IMPREGNAÇAO MARXISTA E O MITO DA LUTA DE CLASSES
CUNHA ALVARENGA
VIVEMOS em plena época do "mito" e da impostura, da propagação de idéias dissolventes e subversivas, não através do apelo às luzes da razão, mas por meio de "slogans" habilmente escolhidos para arrastar os espíritos superficiais.
Entre os mitos revolucionários se acha o que consiste no artificialismo da redução da humanidade a duas classes em luta: a classe burguesa e a classe operária. Mas o mito da luta de classes não se circunscreve ao âmbito marxista. Revestido de outras roupagens, tais como a do populismo e do trabalhismo, surge sorrateiro em movimentos políticos e sociais que até costumam fazer praça do seu caráter anticomunista. Mais ainda, o próprio movimento operário católico não se acha completamente imune dessa terrível impostura. Assim é que o Santo Padre Pio XII em mais de uma ocasião colocou os fiéis em guarda contra o marxismo inconsciente e sub-reptício que arrasta alguns a classificar as almas em categorias, dividindo a sociedade humana em duas classes antagônicas - a classe operária e a classe burguesa - o que leva forçosamente a uma mentalidade de luta de classes. Veja-se o seguinte trecho da rádio-mensagem dirigida por Sua Santidade aos jocistas belgas a 3 de setembro de 1950:
Engano muito corrente entre católicos
É necessário integrar com sabedoria e discernimento o apostolado dos operários na economia geral do apostolado do homem moderno. E isto Nos leva a vos pôr em guarda contra um engano muito corrente, infelizmente, mesmo entre católicos, isto é, contra a classificação das almas em categorias. Não, não há duas espécies de homens, os operários e os não-operários. Pensar assim, é iludir-se sobre o aspecto atual da questão social, é fazer prova de miopia intelectual indigna de um católico; é embalar-se na falsa ilusão de que a Igreja não ganhará os operários senão à custa de se dobrar a todas as suas exigências, sejam elas as mais irrealizáveis". Mesmo porque o que afasta da Igreja uma notável porção do mundo operário, acrescenta o Santo Padre, é o mesmo que dela aliena os espíritos de outras classes da humanidade moderna.
Não é demais encarecer a gravidade desse problema da impregnação marxista, ou dessa verdadeira linha auxiliar revolucionária fora dos quadros oficiais do Partido Comunista, de que podemos dar frisantes exemplos entre nós. Eis a razão pela qual não nos esquivamos de tecer alguns comentários em torno de um estudo que sob o título de "O mito da Classe Operaria" vem de publicar R. Bertrand-Serret no número 33 da revista "La Pensée Ca tholique".
Nessa inteligente "mise-au-point" do problema, começa o autor por distinguir os conceitos de "classe" e de "meio ambiente", para concluir que a divisão esquemática e arbitrária da sociedade em "classe burguesa" e em "classe operária", longe de representar, como se pretende fazer acreditar, a realidade social, não passa de prestidigitação para impingir à humanidade dois mitos complementares invocados unicamente para serem opostos um ao outro, meras criações de espírito cujos inventores manobram como bem entendem o seu significado e o seu conteúdo.
Ora, comenta o snr. Bertrand-Serret, "erigir em classe o que tem simplesmente o caráter de meio não é uma confusão sem conseqüências. Porque é constituir em blocos rígidos e estanques agrupamentos humanos que seriam por natureza permeáveis uns aos outros. Entre essas pretensas classes haveria - pois é o que delas esperam aqueles que desejam impor tal idéia - lapsos abruptos, exclusivismos brutais, incompatibilidades proclamadas, antagonismos e conflitos inelutáveis; ao passo que entre meios reconhecidos como tais há, segundo sua natureza, degraus insensíveis, ligações contínuas e possibilidades de acesso de um ao outro. O universo das classes seria o dos absolutos, das antíteses, dos dilemas e dos exclusivos, e não poderia ser de outra maneira, pois que aqueles que inventaram e modelaram a idéia de uma sociedade repartida em duas classes conceberam estas como comparsas necessárias de uma luta sem quartel. O mundo dos meios é, pelo contrário, aquele do relativo, das diversidades matizadas, das comunicações possíveis, e é certamente deste lado que se acham a realidade social e a verdade sobre as relações humanas".
O mito da luta de classes
Os que lutam pela destruição da sociedade e da civilização atuais vêm sua tarefa grandemente facilitada por essa divisão da humanidade em duas facções opostas: de um lado, sob o nome de classe operária, a massa, a multidão amorfa que, em virtude do papel que lhe é atribuído, tem, por definição, de se situar no campo dos bons e dos justos, animados por um espírito de revolta implacável. De outro lado se acha a classe burguesa, coletividade hereditariamente inimiga da classe operária e que personifica não somente as imperfeições e injustiças presentes e passadas da sociedade, mas também os princípios e valores tradicionais que importa desacreditar a fim de os eliminar em seguida mais facilmente. Classe burguesa que representa o campo dos maus, atavicamente e irremediavelmente corrompida, que não há o que possa nem deva salvar de um aniquilamento total e merecido, condição aliás indispensável para a edificação da idade nova.
