Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 49 | página 02-03

(continuação)

Conclusão da 1ª. Página

HÁ MÉTODO NA LOUCURA DA SITUAÇÃO INTERNACIONAL

com base nesta visão de conjunto, prognóstico que permita discernir os rumos que os fatos vindouros provavelmente seguirão.

Ora, relativamente a 1954, esta tarefa parece inexequível. No plano internacional, o ano findo nos apresentou uma série de acontecimentos excitantes e incongruentes. De um lado, o esforço diplomático pela paz jamais foi tão contínuo e tão trepidante: as conferências de Genebra e Londres, o tratado de Paris não foram senão os pontos altos de um trabalho de chancelarias intensíssimo, complexo, pontilhado de dificuldades e de decepções, sujeito ora a contemporizações enervantes, ora a períodos de ação febricitante. Quantas vezes pareceu definitivamente assegurado o convívio pacífico entre Oriente e Ocidente! Quantas vezes pareceu irremediavelmente comprometida a paz mundial! Do extremo otimismo para o extremo pessimismo, a marcha da diplomacia se fez sempre num zig-zag irregular, caprichoso, que ora dilatava de esperança, ora contraía de angústia, sempre inesperadamente, este grande coração que é sob certos aspectos a opinião mundial. No momento presente, a linha do gráfico está quase no extremo do pessimismo. A situação em Formosa toma, depois do pacto entre os EE.UU. e o governo de Taipé, um colorido carregado. E a hostilidade entre Oriente e Ocidente parece cristalizar-se definitivamente com a oposição manifestada pelas nações do bloco soviético, reunidas em conferência, contra o rearmamento da Alemanha Ocidental. Mas bastará um sorriso de Malenkov, uma meia palavra de Molotov, uma festa algum tanto cordial em qualquer das embaixadas que a Rússia tem pelo mundo, para que imediatamente reverdeçam esperanças, e a linha do gráfico comece a mudar de rumo.

Assim visto o curso caprichoso dos acontecimentos, pergunta-se: para onde caminhará ele? Quem o pode dizer! Este zig-zag satânico, imprevisível em todos os seus movimentos, só tem um efeito certo e indiscutível. É o completo embrutecimento da opinião ocidental (pois no bloco soviético ninguém sabe como se apresentam as coisas), que ele produz. Ninguém contesta que uma nova guerra seria não só a subversão de toda a vida pública, mas de todas as existências particulares. Esta hipótese que influi em tudo, condiciona tudo, mantém tudo mais ou menos em suspenso, ora vai, ora vem, ora se distancia, ora se aproxima, e ninguém sabe ao certo se daqui a um ano, daqui a alguns meses quiçá, estará distendendo os nervos na delectação de uma larga normalidade internacional por fim alcançada, ou estará envolto com seus negócios, seus bens, sua família, no torvelinho apocalíptico da guerra atômica. Se cada pessoa quisesse se colocar bem nitidamente diante deste quadro de uma insofismável realidade, sentir-se-ia numa situação não muito diversa da de um moderno Dâmocles, tendo suspensas sobre a cabeça uma bomba de hidrogênio e um bouquet de rosas, cada um preso a um fio prestes a partir-se a todo momento. O que sucederia a um homem exposto prolongadamente a tão brutal alternativa? Evidentemente, embotar-se-iam nele o medo, a esperança, e o próprio instinto de conservação. Tal estado de alma tornaria toda a sua sensibilidade incapaz de vibrar retamente. Num primeiro período, tudo o excitaria exageradamente. Viria depois uma atonia profunda, que passaria dos nervos à própria inteligência. Vida ou morte, verdade ou erro, bem ou mal, beleza ou feiúra... que importa? O essencial é vegetar sossegadamente, gozando o modesto prazer de respirar no minuto presente, sentir a normalidade da circulação e da digestão, e deixar aparvalhadamente que o mais siga seu rumo. Seu rumo, sim; isto é, todo e qualquer rumo, por louco, vulgar ou eventualmente até razoável que seja, contanto que não se perturbe a quietude estritamente vegetativa do instante que passa.

