(continuação)
MUNDO MELHOR (conclusão)
A IGREJA É O PRINCÍPIO VITAL DA SOCIEDADE HUMANA; SEM ELA SÓ HA RUÍNAS
consentidas" (Rádiomensagem à Ação Católica Italiana, 8 de dezembro de 1953). Ama o cristão a paz como um bem inestimável, mas a luta lhe vem às portas pelas provocações do inimigo. Fala o Santo Padre sobretudo "da luta que o mal, em suas mil formas, move ao bem; luta do ódio contra o amor, dos maus costumes contra a pureza, do egoísmo contra a justiça social, da violência contra o viver pacífico, da tirania contra a liberdade" (doc. cit.).
Não se trata, portanto, de combater o erro em abstrato, senão defendido, propagado e apoiado por inimigos concretos. Mas por isso mesmo que a sociedade humana se compõe de elementos desiguais, também desiguais se manifestam as responsabilidades pela situação a que chegamos. Como bem frisava São Bernardo, "todos os escândalos não são iguais nem igualmente pecaminosos. Devemos distinguir entre o escândalo farisaico e o escândalo dos pequeninos. Quando os Apóstolos, amedrontados, disseram ao Salvador que os fariseus se escandalizavam com sua doutrina, Ele respondeu: Deixai-os; são cegos e guias de cegos (Mt. 15, 14). Seu escândalo tinha origem na malícia. Mas o escândalo dos pequeninos vem da ignorância. Eles se escandalizam, não, como os fariseus, porque odeiem a verdade, mas porque dela não têm conhecimento: os carrascos de Cristo, apesar de terem sido grandes pecadores, devem ser alinhados entre os pequenos nesse sentido, porque pecaram por ignorância. É o que se prova pela oração do Divino Sofredor: Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc. 23, 34)" (apud "Life of St. Bernard" de Ailbe J. Luddy, O. Cist., p. 463).
GRADAÇÃO DE RESPONSABILIDADE
"V IMOS que o Santo Padre nos diz que na raiz de nossos males não se acha a ignorância invencível, mas a anemia da vontade. No considerar o problema da ignorância invencível não nos devemos, aliás, deixar levar por sentimentalismos. Casos há em que uma ignorância aparentemente invencível poderia de fato ser removida se não fosse a ação do pecado na alma. Se, como o Divino Salvador, se pede perdão para quem não sabe o que fez, é porque há culpa a perdoar. Os algozes de Nosso Senhor tinham culpa, como em geral têm culpa a multidão em seus desvarios e os executantes de ordens perversas. Maior, porém, e muito mais grave é a culpa dos mentores dessa massa ignorante, os fariseus, herodianos e saduceus de todos os tempos, que a induzem ao erro, explorando-lhe as paixões e os baixos sentimentos, e que sabem o que estão fazendo. Eis a grande, a enorme e terrível responsabilidade perante Deus das elites dirigentes: a revolução religiosa e política, a apostasia dogmática e social não parte da massa para as elites, mas das elites para as massas. As multidões transviadas são tangidas por orientadores de incontestável má fé, que sabem quais os verdadeiros desígnios dessa conjuração e dessa agitação religiosa e social, e que constituem a facção dos mais nocivos inimigos da Igreja e da sociedade. Eis a quem de preferência devemos combater e a quem será temerário e imprudente estender a mão ou fazer concessões. Achamo-nos diante da velha questão do erro doutrinário e especulativo e do erro prático, do doutor do pecado e de seus sequazes no meio da turba-multa.
