Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 52 | página 02-03

(continuação)

ECCE POSITOS (conclusão)

Odeia-se a Eucaristia e o Papa quando se dá ao erro a mesma situação que à ortodoxia

urrando de ódio, tantos cegos e paralíticos curados, tantos possessos libertados, tantas almas aquietadas outrora pelo Filho de Deus.

Mas também! Quando receberam benefícios, sentiram uma secreta humilhação de se verem tão inferiores. Quando receberam ensinamentos, sentiram um fio de revolta a lhes minar quase imperceptivelmente a admiração: porque era Ele tão austero, porque exigia tantos sacrifícios? Vendo-O agora "derrotado", era o desabafo, o triunfo de todos os recalques, todas as vulgaridades, todas as invejas, o suco destilado de todas as infâmias. A grande revolta dos fariseus ímpios e entregues a Satanás, dos seus congêneres em todas as classes do povo, em frente única com as antipatias inconfessadas, e quiçá subconscientes, dos tíbios, produziu este resultado supremo: o deicídio, o maior crime de todos os tempos.

A EUCARISTIA E O PAPA

A Eucaristia é Jesus realmente presente, mas que não fala. O Papa é Jesus que fala, embora sem a presença real.

Em nossos dias, pode-se dizer que Jesus e o Papa são igualmente objeto do amor e do ódio do mundo inteiro. Do amor: as multidões se deslocam de toda a terra, para adorar Nosso Senhor nos Congressos Eucarísticos internacionais, para aplaudir o Vigário de Cristo em Roma. Até no mais fundo de uma sociedade já quase toda pagã, florescem almas que praticam uma virtude ilibada, ardem de zelo pela ortodoxia, e amam de todo o coração Nossa Senhora. São forçadas por vezes a renunciar a carreira, situação, bem estar, a suportar a hostilidade até de suas próprias famílias, mas continuam impertérritas. Os homens não sabem apreciar o valor dessa fidelidade, mas os Anjos louvam a Deus por ela, no mais alto dos Céus. Quando passamos os olhos, da civilização ocidental burguesa para o mundo gentílico, vemos missionários que fazem por Nosso Senhor proezas de atividade ou de heroísmo, só para lhe ganhar uma alma. Se olhamos para o triste mundo que se estende por detrás da "cortina de ferro", vemos almas heróicas que consagram as Espécies clandestinamente e as distribuem a corações devorados de fome eucarística.

Mas de outro lado, quanto ódio. Odeia-se a Eucaristia e o Papa, quando se promulgam leis contrárias à doutrina da Igreja, quando se difundem costumes que levam as almas ao inferno, quando se dá à heresia e ao mal a mesma liberdade que à ortodoxia e ao bem. Odeia-se a Eucaristia e o Papa quando se cruzam os braços diante do progresso do socialismo que nos conduz ao comunismo, negação completa da Eucaristia e do Papa.

E abusa-se da Eucaristia e do nome do Papa, quando se recebe a comunhão com tibieza, e depois se usam trajes, se frequentam ambientes, se apóiam princípios implicitamente neopagãos, e condenados pelos Papas. Imensa torrente de ódio militante e explícito, ou de inconformismos velados e implícitos, que constitui a força inimiga, a chocar-se contra o amor neste confuso e revolto século XX.

QUARESMA E SEMANA EUCARÍSTICA

Se a Paixão nos faz pensar em tudo isto, a Semana Eucarística nos dará por certo uma esplêndida ocasião para atestar nosso amor a Jesus e ao Papa.

Amor e ódio, sempre os haverá em torno de Nosso Senhor, que é na História o sinal de contradição, o que foi posto para ruína, e para ressurreição de muitos em Israel: "Ecce positus est hic in ruinam, et in ressurrectionem multorum in Israel: et in signum cui contradicetur" ( Luc. 2, 34 ).

Os povos são grandes e felizes, as almas são virtuosas e se salvam quando o amor que votam a Jesus Cristo e a seu Vigário sobrepujam o ódio que a um e outro têm os maus.

Para que o amor se intensifique, se converta em frutos de ortodoxia e castidade, devemos rezar ardentemente ao Divino Rei nesta fase de preparação da Semana Eucarística, apresentando nossas súplicas pelas mãos puríssimas de Maria, sem cuja intercessão nenhum pedido sobe até o Coração de Jesus.


NOTA INTERNACIONAL

O VERDADEIRO ALCANCE DOS ACORDOS DE YALTA

Adolpho Lindenberg

Ainda não é de nosso conhecimento o texto integral das atas da conferencia de Yalta, mas os telegramas já nos dão algumas amostras dos dislates diplomáticos que se cometeram na célebre reunião de primeiros ministros, onde foi decidida a entrega da Europa Central ao domínio soviético, a retirada do apoio norte-americano ao governo de Chiang Kai Chec, a ocupação da Manchúria e da Coréia do Norte por tropas comunistas, e numerosas outras concessões que, já no fim da guerra, permitiram à U.R.S.S. ascender à situação de segunda potência mundial.