Outrora o verbo “viver” era intransitivo. As extravagâncias de certa filosofia infringiram uma torção à gramática, e o verbo tornou-se transitivo. Passou-se a dizer que as pessoas vivem um dia, uma hora, um minuto feliz, ou infeliz, etc. Será necessário, para atender às atuais condições de existência, tornar transitivo o verbo “vegetar”. Dir-se-á então que fulano ou sicrano está “vegetando” dias tranquilos, ou insípidos, ou incertos. E com quanta verdade!

Ora, decair da vida humana para a vida vegetativa o que é, senão passar de ser humano, para ente bruto? Bruto não tanto num sentido exclusivamente derivado do conceito corrente de brutalidade, mas no de embrutecimento. Nem todo homem embrutecido é brutal. Mas certamente é um semi-bruto.

Se passarmos das generalidades desta primeira e amplíssima visão de conjunto, para a análise deste jogo de tensão e distensão conforme se produziu concretamente nos vários países, teremos uma impressão mais nítida de quanto ficou dito. Aqui, uma revolta depõe um governo, lá um governo desarticula uma conjuração, acolá uma greve assola uma cidade ou uma província, ou alguma crise econômica põe abaixo a prosperidade de uma região. Por toda a parte, esta atmosfera de dificuldades interiores é agravada quase até ao paroxismo pela pressão interna das forças comunistas ou pela perspectiva de uma agressão soviética. Vejamos um pouco ao léu, sem preocupações cronológicas, e a título exemplificativo, o que se deu neste sentido no mundo em 1954. Deixemos de lado os fatos naturais, como a misteriosa catástrofe de Orléansville, ocorrida pouco depois de haver pairado sobre a cidade uma bola de fogo, para tratar apenas dos acontecimentos políticos.

No Japão, as emanações da bomba de hidrogênio deflagrada no Pacífico produziram vítimas, atacaram o pescado, e perturbaram por bastante tempo o equilíbrio da radioatividade da atmosfera, acentuando o terror de uma hecatombe. A vida política foi agitada. O premier Yoshida acusou os socialistas de tramarem a bolchevização do país. Fala-se muito de escândalos de espionagem. O aumento de poder da China vermelha, a insegurança da situação na Coréia e em Formosa, a catástrofe do Vietnã preocupam profundamente. O Japão se rearma com toda a intensidade possível.

Em todos os pontos geográficos de fricção entre Oriente e Ocidente, pequenas fagulhas caem constantemente, ameaçando fazer saltar o paiol. Na Alemanha Ocidental, raptos misteriosos de pessoas que interessam aos soviéticos. Na Áustria, violenta investida da propaganda russa contra as autoridades. Teme-se um golpe comunista em Viena. Na Coréia, incidentes de fronteira irritantes. Em Formosa, tiroteio crônico para preservar as ilhas de proteção de que Mao-Tsé-Tung quer se apoderar com fins bem evidentes. Na Indochina, uma catástrofe sem nome, que agravou o perigo vermelho na Indonésia, e o levou até as portas da Austrália. Neste domínio, violentíssimo incidente com a Rússia por ter sido descoberta uma trama de espionagem dirigida pelo embaixador Petrov: ruptura de relações; teme-se coisa pior.

As experiências de bombas de hidrogênio na Rússia e no Pacífico apavoram a opinião mundial. Certos fenômenos estranhos, como o “câncer dos pára-brisas”, causam inquietação.

Na Índia, as agitações internas continuam. A tensão com Portugal por motivo da posse de Goa, Gamão e Diu, chega a um perigoso clímax. O mesmo se pode dizer da polêmica entre Nehru e Malan em razão dos interesses de fortes minorias hindus na África do Sul.

