Cardeal Lubachivsky a João Paulo II: "Santidade, Vós não deveis ir a Rússia"
O CARDEAL Myroslav Ivan Lubachivsky, superior geral dos católicos ucranianos, exilado em Roma (ele nunca foi autorizado sequer a visitar sua arquidiocese, Lviv Leópolis), deu entrevista à imprensa sobre o espinhoso assunto de uma eventual viagem de João Paulo II a Moscou. Eis algumas de suas afirmações:
"No que concerne à viagem do Papa à URSS — e, no caso que me diz mais diretamente respeita à Ucrânia — já tomei posição sobre a questão Estou convencido de que todo católico e cristão ficaria feliz com uma viagem do Santo Padre à Ucrânia, mas na situação atual não é realista falar-se de uma tal viagem. Nada sei sobre a existência de qualquer convite do Patriarca Pimen ao Papa. Mas no que toca à Ucrânia são os católicos ucranianas dos quais sou o porta-voz, que deveriam fazer o convite entretanto a situação é tal que não posso apresentar semelhante convite ao Santo Padre. Na presente situação política, tal visita resultaria totalmente inoportuna e contraproducente, porque seria aproveitada pelos governantes soviéticos para fins puramente propagandísticos. Um encontro do Santo Padre com o Patriarca de Moscou acarretaria uma grave perda da autoridade moral do Papa aos olhos de todos os que, na URSS, têm fé, os quais bem sabem quanto o Patriarcado de Moscou está comprometido com o governo ateu e comunista. (...) Nas várias entrevistas dos representantes do patriarcado de Moscou encontramos um elemento variável e outro constante. O variável é sobre a ida do Papa à URSS. São pseudo-convites. E um jogo. Às vezes acenam com uma viagem de sentido religioso a Moscou, mas não falam de ida à Lituânia ou à Ucrânia [regiões densamente católicas]. Outras vezes tornam presente as dificuldades" ("Corriere della Sera", Roma, 19-3-87).
Para entender todo o alcance dessas incisivas palavras do Cardeal Lubachivsky, é preciso conhecer alguns pressupostos.
Uma das mais belas páginas da história do nosso triste século XX é quase inteiramente desconhecida do público brasileiro: a pertinaz resistência dos católicos ucranianos às tentativas do comunismo russo de destruir a Santa Igreja na Ucrânia, absorvendo-a pelos cismáticos-comunistas do assim chamado "patriarcado de Moscou".
A Ucrânia, com suas terras imensamente férteis, mas hoje reduzida à miséria pelo coletivismo, foi incorporada ao império comunista russo. Foi ali, às margens do majestoso rio Dnieper, em sua antiquíssima capital, Kiev, que no ano 988, o rei São Wladimir, após prolongado processo de conversão, fez batizar todo o seu povo. Mais tarde, com o cisma de Bizâncio, à qual estava intimamente ligada, a igreja ucraniana acabou se separando de Roma.
Porém, no início do cisma de Bizâncio, em 1054, a Ucrânia manifestava forte tendência a permanecer católica. E foi só devido a muita pressão e intriga bizantina que os ucranianos romperam com Roma, depois de 150 anos de Bizâncio o ter feito. Em 1439, o metropolita de Kiev, Isidor, reatou com Roma, no Concilio celebrado em Florença. Mas o grão-príncipe de Moscou, enfurecido, não aceitou a volta dos ucranianos à Igreja verdadeira. Prendeu e depôs o metropolita e seus seguidores.
Em 1596, porém, os ucranianos e bielorrussos, através de seus episcopados, novamente se uniram à Santa Igreja, causando grande choque nos cismáticos. Tal acordo denominou-se União de Brest-Litovsk, selada com sangue pelo Arcebispo mártir São Josafá.
A partir daí iniciou-se uma luta sem tréguas de Moscou para quebrar os laços dessa união com Roma. Os mencionados católicos fiéis — ucranianos e bielo-russos — passaram a ser conhecidos como "uniatas". O ódio e a ferocidade dos cismáticos se devem sobretudo à atração que os uniatas exercem sobre os povos eslavos ainda aderentes ao cisma. Os católicos conservam a mesma liturgia oriental de São João Crisóstomo, e a língua litúrgica é o eslavônico.