Estas decisões sigilosas — de há muito aliás, convertidas em mero segredo de Polichinelo — tiveram, no entanto, uma consequência ainda mais grave e importante, que precisamos conhecer para avaliar devidamente a responsabilidade dos acordos de Yalta pelo fato de que a Rússia se tornou a maior ameaça de destruição que jamais pesou sobre a civilização ocidental desde Lepanto.

* * *

Até a invasão do território russo pelas tropas alemãs em 1941, tanto o nazismo como o comunismo eram vistos sem simpatia pelo resto da Europa e pela América. Esperava-se que uma guerra ou uma revolução interna apagasse a estrela de Hitler e de Stalin: tempo viria, dizia-se, em que alemães e russos, cansados de viver sob a férula totalitária, se rebelariam, derrubariam seus opressores e fundariam novas democracias. Quando o pacto Ribbentropp-Molotov identificou os interesses hitleristas e soviéticos, a opinião pública ocidental rapidamente estendeu ao bolchevismo a animosidade com que já então acompanhava a expansão nazista. Nazismo e comunismo passaram a ser considerados regimes nefastos, fora da lei, e a necessidade de combatê-los, ainda que fosse pela guerra, pareceu bem clara a grandes setores ideológicos e políticos das nações ocidentais.

Depois que os odiados e ainda invictos exércitos de Hitler invadiram a Rússia, e principalmente quando o curso da guerra começou a se inverter graças à resistência dos soldados soviéticos, a opinião pública ocidental cindiu-se. Enquanto uns viam nas tropas triunfantes de Stalin ameaça igual à representada por Hitler, outros já consideravam os russos como amigos leais e democratas convictos. A gratidão e o alivio que a chegada das forças soviéticas vitoriosas provocou nas populações subjugadas da Europa, e o sentimento de solidariedade para com os aliados russos que empolgou os norte-americanos, tiveram o poder mágico de substituir na fantasia dos ocidentais a figura do bolchevista totalitário, anarquista e cruel pela imagem mítica do abnegado, heróico, patriótico e altivo camponês russo.

Com a possibilidade próxima da vitória, as grandes potencial aliadas decidiram se reunir para estabelecer as bases da paz, e da vida internacional no após-guerra. Seria uma conferência de caráter não mais estritamente militar, mas sobretudo diplomático. Ia-se decidir o futuro da Europa e do mundo. Ora, mais importante do que conhecer as intenções com que os russos compareceriam a esse encontro, era saber a qual das duas tendências acima indicadas obedeceriam os ocidentais. Iriam discutir com o espírito prevenido contra a Rússia, ou pretenderiam estabelecer um modus vivendi cordial e perene com o regime comunista?

Ninguém ignora que o representante, americano, o Presidente Roosevelt, revelou-se francamente favorável a uma política de braços abertos para com os comunistas, e que o representante inglês, o premier Churchill, defendeu a conveniência de uma atitude reservada e prudente. Infelizmente para o mundo, e em especial para os Estados Unidos, a orientação entreguista, entusiastamente propugnada pelo criador do New Deal, saiu vencedora. A atuação do presidente norte-americano junto a Churchill, para convencê-lo a aceitar as reivindicações russas, foi tão notável que se pode considerar os acordos de Yalta como o coroamento de toda a obra política esquerdista de Franklin Delano Roosevelt.

Ficou assente, como lembrávamos de princípio, que os vermelhos ocupariam por tempo indeterminado grande número de países da Europa Central, teriam prioridade nas reparações a serem exigidas da Alemanha, dominariam a Manchúria e a Coréia do Norte, anexariam as ilhas Kurilas e a parte sul da ilha Sakhalina e, mais importante que tudo, os norte-americanos suspenderiam seus auxílios a Chiang Kai Chek. A Rússia, além do mais, recebeu foros de cidadania entre as nações chamadas democráticas, e o comunismo deixou de ser reputado uma ameaça para ser tido como um regime tão razoável quanto qualquer outro.

Esse desarmamento da opinião pública ocidental em relação ao comunismo, que perdurou até a invasão da Coréia do Sul, foi a conseqüência mais profunda e mais grave da catástrofe de Yalta. Para ela contribuíram não somente Roosevelt e seu séquito de conselheiros esquerdistas — entre os quais o espião Alger Hiss e o atual governador de Nova York, Averall Harriman — como também toda uma corrente mundial da opinião pública, que se professava favorável à política da mão estendida.