Por exceção, a Pérsia está tranquila. Preso o talentoso palhaço que é Mossadegh, as relações com a Inglaterra se normalizam. O ex-chanceler Hussein Fatemi é executado. Há incidentes de fronteira inquietantes com a URSS.

A imensa mole do mundo árabe se movimenta e não é difícil vislumbrar a ação de Moscou nesta violenta fermentação. No Egito, agitações durante todo o ano por motivo do caso de Suez, e da independência do Sudão. A Inglaterra recua visivelmente. Luta interna intensa entre os republicanos. Atentado contra Nasser. Deposição dramática de Naguib. Em consequência de agitações na Tunísia, a França lhe concede autonomia. A Argélia começa a ser infectada pela onda revolucionária. O Marrocos está novamente em incandescência e o governo francês age com firmeza sempre menor.

A situação no Marrocos leva a Espanha a intervir contra a França. Tensão violenta entre estes dois países. A Rainha Elizabeth II visita Gibraltar. Graves incidentes entre a polícia espanhola e elementos que manifestam contra a Inglaterra. Teme-se um atentado contra a Rainha.

Na França, os insucessos da Indochina, as agitações da África do Norte, as polêmicas concernentes ao rearmamento alemão e à CED ocasionam um ambiente de agitação que o novo governo de Mendés-France não logra aquietar senão parcialmente. A questão da espionagem comunista preocupa vivamente.

Na Inglaterra, o governo conservador obtém êxitos econômicos indiscutíveis. O racionamento se afrouxa. Mas a divisão dos espíritos continua funda. Os trabalhistas insistem por uma política de aproximação com a Rússia e a China, que enfraqueceria singularmente o Ocidente e beneficiaria Moscou. A visita dos parlamentares trabalhistas à China é neste sentido um escândalo. No próprio seio do trabalhismo, o câncer “bevanista” se acentua mais e mais: é cada vez menos nítida a linha que o separa do comunismo.

Na Itália, a morte de De Gasperi, a persistência ameaçadora do perigo comunista, a questão de Trieste, o “affaire” Montesi, mantém uma atmosfera de efervescência que a feliz solução do problema triestino aquietou, mas de outro lado o reatamento de relações cordiais entre Tito e Moscou agravou.

Nos Estados Unidos, o ano foi agitado. O “caso Mc Carthy” preocupou a fundo gregos e troianos. Pois se uns temem que o borbulhante senador acabe por destruir as instituições, outros temem que, inutilizado ele, as instituições e o próprio país soçobrem nas garras da espionagem e da agressão soviética. A luta entre republicanos e democráticos versou quase sempre sobre questões gravíssimas de interesse público, que fizeram sentir a todos como são grandes as incertezas da hora atual. A vitória dos democratas nas recentes eleições dá a entender que a opinião pública, exausta, pede uma política exterior mais macia: o que evidentemente está longe de prejudicar os planos de Moscou.

Na Guatemala, em Cuba, na Bolívia, na Colômbia, no Paraguai, os golpes de Estado estão na memória de todos. A situação argentina caminha para uma crise religiosa que patenteia as tendências comunistas de Perón.

E o Brasil? Poderia o ano ter sido mais cheio de apreensões e de esperanças? E poderia terminar mais cinzento?

Aí está uma relação dos mil modos por que a tensão internacional se concretizou no mundo inteiro. Recapitulando-os, vendo-os no seu conjunto, tem-se a impressão de que um mesmo fogo subterrâneo sacode por toda a parte a crosta terrestre, e que por detrás de tantas desordens há uma só e mesma Desordem que convulsiona tudo.

Desçamos mais. A própria vida privada também se encontra em situação caótica. No Brasil, por exemplo, a crise da família, a crise do ensino, a carestia, a inflação, o problema das domésticas, a dificuldade de transportes, tudo enfim satura de pequenas e irritantes dificuldades quotidianas uma existência já de si entristecida por horizontes plúmbeos e cortados de relâmpagos.