O PRIMEIRO DEVER DOS PASTORES
NÃO basta, portanto, alimentar os fiéis com o leite e o mel da boa doutrina. Necessário se torna também combater os lobos vorazes que cercam o rebanho e os ladrões e malfeitores que ameaçam o aprisco. Eis a primeira das obrigações do Pastor. "A obra do Pastor, a obra, pois, de cada um de vós, deverá ser primeiramente de defesa contra os ladrões. Cada ovelha é espionada por ladrões e malfeitores, que se empenham em fazer dela o campo de seus assaltos... Deveis, portanto e antes de tudo, vos aplicar a individualizar e reconhecer os ladrões, cuidando de não vos deixardes guiar por um certo simplismo, que faria volver a vossa atenção, a vossa precaução para um só lado. Como no grande mundo da Igreja Universal, assim no pequeno mundo da Paróquia, o inimigo parece ser um, mas é multíplice" (Alocução aos Párocos e Pregadores quaresmais de Roma, 27 de março de 1953). Tal inimigo se torna cada dia mais ameaçador e trama seus assaltos por todos os meios e sem exclusão de golpes.
Mas há também que precatar-se o Pastor contra os inimigos internos: "Outros inimigos ou — se quiserdes — o mesmo inimigo sob forma e roupagem diversas, será mister desmascarar. Aparece freqüentemente vestido de ovelha, in vestimentis ovium (Mt. 7, 15). É necessário portanto trabalhar afim de que os fiéis o reconheçam por suas obras; pela árvore, a saber, aquela que por sua causa nasce e cresce no campo de Deus, como também pelos frutos que naquela árvore amadurecem: a fructibus eorum" (doc. citado).
A restauração de um mundo melhor não há de ser feita através da contemporização com as falsificações que vêm sendo introduzidas no Cristianismo. Não será um Cristianismo qualquer, com mensagens mais ou menos fracas que salvará a humanidade. De onde a importância incomensurável dessa obra de preservação do Cristianismo autêntico. Não será um vago pluralismo religioso que nos levará a um mundo melhor. Se Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida é através de sua Igreja que Ele exerce salutar influxo sobre o fundamento da sociedade humana. E de vários modos pode a Igreja influir sobre a sociedade humana. O ponto capital dessa ação, porém, se acha na unidade da fé e na inteireza da doutrina: "Todavia a grande, a definitiva resposta, à qual se podem reconduzir todas as outras, permanece sempre a unidade e a inteireza da Igreja fundada em Deus e em Cristo. De onde a necessidade — em primeiro lugar para os próprios filhos da Igreja, mas também para a sociedade humana em geral — de possuir uma noção clara e exata do influxo exercido na realidade prática por aquela unidade e aquela inteireza" (Alocução ao Sacro Colégio de 20 de fevereiro de 1946).
O modo de agir da Igreja é o extremo oposto do modo de agir dos modernos imperialismos e da moderna ação sobre as massas. A Igreja progride sobretudo em profundidade, depois em extensão e amplitude. Acerca-se primeiramente do próprio homem, procura formar, modelar e aperfeiçoar nele a semelhança divina. "Seu trabalho se cumpre no fundo do coração de cada um, mas tem sua repercussão em toda a duração da vida, sobre todos os campos de atividade de cada um. Com homens assim formados, a Igreja prepara a base da sociedade humana, sobre a qual esta pode repousar com segurança" (doc. citado).
AÇÃO DO INTERIOR PARA O EXTERIOR
MAS por outro lado, diz o Papa, seria vã a solidez da base, se à construção faltasse coesão e equilíbrio: "A Igreja contribui também para a coesão e equilíbrio de todos os multíplices e complexos elementos do edifício social. Também aqui a sua ação é antes de tudo interior. As escoras, os contrafortes aplicados de fora a um edifício vacilante não passam de um paliativo precário e apenas retardam um pouco o desabamento fatal. Se as injúrias do tempo, que não pouparam tantos monumentos de data mais recente, respeitaram as magníficas catedrais góticas do século XIII, se estas continuaram a erguer-se serenas acima das ruínas que as circundam, é porque seu botaréus apenas prestam um concurso, precioso, sim, mas acessório, do lado de fora, à potência intrínseca do organismo ogival, de uma arquitetura genial, não menos firme e precisa, que audaz e delicada. Assim a Igreja: Ela age no mais íntimo do homem, do homem em sua dignidade pessoal de criatura livre, em sua dignidade infinitamente mais alta de filho de Deus" (doc. citado).
