Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 438 | página 04-05
| CRISE DO MUNDO MODERNO |(continuação)

Um abismo traz outro abismo. Nos dois países asiáticos citados, preferiu-se sacrificar princípios morais, cedendo diante do comunismo invasor, para que se salvassem vidas humanas. Hoje, vidas desaparecem, ceifadas pela Aids que se alastra em meio à moral sacrificada, já quase inexistente.

O Ocidente, até agora, procurando esquivar-se da alternativa — aliás, falsa — tornar-se comunista ou morrer ("red or dead"), muitas vezes deixou molemente cair sob o jugo marxista milhões de pessoas. Hoje ele é posto diante de outra alternativa, implacável e dilacerante: o risco de vida e a morte vergonhosa, de um lado, ou a castidade, seja ela matrimonial ou a do celibatário, de outro. O que preferirão os homens? Continuarão a violar os princípios morais católicos, lançando-se ainda mais fundo no poço da devassidão ou se converterão à observância das boas normas de comportamento cristão?

O problema moral é candente no caso.

O jornal italiano "Corriere della Sera" publicou nas vésperas do último Natal uma entrevista do prof. Eolo Parodi, presidente dos médicos italianos. Declarou ele: "Creio que todos os nossos higienistas e imunolólogos poderiam começar a organizar cursos de aperfeiçoamento sobre a problemática Aids. A meu ver, *pois do câncer, a Aids é a segunda doença que tem possibilidade de agigantar-se, encontrando alimento precisamente no bem-estar, no progresso, na promiscuidade e ainda na perda de princípios éticos e morais, nos problemas da família moderna, no impulso obsessivo e na sexualidade competitiva. Parece quase uma defesa ou uma vingança da natureza em relação ao homem arrogante e prevaricador".

Em sentido contrário a estas declarações, estampou o mesmo jornal, palavras do escritor Gaspar B. Amidei. Este procura velar o fundo nitidamente moral da questão: "Há quem fale de peste e quem fale de punição; há quem fale de Sodoma e Gomorra. Mas a Aids 'não é um flagelo de Deus, é um vírus, um terrível vírus que ataca o sistema imunológico".

Na edição de 5 de janeiro de "O Globo", o escritor Herbert Daniel opina que atribuir ao aparecimento da Aids características apocalípticas de fim de século, só atrasa a evolução dos conhecimentos sobre ela. "Existe medo entre os homossexuais, mas estamos organizando várias atividades, como debates, para esclarecer as pessoas", acrescentou Herbert, homossexual confesso.

Considerando-se esse aspecto moral e religioso da questão, seria de esperar um pronunciamento firme e orientador das autoridades eclesiásticas, sobretudo num país de maioria católica como o Brasil, exortando a população a abandonar o vício que vem constituindo, em toda parte, o principal fator de expansão da Aids. Tão mais explicável se tornaria essa interferência quanto inúmeros são os que já se perguntam se a Aids — estreitamente ligada ao pecado contra a natureza — não é uma punição divina.

Aliás, a própria ciência vem em abono da prática da castidade. O "New York Times", em sua edição de 31 de janeiro p.p., relata que o "Secretário de Educação William J. Benett e o Cirurgião Geral Everett Koop, resolveram suas divergências sobre educação a respeito da Aids, publicando uma declaração conjunta na qual sustentam que se deve ensinar aos jovens que a abstinência sexual é o mais seguro".

Em sentido análogo a revista "Time", de 16 de fevereiro p.p., relata que "em 1986 o número de mortes de Aids contraída em relações heterossexuais dobrou, segundo informa o Centro para o Controle de Doenças, em Atlanta. Erica Jong — prossegue a publicação — outrora 'suma sacerdotiza' da liberdade sexual, apresentou o dilema de modo sucinto: não seria mais fácil abandonar inteiramente as relações sexuais (..)?"

Em longa carta dirigida em 10 de abril a um dos mais importantes jornais alemães,

"Frankfurter Allgemeine Zeitung", o Prof. Dr. A. Schuller, do Instituto de Medicina Social da Universidade de Berlim, faz uma análise científica aprofundada a respeito da rápida expansão da Aids, dos meios que já se estão empregando e dos que se pretendem empregar para combatê-la. Quanto a esses meios, o Dr. Schuller conclui pela precariedade, ou pela impossibilidade de se assegurar uma defesa eficiente contra a infecção em relações sexuais. E acrescenta: "Dada a expansão epidêmica da Aids, a solução não será encontrada em um remédio milagroso ou na utilização de meios mecânicos de prevenção, mas sim numa mudança radical do nosso modelo de comportamento, de nossa moral, bem como de nossos hábitos permissivistas. (..) A abstinência se tornou um imperativo de nossa civilização, não enquanto categoria moral, mas enquanto princípio de sobrevivência. (..) Sobreviverão apenas aquelas sociedades que tiverem força de renunciar à liberdade sexual".

Estas declarações de um Secretário de Educação, de dois médicos e de uma defensora da inteira liberdade sexual pareceriam indicar que, ao constatar que a propagação da "peste" está ligada à decadência dos costumes, um movimento de retorno à razão estaria por se dar em meio à atual confusão dos espíritos. Seria auspicioso. Mas, infelizmente, trata-se de vozes isoladas, raras em meio à torrente das que se pronunciam em sentido contrário à adoção de qualquer freio para os vícios morais que há muito grassam nas sociedades hodiernas.