O Dâmocles clássico estava sentado em um trono, gozando das honras e delícias do poder. O homem moderno é um Dâmocles prosaico, sentado sobre uma cadeira de três pés, comido pelos insetos das mais enervantes pequenas preocupações pessoais, e que tem por único lenitivo humano esperar que lhe caia sobre a cabeça o bouquet de rosas em lugar da bomba de hidrogênio. Em matéria de técnica de embotamento, de embrutecimento, de aviltamento a fogo lento, não se poderia excogitar meio melhor.

Dirá talvez alguém que este quadro é unilateral. Que estes aspectos não são os únicos. É certo. Nem tivemos a intenção de descrever toda a situação presente. Ativemo-nos aos traços dominantes. E quem poderá negar que são estes?

A continuação deste pandemônio por mais alguns anos não poderá deixar de levar a um grau imprevisível o embrutecimento geral, a decadência do padrão humano, o declínio da capacidade de resistir, de lutar, de vencer, de todo o Ocidente, quer no plano ideológico, quer no plano militar. Como sob um vento pestífero, vão minguando todas as nossas energias vitais. Dentro de mais alguns anos, estaremos talvez maduros para aceitar sem resistência, alguma imensa surpresa, alguma defecção vergonhosa, súbita, completa.

Ora, tudo isto é assim porque a Rússia o quer. Bastariam de sua parte três ou quatro meses de política pacífica, para que este vento de pânico e tumulto cessasse. Continuaria a haver sérios problemas técnicos de caráter social e financeiro, é certo. Mas seriam susceptíveis de solução num clima normal.

Se tudo isto se passa só porque a Rússia o quer, e lhe traz todo o proveito, parece bem claro que “há método na loucura” da nossa situação política.

É o que nos parece dominar, coordenar e explicar tudo que se passou de mais importante em 1954, e autorizar para 1955 esta pergunta: até quando durará tal situação?

IMPRESSÃO deslumbrante à primeira vista. Na escuridão da noite, cintila com todo o brilho de suas mil luzes, refletidas em seu imenso revestimento de alumínio, a refinaria de petróleo de Dunkerque, recentemente construída. Expressiva representação do poder técnico desta civilização em que o homem dominou em tão grande escala a natureza, e em que tanto cresceu sua capacidade de construir... e de destruir. A. máquina dominará o homem, e o abuso da técnica tornará irrespirável a vida? É um dos grandes problemas que o homem, pequeno diante da máquina feitura de suas mãos, terá de resolver se tivermos paz. A técnica destruirá a civilização? O que se perguntam com angustia nossos coevos considerando a hipótese de uma guerra. Graves preocupações que atormentam a humanidade neste virar de página da História, que é a passagem para um ano novo.


O SACERDÓCIO E O GOVERNO NA IGREJA DE DEUS

No dia 2 de novembro p.p., Sua Santidade o Papa Pio XII pronunciou, em latim, importante discurso dirigido aos Cardeais e Bispos presentes em Roma por motivo da solene instituição da festa litúrgica da Bem-aventurada Virgem Maria, Rainha. Publicamos a seguir os principais tópicos desse documento, que traduzimos do texto francês estampada no Osservatore Romano, edição hebdomadária, do dia 12 do mesmo mês, acrescentando-lhe subtítulos.

Depois de algumas palavras de saudação cordial, e de uma invocação a Nossa Senhora, disse o Papa:

EM princípios do mês de junho deste ano, aos numerosos Bispos que, de todo o mundo, tinham vindo a Roma para manifestar sua veneração e amor ao Papa Pio X, que então exaltávamos às honras dos Santos, pronunciamos um discurso sobre o magistério que, por instituição divina, pertence aos sucessores dos Apóstolos sob a autoridade do Romano Pontífice (cfr. Acta Ap. Sedis 1954, n. 8, p. 313-317). Hoje, continuando de certo modo o tema iniciado, comprazemo-Nos em aproveitar a oportunidade para vos falar dos outros dois ofícios de vosso munus que, estreitamente unidos ao primeiro, reclamam vossa atenção e vossos cuidados, a saber, o sacerdócio e o governo.

