de vinte guardas nacionais invadiram o convento dos Missionários. Arrombaram as portas, pilharam e arrasaram tudo o que puderam. Dirigiram-se em seguida à casa das Irmãs da Sabedoria, e lá praticaram os mesmos atos de destruição. Na noite seguinte guardas nacionais embriagados invadiram outra vez a residência dos Padres de Maria. Em pouco tempo acabaram de destruir o pouco que na véspera tinha sido deixado intacto. Dois Religiosos foram levados como prisioneiros. Coube assim aos filhos de São Luiz Grignion de Montfort a gloria de ser dos primeiros vandeanos perseguidos pela Revolução.
Desse dia em diante, os Missionários de Maria passaram a viver ocultos. Acolhidos pelos camponeses em suas casas, onde eram venerados como santos, pregavam a resistência contra o novo regime revolucionário e cismático. Tendo, ao longo de quase um século, ensinado aquele povo a viver cristãmente, agora o ensinavam e incitavam a morrer pela Fé.
Uma lição para os apóstolos modernos
Já antes do advento da Revolução, os Missionários de Maria eram muitas vezes desprezados e rudemente perseguidos. Os espíritos voltairianos zombavam de seus modos simples e despretensiosos, de sua doutrina infensa às novidades do século. Mesmo católicos, ainda profundamente eivados de jansenismo, e corroídos pelo espírito revolucionário, os odiavam. Chamavam-nos derrisoriamente de ultramontanos, devido ao seu amor pela Sé Apostólica. Acusavam-nos de excessivamente devotos do Sagrado Coração de Jesus. Às zombarias se guiam as calúnias, e a estas as denúncias oficiais, que subiam até os parlamentos provinciais.
Instruídos, entretanto, pelo exemplo de seu santo Fundador, os discípulos de São Luiz Grignion de Montfort eram surdos a esses ataques. O que os preocupava era só a santificação própria e a salvação das almas. Que lhes importava saber que os voltairianos escarneciam de seus cânticos piedosos, se esses cânticos afervoravam as almas? Que lhes importava saber que os católicos impregnados de jansenismo os acusavam de excessivamente devotos do Sagrado Coração de Jesus, se eles conheciam o valor inestimável dessa devoção?
Quais tenham sido os frutos dessa ortodoxia heróica, desse apego amoroso às grandes devoções tradicionais na Igreja, dessa inconformidade com o século, a história no-lo mostra. Os Padres da Companhia de Maria foram formadores de mártires, e plasmadores de almas de cruzados. Graças a eles, a Revolução satânica de 1789 correu sério risco de malogro. Tivesse havido por toda a França apóstolos como os Missionários de Maria, e a Revolução teria sido esmagada.
Essa a grande lição dos Padres de Maria do século XVIII para os apóstolos de nossos dias. Lutando contra o mesmo inimigo que eles enfrentaram — a hidra revolucionaria — é com as armas que eles usaram que havemos de vencer. E essas armas são a loucura da Cruz e a devoção à Virgem SSma.
VERDADES ESQUECIDAS
NÃO IRAR-SE É UM PECADO FREQUENTE
São Bernardo
De uma carta ao Papa Beato Eugenio III, a respeito de um Religioso indigno que lhe havia extorquido de surpresa uma promoção:
Enfim, para satisfazer minha consciência, creio que devo acrescentar aquilo da Escritura:
"Irai-vos e não queirais pecar" (Sl. 4, 5), pois realmente pecaríeis se não vos irásseis com vivíssima indignação contra o impostor que tão astuciosamente se atreveu a surpreender-vos. ("Obras Completas del Doctor Melifluo San Bernardo, Abad de Claraval", trad. do Pe. Jaime Pons, S. J., Rafael Casulleras Librero-Editor, Barcelona, 1929, vol. V — Epistolario, carta CCLXVIII, p. 557).