Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 438 | página 14-15
| ÁFRICA DO SUL |

Na África do Sul, rei zulu condena atuação esquerdista de organismos eclesiásticos

DURANTE concorrido festival religioso realizado em julho do ano passado, numa pequena cidade do reino Zulu — vasto território incrustado na África do Sul — , o Rei Zwelithni Ka Bhekuzulu denunciou em termos categóricos a parcialidade política de organismos eclesiásticos daquele país, bem como o favorecimento da violência a que estes se entregam. As declarações do soberano, publicadas por toda a imprensa sul-africana, suscitaram acesa polêmica.

Os sete milhões de Zulus constituem a maior etnia autóctone da África do Sul: 35% dos negros, e 1/4 da população global do país. A quase totalidade deles vive em seu reino autônomo, KwaZulu, que ocupa grande parte da província do Natal, na costa do Oceano indico. Aguerridos e inteligentes, os Zulus tornaram-se protestantes, no século passado. Posteriormente muitos converteram-se ao catolicismo. Eles são conhecidos por seu anticomunismo militante.

Organismos eclesiásticos "dançam a música" de movimentos políticos de esquerda

Falando a uma multidão, o rei, embora anglicano, não hesita em levantar a questão: "Não estarão as Igrejas Anglicana e Católica apoiando a violência?"

Expondo suas "graves preocupações" a esse respeito, acrescenta: "Claros esforços têm sido feitos para utilizar as principais Igrejas como cobertura ao pensamento e à ação política partidária. Em nenhum lugar isto está tão demonstrado como no Conselho Sul-Africano das Igrejas, o qual possui hoje uma lista de organizações políticas que eles consideram como verdadeiros ou autênticos movimentos de liberação".

Em outro trecho de seu discursa o soberano zulu é ainda mais incisivo: 'Acautelai-vos contra os pregadores do Evangelho que cada vez mais são vistos incitando nosso povo a apoiara política do desespero e da violência, sob a capa de religião". Para o rei, tal pregação `faz da ideologia política o centro da religião popular, em vez de colocar Cristo como o centro da vida do cristão".

Referindo-se à campanha movida contra a África do Sul, o monarca zulu denuncia a inautenticidade da mesma no que diz respeito ao apoio dos negros: nas principais Igrejas protestantes e a Igreja Católica apelaram agora para sanções e pressões econômicas contra a África do Su4 sem desenvolver qualquer pesquisa entre os que pertencem a essas Igrejas, para saber se os cristãos simples apoiam o desinvestimento e as sanções ao agirem dessa forma o "Conselho das Igrejas" e a Conferência dos Bispos "dançam a música" de bem conhecidas organizações políticas.

Declaração episcopal pleiteia "pressões econômicas!!

A alusão do rei Zwelithini Ka Bhekulu à Igreja Católica deve-se ao fato de que, em maio do ano passado, a Conferência dos Bispos Sul-Africanos deu a público uma insólita declaração, pedindo a aplicação de "pressões econômicas" contra o país, como meio de forçar a execução de mudanças políticas. TM pedido, considerado exorbitante, infeliz e contraproducente, valeu aos autores um protesto tanto de negros quanto de brancos. Além disso — fato desconcertante — os próprios Bispos signatários declararam que o documento "não obriga a todos os católicos a concordarem conosco", admitindo assim que ele pudesse produzir uma cisão entre os fiéis.

E a cisão veio, de imediato... Em paróquias das principais cidades sul-africanas, vigários recusaram-se a ler o texto episcopal nas missas, e alguns deles até chegaram a impugná-lo asperamente nos sermões. Em outras igrejas, fiéis retiraram-se das missas quando era lido o texto, e até o contestavam em alta voz. As críticas generalizaram-se em todos os ambientes, católicos e não católicos, notadamente entre líderes negros. (A totalidade das pesquisas de opinião a respeito do assunto provam que a compacta maioria da população negra se opõe às sanções econômicas e ao desinvestimento como meios de pressão para por fim ao "apartheid").