Voltemos novamente o espírito e o coração para o Santo Papa Pio X (...) Para ele o altar e o Sacrifício eucarístico foram a essência e como que o centro de sua piedade, seu refúgio e sua força nos sofrimentos e nas dificuldades. Foram sua fonte de luz e de coragem, o manancial do zelo infatigável que ele tinha pela glória de Deus e pela salvação das almas. Esse Pontífice, assim como foi e continua a ser o modelo do Mestre, do mesmo modo foi e continua a ser o modelo do Sacerdote.

Sacerdócio e sacrifício

O OFÍCIO próprio e principal do Sacerdote foi sempre e continua a ser o oferecimento do Sacrifício, a tal ponto que, onde não existe nenhum poder de sacrificar propriamente dito, não existe tão pouco verdadeiro sacerdócio.

Isso vale também inteiramente para o Sacerdote da Nova Lei. Seu poder principal e sua função oficial é oferecer o Sacrifício único e sublime do Sacerdote Eterno e Soberano, Cristo Nosso Senhor. Sacrifício esse que o Divino Redentor ofereceu de maneira cruenta, que antecipou de maneira incruenta na Última Ceia, e que quis ver renovar-se de forma contínua quando ordenou aos Apóstolos: "Fazei isto em memória de Mim" (Luc. 22, 19). Foi aos Apóstolos e não a todos os fiéis, que o próprio Cristo fez e constituiu Sacerdotes, e foi a eles que deu o poder de oferecer o Sacrifício. A respeito dessa elevada função e do Sacrifício do Novo Testamento o Concílio de Trento ensinou que "no sacrifício divino que se realiza na Missa está contido e imolado de maneira incruenta o próprio Cristo que sobre o altar da cruz se ofereceu de uma vez por todas de modo cruento... É com efeito a única e mesma hóstia, é a mesma pessoa que se oferece atualmente pelo ministério dos Sacerdotes e que se ofereceu então sobre a cruz. Só a maneira de se oferecer é diferente" (Sessão XXII, cap. 2 Denzinger n. 940). Assim pois, o Sacerdote celebrante, representando a Cristo, sacrifica, e só ele é que sacrifica; não é o povo, não são os clérigos, não são nem mesmo os Sacerdotes que assistem piedosamente o celebrante, embora todos eles possam e devam ter parte ativa no sacrifício. "O fato, entretanto, de os fiéis participarem no sacrifício eucarístico - como assinalamos em Nossa Encíclica "Mediator Dei" (Acta Ap. Sedis, vol. 39, 1947, p. 553) - não é titulo para lhes conferir algum poder sacerdotal".

O poder sacerdotal não é delegado pelos fiéis

SABEMOS, Veneráveis Irmãos, que vos é perfeitamente conhecido o que acabamos de dizer; julgamos todavia dever relembrá-lo, pois constitui de certo modo o fundamento e a razão do que vamos dizer agora. Há com efeito pessoas que persistem em reivindicar, para todos os que assistem piedosamente ao sacrifício da Missa, mesmo que sejam leigos, um certo poder real de sacrificar. Cumpre-nos, contra essas pessoas, separar a verdade do erro e suprimir toda ambiguidade. Já condenamos, há sete anos, na mesma Encíclica, o erro dos que não hesitavam em declarar que o mandamento de Cristo "fazei isto em memória de Mim", "visa diretamente toda a Igreja dos cristãos, e que daí derivou, mas somente mais tarde, o sacerdócio hierárquico". Também pretendem eles que o povo goza de verdadeiro poder sacerdotal e que o Padre age somente como delegado da comunidade. “Em virtude disso julgam que o Sacrifício eucarístico é no sentido próprio da palavra uma "concelebração", e que os Padres deveriam "concelebrar" com o povo presente, antes do que oferecer o Sacrifício em particular na ausência do povo". Nessa mesma ocasião igualmente recordamos em que sentido o celebrante pode ser considerado "representante do povo ", a saber, "porque representa Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Ele é a Cabeça de todos os seus membros e se oferece a Si mesmo por eles. É, pois, como ministro de Cristo que o Sacerdote se aproxima do altar, inferior a Cristo, mas superior ao povo. O povo, ao contrário, não representando de modo algum a pessoa do Divino Redentor e não sendo conciliador entre si próprio e Deus, não pode de nenhum modo gozar do direito sacerdotal" (Acta Ap. Sedis, 1947, p. 553 e 554).

