COMANDADOS por valoroso capitão Vasco da Gama — cento e cinquenta tripulantes, abordo de três frágeis embarcações, realizaram, em 1498, um grande sonho da época: o descobrimento da rota marítima para as índias.
As dificuldades que tornavam quase impossível o acesso ao Oriente, eram finalmente superadas pelo gênio naval português. Ao cabo de poucos anos, um vasto território — que em certo sentido se poderia chamar de império — estender-se-ia até os confins da Ásia.
O ímpeto expansionista luso, como também o espanhol, era então estimulado não apenas pelo desejo de dilatar os limites do reino, mas também de propagar a Fé Católica. As naus lusitanas, em cujos mastros tremulava o pendão da Ordem de Cristo, transportaram missionários que, no Oriente, na África e nas Américas, com o apoio da Metrópole, semearam o Cristianismo.
É verdade que os tempos já não eram os da plenitude de Fé, como outrora. Tanto os germes de decadência trazidos pelo Renascimento quanto a cupidez faziam-se notar. Porém, não se pode negar que uma santa ousadia estava presente nesse empreendimento, no qual se vislumbrava algo do admirável espírito das Cruzadas.
A grandiosa epopeia do expansionismo marítimo de Portugal ficou imortalizada nos versos de Camões:
"E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império; e as terras viciosas
De África, e de Ásia, andaram devastando.
E aqueles, que por obras valorosos
Se vão da lei da morte libertando"
(Lusíadas, canto J.°, II)
Entretanto, a alegria exuberante de uma raça vigorosa perante os novos horizontes que se lhe iam apresentando, deveria manifestar-se não só em versos, mas também de outros modos. Se nos "Lusíadas" ouvimos as sonoridades de um poema composto para enaltecer as façanhas empreendidas por aquele povo, na Torre de Belém admiramos um monumento que se tornou símbolo das triunfais conquistas portuguesas de outrora.
Construída entre 1515 e 1520, no reinado de D. Manoel I, a Torre destinava-se à defesa do porto de Lisboa. Foi no decurso dos séculos usada como fortaleza, torre de vigia, depósito de armas e até prisão.
A riqueza de seu estilo — o gótico luso da última fase, cognominado manuelino — realçado pela cor branca de suas pedras, confere à Torre de Belém um encanto especial. Edificada no estuário do Tejo, a torre-fortaleza impressiona os espíritos pela solidez de sua construção, como também os fascina pela harmonia de suas linhas arquitetônicas (*).
Na foto noturna em que ela aparece nesta página, dir-se-ia um edifício mítico, banhado com luz dourada, emergindo da noite da História para comunicar uma mensagem de heroísmo.
Cercada por torreões e ameias, encontra-se no terraço do edifício, altaneira e atenta aos navios que entram no porto, uma imagem de Nossa Senhora do Born Sucesso. Para Ela se voltavam os olhares agradecidos dos marinheiros ao retornarem de suas perigosas viagens pelos mares de todo o orbe.
Com o passar dos tempos, a Torre de Belém tornou-se a mais preciosa relíquia evocativa da gesta marítima dos fundadores do Brasil e de todo o mencionado império lusitano. Ela lembra um sonho que se tornou realidade: o êxito de empreendimentos tidos como superiores as forças humanas.