Ora, acrescenta o snr. Bertrand-Serret, não importa aos doutrinadores desse maniqueísmo social que a assimilação da classe operária ao proletariado miserável seja presentemente tão arbitrária e tão falsa quanto a identificação da classe burguesa com os elementos afortunados da sociedade. O que conta para eles é que, generalizando fatos parciais ou atualizando fatos já ultrapassados, alimentem artificialmente uma luta que sem isso perderia o caráter inexorável e inextinguível que procuram manter a todo preço.
Impregnação marxista
A título de exemplo instrutivo de como personalidades teórica ou ostensivamente não marxistas seguem muitas vezes linhas de conduta perfeitamente favoráveis a esse jogo subversivo lembra o snr. Bertrand-Serret o artigo do dirigente jocista Ch. Bonnet sobre a promoção operária, publicado na revista "Masses ouvrières" de fevereiro de 1948. Infelizmente, não se pode ocultar a responsabilidade de certos líderes católicos pelo advento dessa demagogia populista.
Entre outras assertivas de fundo marxista-leninista, diz o citado dirigente da JOC francesa: "Fazendo-se a promoção operária no terreno político, chegamos atualmente à política das massas... Os trabalhadores exigem, por seu senso de disciplina, que seus dirigentes políticos executem o que lhes foi indicado... Essa arrancada operária é irresistível. É uma força contra a qual não se pode ir. Vós (burgueses) tendes dois caminhos: ou vos dobrareis sobre vós mesmos e vos defendereis, e sereis então esmagados pela maré montante operária; ou bem vos integrareis no movimento operário e servireis a promoção operária, mas será necessário então que renuncieis a vossos privilégios de classe".
Será o caso de se indagar quem indica aos dirigentes políticos desses chamados movimentos proletários as normas de ação que devem observar em obediência a esse apregoado senso de disciplina das massas. E compare-se a eclosão irresistível dessa promoção operária com o que se acha no manifesto comunista de Marx e Engels: "...o primeiro passo na revolução pela classe operária é elevar o proletariado à posição de classe dirigente para ganhar a batalha da democracia". Mais ainda: "O proletariado usará de sua supremacia política para arrancar, gradualmente, todo capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado como classe dirigente".
Esclarece o líder jocista Ch. Bonnet que a fase econômica da "batalha operaria" se acha ultrapassada. O "fim último" que os operários têm em vista é de outra ordem. "Eles não mais desejam que a política seja feita em função deles; desejam que a política seja feita por eles". Ora, à vista da afirmação de que a classe burguesa será fatalmente massacrada ou assimilada pelo movimento operário, é forçoso concluir que na situação atual a "promoção operaria" ou populista deve ser compreendida como a promoção da "ditadura do proletariado" e que a primeira expressão, tão frequente e inconsideradamente empregada por tantas pessoas de "espírito aberto" ostensivamente não-marxistas, na realidade tem a mesma significação e o mesmo valor da segunda, em que pesem todas as declamações em contrário.
Assim compreendida e utilizada, a classe operária tem portanto o caráter de uma máquina de guerra montada para destruir a forma de sociedade que se tem o cuidado prévio de identificar com uma burguesia convencional, degradada e corrompida sem remissão por taras incuráveis. Essa personificação do burguês no egoísta rico e gozador, e do operário no pária miserável, diz Bertrand-Serret, essa vocação assinalada a uma classe (a operária), de governar o mundo em nome de um direito superior fundado sobre uma fatalidade histórica, tudo isso não passa de sofismas que desafiam tanto a verdade e o bom senso quanto a justiça e a boa fé. Mas mesmo assim tão grosseiros, têm entretanto tais sofismas o favor de alguns que deveriam ser os primeiros a reconhecer sua falsidade e malefícios. Atacados, porém, pelo gosto doentio das doutrinas avançadas e pela vã esperança de se aliar ao adversário em um terreno comum, reservam toda a sua combatividade (levando-a mesmo ao paroxismo do furor) contra aqueles que não se deixam embair por esse jogo de astúcia.
Infiltrações subversivas no setor sindical
OUTRO setor onde se nota claramente essa impregnação marxista é o sindical. São as organizações inter-sindicais que dão ao mito da classe operaria uma forma concreta, sem a qual ela permaneceria com uma existência meramente abstrata. Ao inverso das organizações corporativas, que agrupam todos os elementos de uma determinada profissão — patrões e empregados — em torno dos interesses comuns do oficio a que pertencem, tais agrupamentos inter-sindicais, de caráter inter-profissional e não tomando em consideração como princípio de associação senão a qualidade de operário ou de patrão, são votados a ser meros instrumentos da luta de classes.