Opinião errônea sobre a assistência à Missa

NESTE caso não há que considerar somente o fruto que se pode tirar da celebração ou da audição do Sacrifício eucarístico - pode muito bem acontecer, com efeito, que se tire mais fruto da Missa ouvida com piedade do que da Missa celebrada com negligência - mas trata-se de estabelecer a natureza do ato que consiste em ouvir ou celebrar a Missa, e de que derivam os outros frutos do Sacrifício. Estes compreendem - além do culto divino de adoração e de ação de graças - o fruto de perdão e impetração para aqueles por cuja intenção o Sacrifício é oferecido, mesmo se a ele não assistem; e o fruto que se estende "aos pecados, penas, satisfações e outras necessidades dos fiéis vivos, assim como aos cristãos defuntos que ainda não expiaram plenamente as suas faltas" (Conc. Trid. Sess. XXII, c. 2 - Denzinger n. 940). Desse ponto de vista, a asserção que atualmente não só leigos mas até certos teólogos e Padres difundem: a celebração de uma única Santa Missa a que assistam religiosamente cem Sacerdotes equivale a cem Missas celebradas por cem Padres - deve ser rejeitada como opinião errônea. Com efeito, a realidade é inteiramente diversa. Quanto ao oferecimento do Sacrifício eucarístico, há tantas ações de Cristo Soberano Sacerdote quantos são os Sacerdotes que celebram, e não quantos são os que assistem piedosamente à Missa do Bispo ou do celebrante; estes, de fato, quando assistem à Missa, não representam de modo nenhum a Cristo no ato do Sacrifício, mas devem ser comparados aos leigos que assistem à Missa.

Há diferença essencial entre o "sacerdócio" dos fiéis e o do Padre

De outra parte, é necessário não negar nem pôr em dúvida que os fiéis possuam um certo "sacerdócio", e não é permitido fazer pouco caso dele, nem depreciá-lo. O príncipe dos Apóstolos, com efeito, em sua primeira Epístola, se dirige aos fiéis nestes termos: "Vós, porém, sois raça escolhida, sacerdócio real, povo que Deus adquiriu para Si" (1 Pedr. 2, 9); pouco antes afirma ele na mesma carta que é próprio dos fiéis ser "um sacerdócio santo e oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo" (1. c., 2, 5). Entretanto, por mais verdadeiro e pleno que seja o sentido desse título de honra e da realidade que exprime, é preciso ter a convicção firme de que esse "sacerdócio" comum a todos os fiéis, certamente profundo e misterioso, não difere somente em grau, mas também em essência, do Sacerdócio propriamente dito. Este consiste no poder de realizar o sacrifício do próprio Cristo porque representa Cristo Soberano Sacerdote.