Dias antes da referida declaração do Episcopado sul-africano, a novel entidade coirmã das TFPs, "Jovens Sul-Africanos por urna Civilização Cristã", realizou, conforme noticiamos em nossa edição de julho de 1986, n? 427, uma campanha-relâmpago de coleta de assinaturas, subscrevendo um respeitoso pedido aos Bispos para que se pronunciassem contra o desinvestimento. Em pouquíssimos dias foram obtidas 11.000 assinaturas de sul-africanos de todas as raças e condições, inclusive de padres e freiras... e até mesmo de um Bispo, desconforme com a atitude da Conferência Episcopal no caso. Posteriormente, em janeiro deste ano, após ter o Delegado Apostólico na África do Sul externado a grave preocupação da Santa Sé com a ingerência do Episcopado em questões políticas, uma "Comissão sobre Pressões Econômicas" nomeada pela própria Conferência Episcopal, chegou à conclusão de que apoiar sanções econômicas contra o país seria agora "contraproducente".

Ser antissocialista constitui "crime"?

Infelizmente, o esdrúxulo pedido de pressões econômicas não foi um ato isolado do órgão episcopal. O próprio jornal publicado pelo Episcopado, "The New Nation", chega a qualificar de "henjis", terroristas autores de bárbaros crimes, presos em flagrante. Também exalta com entusiasmo líderes comunistas, como o secretário-geral do PC sul-africano, Moisés Mabhida, a quem dedicou um panegírico biográfico sob o título: 'Moisés viu a 'terra prometida".

Enquanto assim enaltece terroristas e comunistas "The New Nation" manifesta sistemática hostilidade em relação aos líderes negros anti-esquerdistas e moderados, como o príncipe Mangosuthu Buthelezi, primeiro-ministro do rei zulu.

Essa patente parcialidade levou, em recente encontro com uma delegação da Conferência Episcopal, encabeçada pelo Arcebispo D. Denis Hurley, presidente do organismo, o príncipe Buthelezi a comunicar aos Prelados que os zulus rejeitam "a subserviência às metas e objetivos de organizações revolucionárias". Declarando-se "comprometido com a erradicação do Apartheid mas não com um futuro socialista", o príncipe indagou: "Porventura a Igreja Católica pensa que isto [não ser socialista] é um crime?"

O discurso do rei zulu e a posição de seu ministro exprimem, pois, o desconcerto de largas camadas da população negra sul-africana face a atitudes assumidas pelo Episcopado, como as descritas acima. O Soberano evocou no foral de seu discurso as tradições guerreiras de sua família e de sua nação, que "não precisam de mentores para lhes falar sobre a luta de libertação (...). Nós nos encontramos no mais duro do combate há mais de 100 anos". E acrescentou que procurar mudanças políticas por via ementa seria uma atitude "infantil" e "irresponsável". E concluiu conclamando os negros pertencentes a confissões religiosas a "unirem-se para oferecer maior resistência às campanhas destinadas a piorar as privações e a complicar ainda mais o problema da pobreza dos negros'.

"Clarion Call", revista do Bureau de Comunicações do reino zulu, 3? trimestre, 1986, p. 9 a 11; "The Southern Crou", semanário dominical da Igreja Católica sul-africana, 18-5-86 e 14-9-86; "The New Nation", publicado pela Conferência dos Bispos sul-africanos, 10-4, 9-5, 5-6, 25-9, 23-10-86; "Pravda", Moscou, 5, 10 e 11-3-86; "The Citizen". Johannesburgo. 28-7-1986 e 26-1-87; "Business Day", Johannesburgo, 27-1-87; "South African Digest", 30-1-87.

Rei zulu Zwelithini Ka Bhekuzulu acusou eclesiásticos católicos e protestantes de "dançar a música" de movimentos políticos de esquerda.


| DISCERNINDO, DISTINGUINDO, CLASSIFICANDO |

A felicidade possível

C. A.

O SR. OU A SRA. que está lendo esta coluna deseja fruir da felicidade? Naturalmente! Sabe no que ela consiste? Como obtê-la? O tema é apaixonante, pois corresponde a um dos anseios naturalmente mais profundos da alma humana.

Para entrar nele por um atalho, tomemos como exemplo alguém que, em sua época, o mundo considerou um homem feliz: o famoso escritor francês René de Chateaubriand.