* * *

Fazemos votos de que a publicação dos acordos de Yalta reforce nos Estados Unidos o prestigio dos elementos clarividentes que discordaram de Roosevelt, abra os olhos dos ingênuos, e esclareça também os europeus que por tendências esquerdistas, por egoísmo ou por pusilanimidade, julgam possível uma colaboração com a Rússia soviética.


NOSSA 1ª PÁGINA

A última Ceia, por Giotto (1266-1337) — afresco na Capela Scrovegni, na cidade de Pádua.


São Tomaz de Aquino e o “sed contra”

Segundo a Escritura, diz S. Tomaz o verdadeiro ofício do sábio consiste nisto: “Meu coração meditará a verdade, e meus lábios detestarão o ímpio”

Cunha Alvarenga

ELIMINADOS certos acidentes e fatores ocasionais que acompanham as variadas fases da história da humanidade, permanece um substrato que resiste à ação do tempo e é válido para todas as épocas. Não querem perceber esta verdade aqueles que se acham dominados pela mania das novidades, pelo falso culto do progresso e pelo desejo de promover a qualquer custo a acomodação de todas as coisas com as teorias em voga, como se a novidade, segundo palavras do Santo Padre Pio XII na exortação ao Clero Menti Nostrae, fosse por si própria um critério de verdade.

Um dos principais motivos do preconceito anti-medieval se acha nessa apreciação defeituosa das características da natureza humana, na essência igual a si própria em todos os tempos. Não mais nos acharíamos em uma época sacral. Viveríamos em uma sociedade leiga vitalmente cristã, numa idade adulta em que os espíritos se acham emancipados de qualquer tutela, seja ela intelectual, política ou religiosa. A Idade Média, pelo contrário, teria sido uma época infantil, em que o mundo cristão dava os primeiros passos. Quadra rude, descaridosa, em que dominaria o espírito polêmico e de luta, em contraposição com a delicadeza, a compreensão, a tolerância dos tempos presentes.

Eis um exemplo típico dessa concepção: "Mestre Fidelino de Figueiredo, prefaciando urna edição dos Diálogos de Frei Amador Arrais, escreveu que na Idade Média não se conversava, discutia-se. Estavam longe os tempos dos irênicos diálogos de Platão... É verdade que um dos Mestres da época, São Bernardo, recebeu o cognome de Doutor Melífluo. Mas ao lembrar-me da sua luta encarniçada contra a teologia, ou antes, a estultologia de Abelardo, fico a pensar até na troca de uma letra no cognome: Doutor Felífluo talvez não fosse errado. Entre o erro e a verdade, não usavam panos quentes" (Santo Tomaz e o seu Tempo, Pe. Celso de Carvalho, em "O Diário" de Belo Horizonte, 4 de agosto de 1954). Consequência da diferença entre essa mentalidade aguerrida dos tempos medievais e os pacíficos dias que vivemos, é que também o método usado por São Tomaz não mais nos conviria, sobretudo o seu sed contra, "espécie de mangas arregaçadas na palestra das idéias, atitude de espírito em que nos habituamos a encontrá-lo" (art. citado).

Maniqueísmo, um erro ultrapassado?

No mar de rosas do mundo moderno, ainda perduraria como ranço de uma época já ultrapassada essa preocupação agora inútil, de combater os adversários das teses ortodoxas. Continua, assim, o nosso articulista: "Entre parêntesis, observamos que este método e esta mentalidade continuam como herança, talvez desnecessária, em nosso tempo, na escolástica dos Seminários. Nos manuais é quase obrigatória a apresentação dos adversários de cada tese. Certa vez, um colega meu perguntou ao professor quais os adversários de determinada tese, que não figuravam, excepcionalmente, no intróito do capítulo. E ao ouvir que não havia adversários da tese, fez um gesto de pouco caso e de enfado: Então, para que estudar isto? E antes de fechar o parêntesis reconheçamos que muitas vezes há no Clero um gostinho especial de polêmicas, ranço desta formação..."

É verdade que a seguir o autor do artigo em apreço acrescenta: "Mas dissemos que Santo Tomaz enfrentava adversários vivos. E está aqui uma lição para o ensino do tomismo hoje. Às vezes os seguidores de Santo Tomaz, muito fiéis à letra do mestre, não ao espírito, continuam a combater os mesmos adversários... quando o exemplo do santo nos levaria a considerar as doutrinas de hoje, em vez de exumar cadáveres de doutrinas mais que mortas..."