"E eis porque o Apostolo dos Gentios, falando dos cristãos, proclama que estes não são mais como meninos vacilantes (Ef. 4, 14), de andar incerto no meio da sociedade humana", acrescenta o Papa para lembrar um princípio importantíssimo da doutrina social da Igreja, qual seja o de subsidiariedade: "o que o homem individualmente pode fazer por si com suas próprias forças, não lhe deve ser tirado e atribuído à comunidade; princípio que vale igualmente para as comunidades menores e de ordem inferior diante das maiores e mais altas. Pois que... cada atividade social é por sua natureza subsidiaria; deve ela servir de sustentáculo para os membros do corpo social, e não para destruí-los e absorvê-los" (doc. cit.), como faz o imperialismo hodierno. Com efeito, tomam os modernos regimes políticos e sociais o homem como um menor irresponsável que cumpre guiar em todos os seus passos. Toda a legislação é em geral promulgada para um cidadão anônimo, para entes abstratos, todos totalitária e rigorosamente iguais uns aos outros, ao contrário da riqueza e variedade da realidade social. O resultado são "métodos de vida e de relações econômicas e sociais nos quais se acham mais em perigo as pessoas honestas que as fraudulentas" (Exortação ao Clero Menti Nostrae, 23 de setembro de 1950). Pelo contrário, "o ser humano não é o homem abstrato, nem considerado somente na ordem da pura natureza, mas o homem completo, qual se apresenta aos olhos de Deus, seu Criador e Redentor, qual é em sua realidade concreta e histórica, que não se pode perder de vista sem comprometer a economia normal da convivência humana" (Alocução ao Sacro Colégio, 20 de fevereiro de 1946).
É a Igreja "o princípio vital da sociedade humana" e sem Ela, portanto, somente podemos presenciar decadência e ruínas. Só Ela é capaz de proporcionar aos homens esse ambiente de respeito à lei natural, de que é guardiã. Somente pelo influxo da graça de Deus, através das fontes de que é dispensadora a Esposa de Cristo, é que a sociedade humana poderá reconquistar esse mundo melhor. Mesmo porque a vida social e política dos povos não se há de basear em um vago Cristianismo, mas na Fé autêntica que alimentou o esplendor de outras fases históricas do Ocidente cristão:
O CRISTIANISMO AUTÊNTICO E A CELESTE MEDIANEIRA
AQUILO porém que já havíamos sublinhado em outras circunstâncias, esclarece o Papa, acreditamos poder repetir de novo diante de vós, porque é uma convicção que a experiência consolida em Nós, não só de ano para ano, mas, por assim dizer, de mês para mês: para além desse escopo econômico e político, a Europa unida deve propor-se como missão a afirmação e a defesa dos valores espirituais que em outros tempos constituíam o fundamento e o sustentáculo de sua existência, que ela tinha já a vocação de levar às outras partes da terra e aos outros povos, e dos quais deve hoje se reaproximar, com um duro esforço, para salvar a si própria: queremos dizer a autêntica Fé cristã como base da civilização e da cultura que é a sua, mas também base de todos os outros povos. Dizemo-lo bem claro, porque tememos que de outro modo a Europa não tenha a força interna para conservar, diante de adversários mais poderosos, não só a integridade de seus ideais, mas nem mesmo a independência territorial e material" (Alocução aos professores e alunos do Colégio da Europa, de Bruges, 15 de março de 1953).
Mas não se pode dissociar o Cristianismo autêntico do papel que nele representa a Celeste Medianeira de todas as graças. Nesta Cruzada por um mundo melhor, é através Dela que nos virá a vitória: "Maria, diz o Santo Padre, é bela em Si mesma como a lua, e refulge em torno de Si como o sol, mas contra o inimigo é forte, é terrível, como um exército em forma de batalha: Acies ordinata" (Rádiomensagem à Ação Católica Italiana, 8 de dezembro de 1953).