Tendo ele nascido no Antigo Regime, viveu longamente, o que para muitos é já um fundamento de felicidade. Viajou por toda a Europa e pela América, conheceu de perto os maiores personagens de seu tempo, participou ativamente de acontecimentos decisivos para a humanidade. Era moço durante a Revolução Francesa, atravessou o período napoleônico, entrou de cheio na Restauração e veio a falecer em 1848. Possuía o título de Visconde, numa época em que pertencer à nobreza ainda era altamente considerado. Como diplomata, foi embaixador da França em Londres, e como político chegou ao alto posto de Ministro das Relações Exteriores de seu país. Como escritor foi um sucesso inigualado em seu tempo. Servido por uma inteligência privilegiada, penetrava o fundo das realidades e sabia descrevê-las com elegância e colorido. Seus livros se vendiam como água e eram disputados com sofreguidão. Exímio homem de salão, dotado de grande cultura, conversava admiravelmente; as pessoas concorriam para estar com ele e o tornaram objeto de constantes homenagens.

Sua vida sentimental, infelizmente nada recomendável, era entretanto, para o conceito mundano de felicidade, um êxito. Mulheres tidas como as mais belas e cultas da época disputavam seu afeto, como foi o caso da famosa Mme. Récamier.

Enfim, não havia prazer deste mundo, seja os do corpo, seja os das honras e dignidades, que ele não tenha fruído intensamente. Eis, entretanto, o que tal homem nos deixou escrito em suas Memórias:

"Eu jamais fui feliz, eu nunca alcancei a felicidade, a qual entretanto persegui com uma perseverança que decorre do ardor natural da minha alma; ninguém sabe qual era a felicidade que eu procurava, ninguém conheceu inteiramente o fundo de meu coração" ("Mémoires d'autre Tombe", apêndice ao tomo I, p. 449, Paris, Librairie Garnier Freres).

Então não é possível a felicidade nesta vida?

Se por felicidade se entende aquela plenitude de gozo e bem-estar a que todo o ser humano aspira, esta só será alcançada pelos que chegarem ao Céu. Nesta terra o sofrimento é componente essencial do peregrinar humano. Saber vê-lo como uma participação bendita na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, chegar a amá-lo ou pelo menos aceitá-lo resignadamente, é uma fonte de paz para a alma. Paz que é um elemento fundamental da felicidade possível nesta vida.

Entretanto, há mais. Para os que não foram chamados, por uma vocação religiosa especial, à renúncia dos bens da terra, esta paz interior, aliada à prática dos Mandamentos, possibilita inúmeras ocasiões de alegrias verdadeiras e inocentes, que ajudam a carregar a Cruz e preparam a alma para as insondáveis alegrias do Céu.

A contemplação de um belo panorama ou de uma jóia, por exemplo, o apreciar temperantemente um prato saboroso, o inalar com prazer um fino perfume, o agradar-se com as harmonias de uma música ou de um cântico, o afagar um veludo precioso, são deleites inocentes que uma pessoa calejada pelos prazeres cáusticos da sensualidade ou de um amor próprio inebriante não sabe degustar.

O prazer virtuoso é sempre temperante; o bom católico encontra nas alegrias inocentes desta terra um símbolo e um antegozo das grandes alegrias do Céu empíreo. Mas sabe também que a vida presente é fundamentalmente uma prova e um combate, e que as alegrias devem ser vistas como as flores que o guerreiro legitimamente colhe ao longo do caminho, nos intervalos da luta. São para ele um alento e não um fim.

De fato, na árdua batalha desta vida, a Providência Divina frequentemente semeia ao longo de nosso caminho verdadeiras alegrias inocentes, quer de ordem natural, quer sobrenatural. Devem ser fruídas sem apego, e tendo-se presente que, como as flores do campo, elas murcharão. Mas devemos também estar aptos a receber por meio delas aquela dose de alento e de esperança de que tais alegrias se destinam a transmitir-nos, a fim de ajudar-nos a carregar nossa Cruz e a enfrentar a batalha da vida. Até o momento em que, pela misericórdia de Deus e a intercessão da Virgem Santíssima, se nos abram, de par em par, as portas da felicidade sempiterna!

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