A Igreja, Mestra infalível da Verdade, nos ensina uma doutrina de vida, e não de morte. Em seu caráter militante, enfrenta os males de todas as épocas. É portanto de se louvar que no ensino vivo do tomismo se levem em consideração os desvios doutrinários de nossos dias. Mas será exato que os erros contra os quais se levantou a pena de São Tomaz como uma temível arma de guerra, hoje se achem transformados em cadáveres?

Esse parêntesis, o articulista o introduziu após dar como exemplo da combatividade de São Tomaz um incidente muito conhecido: participando de um banquete a convite de S. Luiz IX, o Santo Doutor conserva-se mudo, ausente, mergulhado nas cogitações que o preocupavam. De repente bate com o punho sobre a mesa e exclama: "Agora achei o argumento contra a heresia dos maniqueus!"

Relembrando verdades evidentes

Ora, é o caso de se perguntar: estará realmente morta e enterrada a heresia dos maniqueus? Ou se acha apenas oculta sob novas roupagens? Outra questão que também se pode formular é a seguinte: o fato de nos encontrarmos, infelizmente, em uma sociedade pluralista, em que o erro se acha pode-se dizer que intimamente misturado com a verdade, em que as mensagens falsas ou mais ou menos fracas vão de cambulhada com a mensagem verdadeira, tudo isso levaria forçosamente os discípulos de São Tomaz no mundo de hoje a depor as armas de combate e a entrar em blandiciosa confraternização com os adversários, aos quais, aliás, nem deveríamos dar esse nome, tão inofensivos e compreensivos seriam eles?

A resposta não nos será difícil: ao tempo em que viveu o Santo Doutor também havia novidades e espírito de novidades. A Igreja Católica já contava 1200 anos. É verdade que também os erros eram velhos e apenas disfarçados sob rótulos novos, como por exemplo o erro dos panteístas árabes Avicena e Averroes, ou dos panteístas cristãos representados pelos maniqueus. Como diz Maurice em sua "Medieval Philosophy", São Tomaz "não combateu moinhos de vento nem levantou homens de palha para abatê-los depois. Lidou com problemas reais. Esteve em contacto com seu tempo, no que diz respeito a todas as suas necessidades e aspirações intelectuais". E o combate ao erro é, segundo o Doutor Angélico, dever do mestre.

Vivemos numa época em que o mundo se acha avassalado por aquelas fábulas judaicas e por aquelas conversas próprias para enganar mulheres velhas, de que nos fala o Apóstolo. É preciso, portanto, se lembrem verdades evidentes. Não é evidente que a luz espanca as trevas, que a verdade é incompatível com o erro, que o amor de Deus impõe o ódio ao demônio, que a procura do Bem acarreta o combate ao mal? Os Mandamentos, mesmo os chamados positivos, contêm, além de um preceito, uma proibição, a começar pelo primeiro deles: Amar a Deus sobre todas as coisas. De fato, quais as consequências práticas deste maior dos Mandamentos, o Mandamento do Amor? — "Não terás outros deuses diante de Mim" (Ex. 20, 3). Eis a proibição da idolatria, do falso culto à ciência, do falso culto à filosofia, da adoração do criado. De modo desigual, punindo ou recompensando, trata o próprio Deus às criaturas conforme observem ou não este primeiro Mandamento de sua lei: "Eu sou o Senhor teu Deus forte e zeloso, que vingo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que Me odeiam; e que uso de misericórdia até mil gerações com aqueles que Me amam e guardam meus preceitos" (Ex. 20, 5 e 6).

O poder de calcar serpentes e escorpiões

SÃO TOMAZ foi não somente um homem de seu tempo, mas também um Sacerdote, um ministro de Deus, um Doutor da Igreja.

Qual a missão dos discípulos do Filho de Deus? "Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos" (Luc. 10, 3). Mais ainda: "O que vos ouve, a Mim ouve, e o que vos despreza, a Mim despreza. E quem Me despreza, despreza Aquele que Me enviou" (Luc. 10, 16). Mas não basta andar como cordeiro entre lobos e sacudir o pó das sandálias ao sair das cidades que desprezaram a palavra de Deus. O mal é como o veneno das serpentes e dos escorpiões. E que nos diz Nosso Senhor a este respeito? -- "Eis que vos dei o poder de calcar serpentes e escorpiões e de vencer toda a força do inimigo; e nada vos fará dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos maus vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos no Céu" (Luc. 10, 19 e 20).

Assim, trabalhar para o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, para ganhar o Céu, para dar ao próximo aquilo que desejamos para nós mesmos, e combater a Cidade do Demônio são coisas complementares, como a luz desfaz as trevas e a verdade exclui o erro. E por desagradável que seja calcar aos pés serpentes e escorpiões, o discípulo do Salvador há de fazê-lo enquanto tais seres

(continua)