Sob o regime comunista, as sangrentas perseguições e pressões de toda ordem se intensificaram enormemente, culminando com a supressão pura e simples da Igreja na Ucrânia. Houve uma legião de mártires e de confessores da fé. E formou-se uma autêntica Igreja das catacumbas, com centenas de padres e freiras clandestinos. Comenta-se que essa Igreja das catacumbas está mais florescente do que nunca, contando até com seminários e conventos clandestinos, embora praticamente esquecida por aqueles que mais deveriam apoiá-la no Ocidente, mas que preferem "dialogar" amistosamente com os perseguidores comunistas.
Ainda hoje, grande número de católicos ucranianos, esquecidos por seus irmãos na fé do Ocidente, jazem nos terríveis campos de concentração comunistas, os quais nada mudaram com a decantada política de "abertura" de Gorbachev.
A Igreja Católica uniata continua hoje proibida e perseguida na Ucrânia. Seus magníficos templos e catedrais foram entregues aos cismáticos comunistas do patriarca Pimen, que aderiu ao governo soviético e por isso goza das mordomias da "nomenklatura". Outros foram transformados em depósitos ou em museus de ateísmo.
Apenas foi permitida a abertura de algumas poucas igrejas católicas de rito latino, servidas por padres de origem polonesa, ostensivamente abertas para servir às minorias polonesas que vivem na região. Essas poucas igrejas frequentadas por estrangeiros vivem superlotadas de católicos ucranianos, que lá vão receber os sacramentos.
A mesma perseguição é movida também contra os católicos lituanos. A Lituânia é a única região do império comunista russo que é maciçamente católica. E ali a Igreja igualmente floresce.
Assim sendo, nesse clima de perseguição aos católicos é que se deve avaliar a perplexidade dos ucranianos fiéis a Roma ante as notícias — veiculadas cada vez com mais insistência — de que João Paulo II iria à Rússia participar dos festejos organizados pelos cismáticos para comemorar o milênio do batismo de são Wladimir e de seu povo. As notícias até agora recebidas acrescentam que o Pontífice não seria autorizado a visitar as regiões católicas da Ucrânia e da Lituânia, limitando-se a participar de atos ecumênicos em Moscou com o "patriarca" Pimen e demais bispos cismáticos, seguidores do regime comunista de Moscou.
Esse é o contexto em que se inserem as peremptórias declarações do Cardeal Lubachivsky.
Anexada a uma carta proveniente da Ucrânia, escrita em outubro de 1979 — apresenta católicos ucranianos rezando diante de sua igreja fechada pelos comunistas. Em várias igrejas como está os fieis vem colocando floras junto a porta, há quarenta anos. Que belo exemplo de fidelidade e firmeza para os católicos do Ocidente! (cfr. "Iglesia de los Mártires", periódico bimestral, nº 2, março 1.981, Kenigstein, Republica Federal da Alemanha).
Quem é quem nas recentes invasões de terrenos
A IMPRENSA diária, o rádio e a televisão apresentaram a justo título, nas últimas semanas, abundante noticiário a respeito da onda de invasões de terrenos urbanos, ocorridas recentemente em São Paulo, Porto Alegre, Goiânia e Baixada Fluminense.
Por paradoxal que seja, a própria superabundância do noticiário dificulta ao leitor a formação de uma ideia de conjunto dos fatos, que entretanto vão-se afigurando como sintomas de uma verdadeira guerrilha urbana em fase de gestação.
Nesse acúmulo cacofônico de fatos, fica difícil a um leitor, solicitado por mil preocupações da vida diária, vislumbrar o fio da meada. Por isso, de forma sucinta, apresentamos a seguir algumas notícias bem significativas, publicadas na imprensa nacional.
Um Bispo, admirador de "Che" Guevara, comanda invasões
D. Angélico Sândalo Bernardino, Bispo-Auxiliar de São Paulo encarregado da Região Leste, "comanda diariamente" a mobilização dos invasores ("Jornal do Brasil", 12-4-87).
Admirador de "Che" Guevara, cujo "poster" mantém bem destacado na parede de seu escritório ("Folha de S. Paulo", 21-4-87), ele avalia o movimento dos sem-terra como "promissor", ao mesmo tempo que afirma que a Igreja cumpre sua missão ao incentivar os "movimentos populares" (idem).