Só uma conversão religiosa pode modificar a psicologia do viciado

Por outro lado, sem uma conversão de natureza religiosa o viciado dificilmente abandona seu vício. A previsão dos malefícios deste não o move a abandoná-lo. As devastações crescentes produzidas pelo uso de drogas, por exemplo, apesar da propaganda preventiva e da repressão, tem patenteado a triste psicologia do viciado. Tudo indica que a mesma psicologia se manifestará em relação aos vícios sexuais, principais difusores da Aids: obnubilado pela atração do prazer imediato, o homem escravizado ao vício evoca pseudo-razões segundo as quais "com ele, dado seu caso concreto, e suas características, o vício não arruinará..."

Um encontro de alto nível científico e social realizado na Alemanha, em Heidelberg, a 6 de abril p.p., confirma tristemente tais ponderações. Segundo o diário "Frankfurter Allgemeine Zeitung", de 7 de abril último, a Aids continua a atacar. Na Alemanha contaminam-se, diariamente, cerca de duzentas pessoas. Entretanto, a maioria da população é indiferente ao fato. Tal indiferença, segundo a Sra. Schäfer, Secretária da Previdência Social do Estado de Baden-Württemberg, causa inquietação. Ela acrescenta que a uma pesquisa de opinião, jovens entre 17 e 19 anos responderam, sem exceção, que a ameaçaAids absolutamente não lhes diz respeito. Como se sabe, nessa idade, as relações sexuais praticam-se sem empecilhos naquele país.

Na França, uma pesquisa de opinião realizada pelo jornal "Le Parisien", no início de abril deste ano, revela que jovens, de ambos os sexos, entre 13 e 19 anos, consideram o casamento ou inviável ou supérfluo (21%); apenas 5% ainda acham que a conservação da virgindade até o casamento é importante, sendo que em 1972, essa parcela era de 21%, na mesma faixa de idade. Mesmo assim, com a generalização das relações sexuais fora do matrimônio, 84% dos jovens declaram na mesma pesquisa que a Aids em nada alterou seu comportamento sexual. Também na França análoga indiferença se faz notar...

De fato, tal indiferença foi comprovada durante o citado encontro de Heidelberg, cuja realização foi divulgada pela imprensa, com convites dirigidos ao público pela Democracia Cristã, partido atualmente no poder, tendo sido anunciado que a ele compareceria a Sra. Schäfer, Secretária da Previdência Social. O Encontro se intitulou: "Aids: a peste mundial". Sua finalidade era impedir a propagação da doença e "fechar as portas da sociedade à penetração do vírus", segundo seus organizadores.

Quem compareceu aos debates? Teriam sido os mais interessados em se prevenir, como os homossexuais, os heterossexuais frenéticos do tipo "outra noite, outra companhia", os drogados ou os pertencentes aos chamados "grupos de risco"? Não! Estes estavam ausentes. Atenderam ao convite apenas médicos, terapeutas, assistentes sociais, organizações filantrópicas femininas....

A Aids, segundo confirmou a conclusão do Encontro, propaga-se principalmente pelo contato sexual. Contudo, as pessoas mais expostas à doença eximem-se de precaver-se...

Segundo a Sra. Schäfer, o problema complica-se, pois, essas mesmas pessoas se furtam a um controle médico. Tão mais difícil se torna a questão quanto se sabe que não basta apenas um exame: a cada seis ou oito semanas ele deve ser repetido, do contrário não é eficaz.

Muitos se negam ao controle médico, dizendo não desejarem saber se talvez já contraíram a infecção. Outros, que trocam de parceiro com frequência, alegam: se já estou contaminado, porque não podem então os outros também se contaminarem? "Em face da Aids — alerta sombriamente a Sra. Schäfer ninguém mais pode estar seguro".

Sem dúvida, haverá aqueles que, movidos pelo terror de contrair a Aids, procurarão de algum modo conter o livre curso de suas paixões desordenadas. Mas sem uma conversão de natureza religiosa, o viciado não abandona seu vício.

Em vista da disseminação da Aids, em assustadora escala social, é oportuno lembrar o sábio ensinamento de Leão XIII: "É por isso que, do mesmo modo que a ninguém é lícito descurar seus deveres para com Deus, e que o maior de todos os deveres é abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas, assim também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo o seu beneplácito" (Encíclica "Immortale Dei", de 1º de novembro de 1895, Editora Vozes, Petrópolis, 2ª edição, 1948).

Precisamente este abandono da religião se deu com as sociedades da época atual: tornaram-se estranhas à Religião e comportam-se como se Deus não existisse. Como querem agora procurar uma saída que as liberte do flagelo Aids que as açoita? Não é perseverando em seu afastamento do Criador que poderão alcançar o que aspiram!

Mais do que ninguém desejamos nós que, pela conversão à autêntica Fé católica e a consequente prática dos Mandamentos da Lei de Deus, a humanidade se liberte por completo da "peste do fim do século".

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