Mãe do Príncipe da Paz, é por meio Dela que alcançaremos a verdadeira tranquilidade dos espíritos e a almejada concórdia. Mas se os tempos atuais são de luta, Ela também é que nos dará força para o combate: "Neste dia de alegria e exultação, Deus sabe como desejaríamos poder esquecer a aspereza dos tempos que atravessamos! Mas os perigos que pesam sobre o gênero humano são tais que não podemos cessar — se assim se pode dizer — de lançar Nosso grito de alarma. Eis o inimigo que força a porta da Igreja, que ameaça as almas. E eis um outro aspecto — atualíssimo — de Maria: sua força no combate. Logo depois da mísera queda de Adão, o primeiro anúncio de Maria, segundo a interpretação de não poucos Santos e Doutores, fala de inimizades entre Ela e a serpente inimiga de Deus e do homem. Como para Ela é essencial ser fiel a Deus, por isso também é vencedora do demônio. Sem mácula alguma, calcou Maria a cabeça da serpente tentadora e corruptora. Quando Maria se aproxima, o demônio foge; do mesmo modo que desaparecem as trevas quando surge o sol" (doc. citado).
Eis portanto bem acentuada a importância fundamental da devoção à Santíssima Virgem na grande Cruzada para um mundo melhor, como relembrou o Santo Padre em sua já citada alocução aos participantes do I Congresso Nacional da Padroeira do Brasil. E não se dará o "grande retorno a não ser pelo caminho da oração e da penitencia bem como pela Consagração de todo o orbe terrestre ao Imaculado Coração da Mãe de Deus. Só assim conseguiremos a graça de "todos se sentirem irmãos, filhos de um mesmo Pai, que se nutrem com alimento celeste em uma mesma mesa!" (da Oração pela paz do mundo, na mensagem ao Congresso Eucarístico Internacional de Barcelona, 1o de junho de 1952).
O REINADO EUCARISTICO DE JESUS CRISTO
No dia 18 de agosto p.p., o Exmo. Revmo. Sr. Bispo Diocesano, D. Antonio de Castro Mayer, fez, no Pontifical de abertura do 1° Congresso Eucarístico de Leopoldina, uma homilia de que publicamos aqui o texto. Como sempre, as palavras de S. Excia. Revma. contêm ensinamentos de grande elevação e atualidade, que CATOLICISMO se sente feliz em apresentar a seus leitores.
Neste certame de fé da Diocese de Leopoldina, por determinação de seu zeloso Prelado, o Exmo. Revmo. Sr. D. Delfim Ribeiro Guedes, coube-nos a tarefa gratíssima desta homilia sobre o Reinado Eucarístico de Jesus Cristo.
Todo reinado, recordava o Santo Padre Pio XI, supõe os poderes sem os quais mal se compreende um domínio, não existe propriamente soberania: o poder legislativo, o coercitivo e o judiciário (cfr. Enc. "Quas Primas", A. A. S. 17, p. 599 e ss.). Não vamos aqui discorrer sobre estas prerrogativas e demonstrar que todas elas se encontram de maneira perfeita no Verbo Encarnado. Nossa finalidade não é propriamente essa. O que nos cumpre é salientar as características deste inefável e suavíssimo Reinado do Salvador, que se manifestam de modo esplêndido no Sacramento de seu amor, que é o Sacramento de sua onipotência, e, pois, a mais sublime criação de sua regia magnificência. "Omnipotens cum sit, plus dare non potuit" (S. Tomás de Aquino).
A EUCARISTIA DÁ AS NOTAS DO REINO DE CRISTO
Três aspectos podemos considerar na Santíssima Eucaristia, que especificam seu reinado entre os homens. A Eucaristia é um Sacramento de fé, o "Mysterium Fidei" por excelência, como o proclama a Sagrada Liturgia. Sem a fé, não passa ela aos olhos humanos de uma pequenina partícula de pão, e o seu culto afigura-se de todo em todo incompreensível. É a fé que nos faz ver através das espécies, que nos firma contra o testemunho dos sentidos, — "praestet fides suplementum sensuum defectui" (Hino "Tantum ergo"). É portanto a fé esta segurança das coisas invisíveis — "sperandarum substancia rerum" (Heb. 11, 1) — que nos faz capazes da vassalagem ao Rei Eucarístico.