"D. Angélico iniciou este movimento há muitos anos e, há três anos, nós conseguimos articulá-lo com o cadastramento das famílias" ("Jornal do Brasil", 12-4-87), informa o Pe. Antonio Luiz Marchioni, conhecido entre os invasores como o "Padre Ticão", e braço direito de D. Angélico, segundo as informações da imprensa.
"Os padres Mauro, Emílio e `Tirão', de igrejas da Zona Leste, são apontados como líderes dos invasores. Do padre 'Ticão' , a Polícia afirma que ele costuma distribuir senhas (...) e indicar terrenos que podem ser ocupados" ("O Globo", 2-4-87).
Articulação entre "esquerda católica" e PC do B
O Padre Ticão é partidário de um dos principais baluartes da Teologia da Libertação no Brasil, Frei Leonardo Boff. Para aquele sacerdote o frade tem "uma importância muito grande na história da Igreja brasileira". O Padre Ticão pretende continuar trabalhando muito pelos chamados movimentos populares. "Chega de unia Igreja que esteve sempre do lado da classe dominante", diz ele, repetindo o velho chavão com que os progressistas procuram caluniar a Igreja ("Jornal do Brasil", 12-4-87).
Já a líder do PT na Assembleia Legislativa de S. Paulo, deputada Luiza Erundina, veterana militante dos movimentos de invasões de terras na capital, saúda com alvoroço o que qualifica como a grande novidade dessa "campanha pelo direito à moradia": a "articulação unitária" entre Clero esquerdista e PC do B.
"Existe uma proximidade muito maior de nosso partido com a Igreja da Teologia da Libertação, do que com o PC do B, mas estamos conseguindo uma articulação com todas as forças e a maioria dos problemas, quando surge, é entre os quadros intermediários, e não entre as direções", diz a deputada petista ("Jornal do Brasil", 12-4-87).
Os bairros mais afetados pelas ações de esbulho estão exatamente entre aqueles que se acham sob a jurisdição eclesiástica do Bispo D. Angélico Sândalo Bernardino: São Miguel Paulista, Itaim Paulista, Ermelindo Matarazzo e Guaianazes ("Jornal do Brasil", 6-4-87).
Articuladores ensinam tática revolucionária aos invasores
Os invasores, reunidos sob as ordens do "Clero de barricada", e orientados por agentes pastorais e membros do PC do B, já estavam mobilizados desde as cinco horas da manhã de 13 de abril, dia da primeira ação policial para efetivar as liminares de reintegração de posse concedidas pela Justiça aos legítimos proprietários, lesados pelas hordas de invasores.
No Barracão Preto, QG dos comunistas, várias mulheres tinham como tarefa ouvir as notícias do rádio, para saber em que áreas a Polida ia começar a atuar.
Às 7 horas, a primeira notícia: a operação começaria dentro de duas horas. Uma faixa vermelha foi então estendida em frente ao Barracão Preto, com a frase: "Povo unido jamais será vencido".
Comissões da Pastoral da Terra e do PC do B começaram a movimentar-se, para dar "as regras do jogo", segundo os líderes.
"As moças que trabalham na igreja e que nos ajudaram a organizar a invasão nos disseram para sair quando a polícia chegasse. É isso o que a gente está fazendo. Mas depois a gente volta. Esse pedaço de terra é nosso", disse Eunice Simias Paes, uma das invasoras da Zona Leste ("Jornal da Tarde", 14-4-87).
Também Antônio de Souza dá seu testemunho: "O Padre e o pessoal do PC do B ensinaram: basta construir e tudo será mais tranquilo" ("0 Estado de S. Paulo", 14-4-87).
"Eles podem vir 50 vezes. Nós iremos 51 para marcar de novo nossos lotes", disse Joao Gama, o líder da invasão do Jardim Miragaia ("Jornal do Brasil", 14-4-87).
"Nem que o proprietário cerque o terreno, a gente vai deixar de entrar. Derrubaremos muros ou cercas, porque a área é nossa" (idem).
Na Estrada D. Joao Nary, no bairro de Itaim Paulista, um dos mais convulsionados pelas ações de esbulho, invasores aguardam com paus a chegada da PM, em 23 de abril último.
Segundo o "Jornal do Brasil", D. Angelico Sandalo Bernardino, que mantém na parede de seu escritório um "poster" de Che Guevara (foto), "comanda diariamente" a mobilização dos invasores.