Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 491 | página 12-13
| BRASIL REAL, BRASIL BRASILEIRO |

Não simplifique...

Leo Daniele

"O brasileiro é naturalmente cordial, inimigo de contendas... e não gosta de trabalhar. Não gosta; também, de estudar".

Se se fosse fazer uma enquete entre os nossos conacionais, perguntando quem acha verdadeira tal afirmação, creio que os índices de aprovação seriam extremamente altos.

E aqui já aparece - por detrás do problema da belicosidade ou não, operosidade ou não, aplicação ao estudo ou não - uma outra característica do brasileiro, que não deixa de ter sua nobreza: ele geralmente reconhece sem grande dificuldade os defeitos nacionais. Assume-os com certa naturalidade, certa flexibilidade, certa tranquilidade. Não há nele aquele chauvinismo que leva habitantes de outros países a negar a falha que lhes imputam no momento da enquete.

Este fato mostra que o brasileiro é naturalmente bastante aberto. Será também trabalhador?

O próprio Pero Vaz de Caminha parece ter intuído algo, quando ressalvou que nossa terra daria de tudo, mas "querendo-a aproveitar".

Li em um matutino paulista que Getúlio Vargas, desejando industrializar o País, contratou alguns compositores para lançarem canções que estigmatizassem a indolência nacional. E que as modinhas vieram. O artigo mencionava uma música de carnaval, que descrevia a funcionária pública "Maria Candelária", a qual batia o ponto e depois ia à modista, ao café e ao dentista, voltando no fim do expediente para bater novamente o ponto e ir para casa. Citava também a famosa música "caipira":

"Eta vida marvada,

Num dianta fazé nada.

Prá que se esforçá

Se num dianta trabalhá..."

Muita gente cantou estas músicas sem se dar conta de que havia nelas segundos intenções, e de que por detrás delas estava... o governo. Fazia parte das pretensões da Revolução de 30 acabar com a modorra nacional e industrializar o País. O que ela conseguiu foi, em linhas gerais, dar o primeiro impulso para tirar o Jeca Tatu de sua cabana. E depois para jogá-lo cada vez mais debaixo dos viadutos das grandes cidades.

Mas, afinal, o brasileiro é indolente?

Georges Clemenceau, cognominado "o Tigre", era um político agnóstico, perseguidor da Igreja e um esquerdista para sua época. Apesar disso, não se pode negar ter sido ele homem de visão penetrante, característica notória do espírito francês. Era também um espírito de notável energia, tendo sido, indiscutivelmente, o artífice da vitória francesa na Primeira Guerra Mundial.

Arguto conhecedor dos homens, e também um observador muito fino, esteve em nosso país e consignou suas observações. Eis um trecho do que escreveu:

"O Orissa atraca entre os grandes navios de carga em que, através do vão escancarado dos cais, filas de carregadores empilham sacas de café. O homem avança para a rampa com um passo vivo e, a partir do momento em que o camarada que o precede se desembaraçou de seu fardo, executa a mesma manobra, logo repetida atrás dele, e mostra uma cascata ininterrupta de sacos amarelos, desde as docas onde se armazenam montanhas de café, até as vastas laterais do transporte.

"O Sr. que ouviu muitas vezes, como eu mesmo, criticar a indolência criola, saiba que o brasileiro 'preguiçoso' não interrompe este duro trabalho a não ser para o estrito tempo da refeição e que, no extremo do verão, sob o sol mais ardente, nem mesmo faz 'siesta'".

Clemenceau, portanto, vislumbrou um significativo contraforte à opinião não destituída de alguma realidade, de que o brasileiro é preguiçoso. Em outros termos, dando-se-lhe estímulo necessário e uma ambientação que o convide ao esforço, pode ser que o brasileiro manifeste condições de operosidade verdadeiramente privilegiadas.

Ainda recentemente, chegou-me ao conhecimento nova ressalva no mesmo sentido. Uma firma japonesa que fabrica computadores na zona franca de Manaus verificou que os operários brasileiros se desincumbiam de sua tarefa mais rapidamente do que os seus colegas do próprio Japão, embora famosos, estes, por sua operosidade.

De seu lado, um banco de nosso País publicou anúncios no Exterior, nos quais assegurava que, se alguém precisa fazer algo em um prazo impossível, o jeito é procurar algum brasileiro. Gastar-se-ia uma fortuna nesta propaganda se isto não tivesse algum fundo de verdade?

Não é próprio do brasileiro (falo em geral) trabalhar apenas porque, nas vias de sua vida, ele encontra uma placa com uma seta que diz: "Trabalhe!" Outros povos poderão fazer isso. O nosso não. Mas se ele se decidir a fazê-lo, por razões que considera verdadeiras, tem todos os recursos humanos para ser um bom planejador, um bom executor, é certo, mas, sobretudo, um excelente improvisador.

O espírito de nossos conacionais não é complicado, mas é complexo.

O que vale para o trabalho, vale para a luta. O escritor Hernani Donato publicou documentadíssimo "Dicionário das Batalhas Brasileiras" (IBRASA, São Paulo, 1968) mostrando que "dos 365 dias do ano, menos de meia dúzia deixam de lembrar batalhas". De modo geral, não é esta a ideia que se tem da belicosidade de nosso povo. Por falta de espaço, fica este assunto para outra vez.


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