Característico dessa mentalidade de luta de classes levada ao campo sindical, é o livro "Traditionalisme et Syndicalisme" de Paul Vignaux, da coleção "Civilisation" dirigida por Jacques Maritain, que também escreveu o prefácio. Ao narrar o inicio da ação jocista no setor sindical francês, diz o autor: "A JOC foi depressa conhecida na Igreja e fora da Igreja. Viu-se menos como seu rápido crescimento contribuiu para a maturação do sindicalismo cristão. Ela se apresentava ao mesmo tempo como movimento operário e de ação católica: movimento operário cuja ação psicológica tomava por fundo a realidade da classe operária, o valor da solidariedade operária, a necessidade de arrancar os jovens trabalhadores de seu complexo de inferioridade para lhes dar, pela ação, confiança em si próprios e em seus camaradas. Os militantes assim formados acentuaram nos sindicatos operários cristãos o sentimento de classe, a combatividade, a preocupação da massa" (p. 54 e 55). Narra em páginas seguintes as várias etapas que levaram os sindicatos cristãos de inspiração jocista a colaborar com os sindicatos socialista da C. G. T.. E diz a certa altura: "Ao mesmo tempo, as relações com a C. G. T. se faziam menos tensas. Ainda mesmo quando entravam em choque impetuoso com os cristãos, os militantes cégétistas não contestavam sua independência em relação ao patronato; confessavam às vezes sua surpresa de encontrar, não filhos de Maria, mas autênticos militantes operários. Esboçavam-se relações complexas: mistura de luta ideológica e de sentimento de solidariedade" (p. 63).
Comparsas da luta de classes
“MISTURA de luta ideológica e de sentimento de solidariedade", eis a confissão tácita da impregnação marxista nesses sindicatos cristãos. Declarando-se ideologicamente anti-marxista, entretanto no campo da ação prática se aliam à causa daqueles que usam a luta de classes como alavanca para levar ao poder o proletariado, eufemismo com que se oculta o advento do socialismo integral.
E é de se notar o ar superior e sarcástico com que Paul Vignaux se refere às idéias tradicionais em matéria de organização profissional, na base da harmonia entre patrões e operários. Tratar-se-ia de coisa completamente superada, velharias do século XIX definitivamente enterradas com La Tour du Pin e seu movimento de restauração corporativa.
Não se cansa, porém, a Santa Igreja de fazer apelo a essa harmonia, dos variados elementos do corpo social em seus esforços no sentido ...a consecução do mesmo bem comum. "A luta de classes deve ser ultrapassada pela instauração de uma ordem orgânica que una patrões e operários, diz Pio XII. A luta de classes não poderá jamais ser um objetivo da doutrina social católica. A Igreja se inclina sempre para todas as classes da sociedade" (Mensagem ao Katholikentag austríaco, de 14 de setembro de 1952).
E certos adeptos desse mimetismo proletário ou do mito da luta de classes levam tão longe seu concurso no combate ao regime capitalista, identificado com a classe burguesa, que chegam a tomar parte em golpes de mão contra a policia ao lado dos comunistas, como fizeram os "Padres-operários" que participaram das manifestações contra o general Ridgway em Paris.
Combatamos, portanto, esse mito da luta de classes e denunciemos a impregnação marxista que traz para ambientes anticomunistas e mesmo católicos essa artificial oposição entre a classe operária e a classe burguesa. Lutemos contra essas concepções absurdas e perversas, que identificam a verdade e o bem com as aspirações exclusivas de uma classe ou categoria social deixadas ao sabor da interpretação que lhes dão certos doutrinadores facciosos que fazem passar a luta, a vingança e o ódio como o modo normal das relações humanas.
VERDADES ESQUECIDAS
O pacifismo filantrópico não é virtude
Santo Agostinho
Do "Contra Faustum":
PORQUE é condenável a guerra? Será pela morte de homens destinados a morrer mais cedo ou mais tarde? Uma tal razão seria própria de medrosos, e não de homens religiosos. O que se deve condenar nas guerras é o desejo de prejudicar aos outros, é o cruel amor da vingança, é esse espírito implacável e inimigo da paz, é essa selvageria da revolta, é essa paixão de dominar.
Cumpre que tais crimes sejam punidos, e eis precisamente porque, por ordem de Deus ou de alguma autoridade legítima, os bons são por vezes levados a empreender guerras (Patrol., XLII, 447 — apud Léon Gautier, "La Chevalerie", Victor Palmé Editeur, Paris, 1884, pág. 10).