É, depois, a SS. Eucaristia o Sacramento da unidade, tão bem simbolizada no pão que lhe fornece a matéria, o qual, já salientava o Apóstolo, aglutina muitos grãos, assim como a Eucaristia vincula todos os fiéis: não só os de uma família, de uma região, de um povo, mas os do universo inteiro, todos os que participam da mesma Mesa do Pai de Família, todos os que se alimentam do mesmo Pão supersubstancial que a todos transmite a mesma vida divina do Pai Celeste. "Unum corpus multi sumus qui de uno pane participamus" (1 Cor. 10, 17).
Enfim, um terceiro aspecto da SS. Eucaristia que, igualmente, especifica o Reinado Eucarístico de Jesus Cristo, é seu lado hierárquico, suas relações com a Hierarquia Sagrada. Este Sacramento é, por excelência, o Sacramento da Hierarquia. É para Ele que existe a Hierarquia. Ele depende necessariamente de um hierarca. Sem o Sacerdote não há o Sacrifício, e o Sacerdote é feito para sacrificar, tem na sua própria natureza, relação para com o Sacrifício, para com a SS. Eucaristia.
Em todos os Sacramentos há uma relação necessária com o Sacramento do Altar. É este que dá aos demais a eficácia, que explica seu caráter sagrado, ainda quando administrados por um simples fiel. Em outras palavras, todos os outros Sacramentos seriam sinais vazios de significado se não fora, não existira a SS. Eucaristia. É esta que lhes determina a eficácia, como é também o fim a que eles tendem. A SS. Eucaristia está, portanto, no centro da Igreja: dela dimanam todas as graças; a Ela convergem todos os atos da sociedade sobrenatural.
Podemos, portanto, sem perigo de erro, afirmar que é o Sacramento do Altar que marca a nota distintiva da Igreja como sociedade desigual, que separa na Igreja a parte dirigente, o Clero, e a parte dirigida, a massa do povo fiel; e, como consequência natural, indica uma das condições exigidas para a realização do Reinado Eucarístico de Jesus Cristo: a hierarquia social.
SACRAMENTO DA UNIÃO — E DA DESUNIÃO
Os três aspectos da SS. Eucaristia que aqui apontamos estão entre si relacionados de sorte que constituem um todo harmonioso impossível de subsistir sem qualquer dos três elementos: a união ou unidade que proporciona a SS. Eucaristia é impossível sem a fé, e incompreensível sem a hierarquia.
De fato, é curioso notar como este Sacramento é, ao mesmo tempo, o que mais une os homens, e o que mais os separa. No Evangelho, a primeira vez que se fala de separação, de desunião, é precisamente no momento em que Jesus Cristo anuncia o Sacramento da união, do amor. Aí, registra S. João, muitos dos discípulos abandonaram o Mestre, pois não puderam suportar suas palavras, as palavras da promessa eucarística. Acharam-nas duras, e elas no entanto soam amor e misericórdia. "Durus est hic sermo, et quis potest cum audire" (Jo. 6, 60).
Semelhante expressão ouviram-na depois os séculos seguintes. Muitas heresias começaram pela repugnância dos heresiarcas em aceitar este Sacramento. E ainda hoje muitas almas erram fora do redil de Cristo porque não entendem o Sacramento do Altar.