Favorecer o zelo para com a Sagrada Liturgia

TEMOS notado com alegria que em muitas dioceses foram constituídos Institutos e Associações litúrgicas. Foi-Nos dito que responsáveis eram nomeados, congressos diocesanos e interdiocesanos se organizavam, e que se preparavam mesmo congressos litúrgicos internacionais. Soubemos com grande satisfação que aqui e ali os próprios Bispos tomaram parte em tais congressos ou os presidiram. Essas reuniões seguem algumas vezes um regulamento especial, de modo que um único Sacerdote celebra a Missa e os outros (na totalidade ou em muito grande número) assistem a essa Missa única e nela comungam da mão do celebrante. Se tal coisa se faz em virtude de motivo justo e razoável e o Bispo, para evitar a estranheza dos fiéis, não decidiu de outro modo, nada há a opor, desde que o erro lembrado por Nós mais acima não esteja na origem desta maneira de agir. Enfim, no que concerne às matérias tratadas nesses congressos, tem-se discutido acerca de assuntos atinentes à história, à doutrina, ou a problemas práticos; tiraram-se conclusões e formularam-se votos que pareceram necessários ou convenientes ao progresso litúrgico, submetendo-os inteiramente ao julgamento da autoridade eclesiástica legítima. Tal movimento para o desenvolvimento da liturgia não ficou restrito ao público desses congressos; as aplicações se multiplicaram constantemente e tomaram um desenvolvimento cada vez mais considerável, de modo que os fiéis são incitados a se unir ao celebrante em número sempre maior, cada vez mais frequentemente e de maneira ativa e profunda.

Evitar abusos

ENTRETANTO, Veneráveis Irmãos, por mais favoráveis que sejais — e por justa razão — à prática e ao progresso da Liturgia, não deixeis que os especialistas dessa ciência se subtraiam em vossas dioceses à vossa direção e vigilância, que regulem e mudem a Liturgia como melhor lhes pareça, a despeito das leis da Igreja claramente formuladas: "Compete exclusivamente à Santa Sé regular a Liturgia e aprovar os livros litúrgicos" (Can. 1257), especialmente no que concerne à celebração da Missa: "Reprovado todo costume contrário, o celebrante deve observar com cuidado e piedade as rubricas dos rituais e se abster de acrescentar a seu arbítrio outras cerimônias e orações" (Can. 818). Outrossim,

(continua)

CATOLICISMO entra agora no seu quinto ano de existência. O tempo decorrido já foi suficiente para formar algumas tradições. E uma delas é que em todos os seus aniversários lhe dirija uma palavra de orientação e estímulo o Bispo Diocesano.

Graças a Deus, o jornal vai fazendo um bem sempre mais profundo, e já ocupa um lugar de destaque na imprensa católica do Brasil. Até do exterior lhe vêm palavras de estímulo inesperadas e confortadoras.

Estamos certos de que esse resultado se deve essencialmente ao amor ardente de CATOLICISMO a Jesus Eucarístico, a Nossa Senhora e ao Papa, que Mons. de Ségur chamava as três rosas dos Bem-aventurados. Daí vem para o jornal este perfume de piedade, de ortodoxia, de romanidade, este calor de entusiasmo e esta força de lógica que dele fazem um claro e intenso foco de irradiação do espírito católico.

Os dias em que vivemos são difíceis. Cada lugar tem seus problemas, e em nossa amadíssima Diocese, como é natural, estes não faltam. O maior deles, a nosso ver, é constituído por um certo laicismo, um liberalismo religioso que toca não raro as raias do indiferentismo completo, e afasta não só pessoas, mas famílias, instituições, e em certa medida a sociedade, do influxo vivificante da graça de Deus.

Para remediar este mal, não conhecemos meio mais adequado do que incutir nos espíritos a convicção de que a Igreja Católica, único verdadeiro caminho para o Céu, contém em si todos os recursos para sanar as chagas do mundo contemporâneo, e arde do amoroso desejo de difundir neste sentido prodigamente os seus inestimáveis tesouros de verdades e de graças.

É o que em todas as suas páginas faz CATOLICISMO, com uma competência doutrinaria e um primor de técnica jornalística dignos de todo louvor.

Continue a fazê-lo no ano eucarístico de 1955, sob a proteção constante de Maria Santíssima, agindo com os olhos postos no Santo Padre, fortiter et suaviter, para o bem espiritual de nossos amadíssimos filhos em Nosso Senhor.

Antonio, Bispo Diocesano