Continua, porém, de pé a verdade de que não há Sacramento que mais concorra para a união entre os fiéis, e mesmo entre infiéis e crentes. A SS. Eucaristia vincula os fiéis no mesmo Credo, na mesma esperança — penhor que é de vida eterna — no mesmo amor. Ela é que faz, nesta imensa mole de milhões de almas, sentirem-se todas irmãs, interessadas umas pelas outras ainda que separadas pela distância, pelos costumes, pela cor, pela língua, por tudo o mais enfim. Ela é também que aproxima os fiéis dos infiéis, e de vários modos. Primeiramente, é a Eucaristia que dá ao apostolado a fecundidade para converter os gentios, e, portanto, une o mais estreitamente possível o pagão ao fiel, tornando-o participante da mesma fé; é outrossim a Eucaristia, maravilhoso mistério de amor, que por si só tem atraído à unidade da Igreja inúmeras almas sedentas de fé. Finalmente é a Eucaristia que distila no coração dos fieis este zelo pela salvação do próximo, que os leva a se entregarem a continuas orações e penosos sacrifícios que junto ao trono de Deus se trocam em graças de luz e amor para os habitantes das trevas da idolatria ou da heresia.
A Eucaristia é, por excelência, o Sacramento da união, da unidade sobrenatural. Ela une os fiéis, e chama os incrédulos. Desune enquanto afasta, escandaliza e revolta os espíritos endurecidos, enquanto arma o zelo dos que lutam pela causa de Deus, e inutilizam a influência e denunciam as tramas dos inimigos do Reinado de Cristo nas almas.
NÃO AMA A UNIÃO QUEM NÃO COMBATE O ERRO
Compreendemos por estas considerações como há de ser o Reinado Eucarístico de Jesus Cristo, e de que maneira havemos de empregar nosso zelo por que ele se realize entre os homens. Em outros termos, compreendemos a lição de unidade que nos dá a SS. Eucaristia, percebemos o sentido exato da prece do Divino Mestre ao instituir este Augusto Sacramento: "ut omnes unum sint" (Jo. 17, passim). Que todos sejam um, não pela união impossível dos contrários, nem pela união de todos a todos sem maior discernimento, além da mera consideração da identidade de natureza humana. Não. A união que Jesus Cristo quer, a união que proporciona sua Eucaristia, a união de todos os membros de seu Reinado, é a unidade na fé e pela fé. Sem a fé, a Eucaristia é incompreensível. Não compreendida, só pode gerar confusão, anarquia, desunião. E unir pela fé é preservar os que gozam desta inefável união, mediante o combate perseverante e ardoroso contra os inimigos dela, que são todos os inimigos da fé.
E não só os inimigos declarados do redil de Cristo, mas também os que se infiltram na Santa Igreja, e solapam internamente o espírito de fé, característica essencial de todo discípulo de Cristo. E de fato, a fé não é apenas a adesão da inteligência aos dogmas revelados. É todo um modo de ser e operar, toda uma conduta, todo um complexo de pensamentos e desejos e sentimentos no qual se refletem as verdades do Credo. E muito mais perigosos são os inimigos internos que, recitando corretamente sua profissão de fé, dessoram, com suas palavras e seu procedimento, este modo de ser e viver, este espírito de Cristo que deve animar todas as manifestações vitais do cristão, — muito mais perigosos, dizíamos, são estes inimigos do que aqueles que se apresentam de modo claro e indiscutível como lobos sem disfarce, com doutrina e moral abertamente contrarias ao Evangelho de Cristo e aos ensinamentos de sua Igreja. Estes últimos não iludem, não atacam à traição, não surpreendem, ao passo que os primeiros — lobos com pele de ovelha — atraem as almas, e nelas, já sem maiores empecilhos, criam um ambiente interior oposto ao espírito de Cristo.
Ora, o zelo pela conversão dos gentios não pode fazer olvidar o amor à preservação dos fiéis, e este amor será tanto maior quanto mais firme, tenaz e franca for a intransigência no combate àqueles que sub-repticiamente debilitam a generosidade com que se entregam as almas ao suave jugo de Cristo Jesus.
A luz destes princípios compreende-se a amorosa solicitude do Pastor Angélico, o Soberano Pontífice gloriosamente reinante, ao condenar, em documentos solenes, os múltiplos erros que "pululam entre os fiéis" (A. A. S. 42, p. 839): o falso misticismo (A. A. S. 35, p. 234), o quietismo (A. A. S. ib.), a moral nova (A. A. S. 44, p. 270 ss.). Ou esse diabólico irenismo (Enc. "Humani Generis") que procura a união pela união, baseado numa não sei que espécie de caridade que silencia diante do mal que avança, e é tanto mais ardorosa para com os maus, quanto mais tíbia e indiferente para com a sorte dos bons. Percam-se estes no emaranhado das doutrinas aparentemente ortodoxas e de fato perigosas, mas salve-se essa caridade toda especial que procura uma união sem definir bem o laço comum que estreitará os corações.
Compreende-se também como é anti-eucarística toda posição que minimaliza a fé ao procurar o congraçamento do gênero humano. Assim, são anti-eucarísticos os movimentos interconfessionais, os laicizantes sob pretexto de neutralidade religiosa, os que facilmente deixam à margem qualquer consideração de crença quando temem a desunião dos espíritos.
Não encerremos esta parte de nossas considerações sem apresentar um Santo de nossos dias justamente exaltado como dos que maior devoção tiveram à SS. Eucaristia, e dos que mais batalharam pela difusão do Reinado Eucarístico de Jesus: o Papa São Pio X. São conhecidos os fatos de sua biografia, e os decretos de seu Pontificado no sentido de tornar mais difundida a piedade eucarística, de facilitar que a Eucaristia informe mais a vida social do fiel. Ora, esse glorioso Papa mostrou-se igualmente forte e intolerante contra a infiltração dos erros na Igreja, tais como o Modernismo, e o movimento democrático que dele derivou na ordem temporal, conhecido pelo nome de Le Sillon. E não há contradição entre uma atitude do Santo e outra, senão que são complementos necessários uma da outra, de vez que não há Reinado Eucarístico de Jesus Cristo sem integridade da fé nas almas dos fiéis.
HIERARQUIA, FRUTO DO SACRAMENTO DO ALTAR
Sacramento da união, da unidade. Sacramento, pois, da multidão: "Multi unum corpus sumus qui de uno pane participamus" (1 Cor. 10, 17). Não porém, Sacramento do aglomerado, do amorfo. Esta multidão, estes muitos, relacionam-se entre si, unem-se harmoniosamente, constituindo um todo, e não um acervo de grãos anônimos. Todos têm sua personalidade, mas todos se ajustam na mesma unidade. Eis a beleza da Igreja, eis o fruto da Eucaristia. Tudo na Igreja está no seu lugar. Nada de confusões, nada de nivelamento: as partes se juntam em relações mutuas de deveres e obrigações das superiores para com as inferiores, das inferiores para com as superiores. Tudo na Igreja obedece à hierarquia, como fruto da Eucaristia, cujo reinado social há de ser hierárquico, ou não existirá.
Não nos vamos demorar fundamentando nossa concepção nos luminosos textos dos Papas, seja com Leão XIII, o grande impulsionador dos movimentos sociais em benefício das classes menos favorecidas, seja com São Pio X ou Pio XII, o vingador do genuíno espírito da Igreja contra os deturpadores dos ensinamentos dos últimos Pontífices. São coisas muito conhecidas.
Lembremos apenas que Deus, na sua onipotência, poderia criar um mundo só de átomos; seria difícil, no entanto, mostrar a sabedoria divina em semelhante criação. Julgamos, por isso, que não seria ousadia afirmar que a onipotência de Deus, orientada por sua sabedoria, ao criar, faria sempre entes desiguais. De fato, não compreendemos a criação a não ser que nela haja uma criatura racional, que pense e queira. Todo o mundo irracional para que serviria, se não houvesse ao menos o anjo para dar gloria a Deus? Ora, o anjo, que é a criatura mais simples que possamos imaginar, não atinge a simplicidade divina, e nele encontramos a hierarquia das faculdades que servem ordenadamente à natureza angélica.
Nada de admirar, portanto, que haja tanta harmonia no cosmos, em tão imensa variedade. É que as coisas de Deus, por bem ordenadas, são entre si hierarquizadas: anjos, homens, brutos, plantas, matéria inerte, todos, servindo-se uns dos outros, convergem para a maior glória de Deus. A Igreja, sociedade sobrenatural, segue a mesma linha da sabedoria divina: Apóstolos, discípulos, turba, ao tempo de Nosso Senhor; Papa, Bispos, povo fiel, na Igreja de hoje. Uma monarquia que, no entanto, permite a constituição de vários corpos que se organizam para o esplendor da unidade, dada pela fé, e pelo Vigário de Cristo com seu poder direto e imediato sobre todos.
Outra consideração chega ao mesmo termo. Que é que o inimigo — "homo inimicus", como diz o Evangelho — que é que o demônio mais odeia, e procura mais encarniçadamente destruir? É a hierarquia. O primeiro pecado — que criou o Inferno — que foi senão uma revolta contra a hierarquia estabelecida por Deus? Que significou o "non serviam" senão um grito contra a desigualdade decretada pela vontade divina? Como tentou o demônio aos nossos primeiros pais no Paraíso, senão acenando-lhes com uma igualdade com o Soberano e Supremo Hierarca de todo o Universo? De fato, que soava senão isto, aquele "eritis sicut dii"? E no decorrer dos séculos, como se manifestou a obra do senhor das trevas, senão sempre por movimentos contrários à hierarquia, na Igreja e na sociedade? O Cisma do Oriente queria uma igualdade entre Constantinopla e Roma; o Protestantismo, uma republica eclesiástica com plena igualdade entre clérigos e fieis, em magistério e em governo; o deísmo dos enciclopedistas, a igualdade entre a razão e a fé, isto é, entre Deus e o homem. A Revolução Francesa — fase aguda da grande Revolução que se iniciou no Paraíso — aliou ao ateísmo, a igualdade política, a igualdade social, o maior nivelamento possível. Sua evolução, como era natural, terminou no socialismo e no comunismo, que, a pretexto de uma igualdade econômica, pretendem de fato alijar qualquer autoridade. Diz-se com frequência que o comunismo, antes de movimento social-econômico, é uma religião. E é realmente. É a anti-religião que Satanás pretende erigir sobre os escombros da Religião de Cristo. E o é precisamente enquanto pretende estabelecer uma ordem social que se opõe diametralmente a tudo quanto é obra divina.
ANTIDOTO CONTRA OS MALES MODERNOS
E eis que a Eucaristia se apresenta como antídoto para os males modernos. Eminentemente hierárquica, a Eucaristia cria no fiel a humildade necessária para admirar, louvar e propugnar a ordem estabelecida por Deus, que de uma multidão faz um corpo harmonioso, onde as partes não se nivelam, não se justapõem, mas se ajustam nas relações orgânicas que fazem a maravilha do corpo social, como a harmonia dos órgãos constituem a beleza do corpo humano.
A SS. Eucaristia afeiçoa o fiel às desigualdades naturais, fundadas sobre os desígnios da Providencia, e às desigualdades consequentes dos atos honestos e livres postos pelos filhos de Deus. A SS. Eucaristia, Pão dos Anjos, causa entre os fiéis que fervorosamente dela se aproximam, as disposições indispensáveis para que a Igreja, sociedade sobrenatural terrena, imite a sociedade eterna celeste.
No sermão da promessa da Divina Eucaristia, mostrou Jesus a necessidade indispensável da fé para que o Sacramento pudesse operar e produzir fruto. Podemos dizer que o Reinado Eucarístico de Cristo tem a mesma condição. Alimentemos em nós o espírito de fé glorificado em todas as obras divinas, especialmente na estrutura da Igreja Católica, a Igreja Hierárquica, como insiste Sto. Inácio no Livro dos Exercícios, e estaremos nos predispondo para ser soldados da Realeza Eucarística de Cristo, em que se encontra a salvação para a humanidade, já cansada de tantos ódios e dissensões. A fé nos prepara o espírito, à Eucaristia cria em nós o amor que se abre para congraçar todos os homens, suavemente distribuídos nas varias classes sociais segundo os desígnios da Providencia de Deus.